parece um conto de fadas

1068 Palavras
Ponto de Vista de Ellen Eu estava apavorada. Não era um medo pequeno ou passageiro. Era aquele tipo de medo que começa no estômago e sobe devagar pelo peito, apertando a garganta e deixando a respiração curta. Fiquei parada no meio da sala do meu pequeno apartamento, olhando para meu reflexo no espelho que ficava encostado na parede. Por um momento, eu simplesmente não me reconheci. Meus cabelos estavam diferentes. Muito diferentes. Roberta tinha passado quase uma hora mexendo neles. Primeiro escovou, depois enrolou mecha por mecha com um aparelho que eu nem sabia usar. Agora os fios loiros caíam em cachos largos até quase a minha cintura. — Assim fica muito melhor — ela disse, orgulhosa do resultado. Eu toquei os cabelos com cuidado. Nunca tinha usado eles assim antes. Sempre mantive simples, preso ou liso, por praticidade. Trabalhar limpando escritórios não exige glamour. Mas agora… Agora parecia que eu estava vestindo outra versão de mim mesma. O vestido azul abraçava meu corpo de forma elegante. O tecido fino parecia caro demais para alguém como eu. E provavelmente era. A saia caía suave até perto dos meus joelhos, deixando minhas pernas à mostra de um jeito delicado. Os ombros descobertos davam ao conjunto algo sofisticado. Eu me movi um pouco. O tecido brilhou levemente sob a luz da lâmpada. Era lindo. Muito mais bonito do que qualquer coisa que eu já tive. O sapato também era incrível. Prateado. Brilhante. Elegante. Parecia algo que uma atriz usaria em um tapete vermelho. E a maquiagem… A maquiagem estava perfeita. Roberta realmente tinha talento para aquilo. Ela destacou meus olhos com sombras suaves e delineador delicado. O batom era de um tom rosado que deixava meu rosto mais vivo. Eu parecia… Bem. Bonita. Mas, mesmo assim, meu coração estava acelerado. — Eu não consigo — murmurei. Roberta, que estava mexendo na bolsa perto da mesa, levantou a cabeça imediatamente. — O quê? — Eu não consigo ir. Ela arregalou os olhos. — Como assim não consegue? Suspirei. — Roberta… olha pra mim. — Estou olhando. — Isso tudo é demais. Ela cruzou os braços. — Demais como? — Esse vestido… esses sapatos… essa festa… aquelas pessoas. Passei a mão pelo cabelo, nervosa. — Eu não pertenço àquele lugar. Roberta caminhou até mim. — Ellen… — Eu sou uma faxineira. As palavras saíram antes que eu pudesse impedir. Ela franziu a testa. — E daí? — Daí que lá vai estar cheio de executivos, investidores, gente importante. Minha voz ficou mais baixa. — E ele. Roberta inclinou a cabeça. — O chefe? Assenti devagar. — Ethan Wood. Mesmo dizer o nome dele fazia meu estômago se contrair. Eu ainda lembrava do jeito que ele me olhou no lobby. Da forma como falou comigo. Daquele sorriso estranho. Ele com aquela mulher nua em cima da mesa, não sai de minha cabeça. — Ele me dá medo — confessei. Roberta ficou em silêncio por alguns segundos. Depois suspirou. — Eu sabia que tinha algo mais. Olhei para ela. — Eu não sei explicar. — Não precisa explicar. Ela se aproximou um pouco mais. — Só me responde uma coisa. — O quê? — Você quer ir nessa festa? Abri a boca para responder… mas nenhuma palavra saiu. Porque a verdade era mais complicada do que parecia. Uma parte de mim queria ir embora, tirar o vestido, colocar meu pijama e passar a noite assistindo televisão com Sara dormindo no quarto ao lado. Mas outra parte… Outra parte queria ver como era aquele mundo. Queria entrar naquele salão cheio de luzes. Queria provar que eu podia estar ali também. Mesmo que fosse só por algumas horas. — Eu acho que sim — respondi finalmente. Roberta sorriu. — Então pronto. — Não é tão simples. — Claro que é. Balancei a cabeça. — E se alguém me reconhecer? — Quem? — Pessoas do trabalho. — E daí? Suspirei. — Eu vou parecer ridícula. Roberta ficou pensativa por alguns segundos. Então, de repente, seus olhos brilharam. — Já sei. — O quê? Ela abriu a bolsa novamente e começou a procurar alguma coisa. — Roberta… o que você está fazendo? — Espera. Ela puxou algo de dentro da bolsa e levantou no ar. Era uma máscara. Pequena. Delicada. Prateada. Cobria apenas a parte superior do rosto, ao redor dos olhos. Eu pisquei surpresa. — De onde você tirou isso? Ela sorriu. — Sempre é bom estar preparada. — Preparada para quê? — Para salvar amigas em crise existencial. Não consegui evitar uma risada. Ela se aproximou e colocou a máscara diante do meu rosto. — Olha só. A máscara combinava perfeitamente com o sapato prateado. Com o vestido azul. Com tudo. — Viu? — Roberta disse. — Agora ninguém vai te reconhecer. Olhei para o espelho. Era verdade. A máscara mudava completamente minha aparência. Ela dava um ar misterioso. Elegante. Quase… mágico. — Pronto — Roberta disse, satisfeita. — Agora você está linda. Ela se afastou um passo para me observar melhor. — E o melhor de tudo… Ela apontou para mim. — Você está irreconhecível. Meu coração bateu um pouco mais forte. Irreconhecível. Talvez fosse exatamente disso que eu precisava. Uma noite sem ser a Ellen faxineira. Uma noite sem julgamentos. Uma noite apenas sendo… alguém diferente. — Vá e arrase — Roberta disse, empurrando levemente meus ombros. Respirei fundo. Peguei minha bolsa. Olhei novamente para o espelho. A mulher que me encarava parecia saída de um conto de fadas moderno. Vestido azul. Sapatos brilhantes. Máscara prateada. Mas, no fundo… Eu ainda era a mesma garota que lutava todos os dias para dar uma vida melhor para a filha. Caminhei até o quarto de Sara e abri a porta devagar. Ela dormia profundamente, abraçada ao ursinho. Meu coração amoleceu. Aproximei-me e beijei sua testa. — A mamãe volta logo — sussurrei. Depois apaguei a luz e fechei a porta. Quando voltei para a sala, Roberta já estava me esperando perto da porta. — Vamos? Respirei fundo novamente. — Vamos. Saímos do apartamento. E enquanto descíamos as escadas do prédio… Uma sensação estranha tomou conta de mim. Como se eu estivesse cruzando uma linha invisível entre duas vidas. De um lado, a vida simples que sempre conheci. Do outro… Um mundo cheio de luxo, perigo e segredos. E, sem saber, eu estava caminhando diretamente para os olhos de um homem que nunca perdeu nada que desejou.
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