Ponto de Vista de Ellen
O despertador tocou antes mesmo do sol nascer.
Ellen abriu os olhos devagar, como se cada manhã fosse um lembrete c***l de que sua vida não lhe pertencia mais. Por alguns segundos, ficou imóvel, observando o teto simples do pequeno quarto alugado. A tinta descascando no canto, a lâmpada fraca pendurada por um fio e o silêncio quebrado apenas pela respiração suave da filha.
Virou o rosto.
Sara dormia abraçada ao seu velho ursinho, o único brinquedo que Ellen conseguira comprar sem parcelar. Os cachinhos castanhos espalhados pelo travesseiro fino e a boquinha entreaberta davam à menina um ar de paz que Ellen não conhecia há anos.
— Bom dia, meu amor… — sussurrou, passando a mão com cuidado pelos cabelos da filha.
Sara resmungou, mas não acordou.
Ellen se levantou com cuidado para não fazer barulho. O chão frio sob seus pés descalços a despertou de vez. Caminhou até a pequena cozinha conjugada, colocou água para ferver e preparou um café ralo. O cheiro não era forte, mas era suficiente para enganar o estômago.
Enquanto o pão amanhecido esquentava na frigideira, seus pensamentos voltaram, como sempre, para o passado que ela tentava enterrar.
A porta sendo aberta com violência.
A voz do pai ecoando pela sala.
A mãe chorando, mas sem coragem de defendê-la.
— Uma filha grávida de um desconhecido? Você não é mais minha filha!
Ela lembrava de cada palavra.
De cada olhar.
Da mala jogada na calçada.
Grávida. Sozinha. Dezessete anos.
E agora, aos vinte e um, ainda estava juntando os pedaços.
Sacudiu a cabeça, afastando as lembranças. Não podia se dar ao luxo de quebrar. Não mais.
Sara precisava dela inteira.
Minutos depois, Sara estava acordada, vestindo o uniforme simples da escolinha: camiseta amarela e short azul. Ellen prendeu os cabelinhos da filha em dois pequenos rabos de cavalo tortos.
— Mamãe, hoje tem desenho? — perguntou a menina, com a voz ainda sonolenta.
— Tem sim, meu amor. E você vai me contar tudo depois.
Sara sorriu, mostrando os dentinhos pequenos e ainda incompletos.
Aquele sorriso valia cada humilhação.
Cada madrugada m*l dormida.
Cada lágrima engolida.
A escolinha ficava a três quadras do pequeno apartamento. Ellen segurava firme a mão da filha enquanto caminhavam pela calçada irregular. O trânsito começava a ganhar vida, buzinas distantes misturadas ao cheiro de pão fresco vindo da padaria da esquina.
Ao chegarem, Sara correu para dentro, já acostumada com a rotina.
— Tchau, mamãe!
— Tchau, minha princesa. Eu te amo.
— Amo você também!
A porta se fechou.
E, como todos os dias, Ellen sentiu o peito apertar.
Deixar a filha ali era necessário.
Era por ela.
Sempre por ela.
O centro da cidade parecia outro mundo.
Prédios espelhados refletiam o céu cinza da manhã, homens de terno caminhavam apressados, mulheres elegantes falavam ao telefone com vozes firmes. Perfumes caros, sapatos de salto, carros luxuosos.
Ellen atravessava aquele cenário com seu uniforme simples: calça escura, camiseta azul com o logotipo da empresa e tênis gastos.
O prédio onde trabalhava era um gigante de vidro e aço. Imponente. Frio. Intocável.
Ela passou pela porta dos fundos, como sempre.
Funcionários como ela não entravam pela frente.
No vestiário, trocou de sapatos e prendeu o cabelo em um coque apertado. Observou seu reflexo no espelho manchado.
Olheiras leves.
Rosto jovem, mas cansado.
Beleza que ela mesma já não enxergava.
— Bom dia, Ellen — disse Dona Marta, outra funcionária da limpeza, já empurrando o carrinho.
— Bom dia.
— Hoje tem reunião no décimo andar. Capricha lá. Aqueles engravatados reclamam de tudo.
Ellen apenas assentiu.
Reclamar era um luxo que ela não possuía.
Seu trabalho era simples.
E digno.
Limpar banheiros.
Recolher lixo.
Passar pano em salas de reunião onde decisões milionárias eram tomadas.
Apagar marcas de café de mesas de vidro onde pessoas importantes nunca saberiam seu nome.
Alguns a ignoravam completamente.
Outros a tratavam como se ela fosse invisível.
Havia também os que demonstravam desprezo abertamente.
— Ei, cuidado com esse balde — disse uma mulher de salto alto, desviando como se Ellen carregasse uma doença.
— Desculpe — murmurou.
Ela sempre pedia desculpas.
Mesmo quando não estava errada.
Porque precisava daquele emprego.
Porque o salário pagava o aluguel.
Porque o convênio médico mantinha Sara saudável.
Humilhação não doía mais do que ver a filha passar necessidade.
No décimo andar, o luxo era ainda mais evidente.
Carpetes macios.
Paredes com obras de arte.
Mesas de madeira escura que custavam mais do que tudo o que Ellen possuía.
Ela entrou silenciosamente na sala de reunião vazia. O cheiro de perfume caro e café fresco ainda pairava no ar.
Enquanto limpava a mesa, seus dedos tocaram a superfície lisa e fria.
Quantas vidas cabiam ali?
Quantos sonhos eram decididos naquele espaço?
E por que o dela parecia sempre tão distante?
O som da porta se abrindo a fez congelar.
Passos firmes ecoaram pelo carpete.
Ela não se virou imediatamente. Funcionários entravam e saíam o tempo todo.
— Você é nova aqui?
A voz masculina era grave. Controlada. Segura.
Ellen virou-se.
E, por um segundo, esqueceu como respirar.
O homem à sua frente parecia saído de uma revista.
Alto.
Terno perfeitamente ajustado.
Olhos escuros e penetrantes.
Rosto bonito, mas frio.
Havia algo em sua postura que não era apenas autoridade — era domínio.
— Não, senhor — respondeu, abaixando o olhar. — Já trabalho aqui há alguns meses.
Ele a observou em silêncio.
Um silêncio desconfortável.
Pesado.
Como se estivesse avaliando algo além de sua função.
— Nome?
— Ellen.
Ele repetiu, lentamente:
— Ellen…
Seu nome soou diferente em sua boca. Mais denso. Mais perigoso.
— Continue seu trabalho — disse por fim.
Ela assentiu rapidamente, voltando a limpar a mesa, mas suas mãos tremiam.
Sentia o olhar dele em suas costas.
Não era curiosidade.
Não era indiferença.
Era interesse.
E aquilo a assustou mais do que desprezo jamais assustara.
Quando terminou, saiu da sala quase sem ar.
No corredor, encostou-se à parede fria.
— É só mais um chefe… — sussurrou para si mesma.
Mas, no fundo, algo lhe dizia que não.
Que aquele homem — o príncipe admirado por todos — carregava uma escuridão que o mundo se recusava a ver.
E, sem saber, Ellen acabara de entrar no campo de visão dele.
Naquela tarde, enquanto esfregava o chão do lobby, seu telefone vibrou no bolso.
Uma mensagem da escolinha.
"Sara está bem. Comeu tudo e brincou bastante."
Ellen sorriu, sentindo os olhos marejarem.
Tudo valia a pena.
Tudo.
Mesmo que sua vida fosse feita de silêncios, cansaço e portas fechadas.
Ela ainda tinha um motivo para continuar.
Ela ainda tinha Sara.