Capítulo 5

1420 Palavras
Clara Comprada. Esse é meu novo título, de humana sequestrada e sem valor para comprada por um estranho. Eu deveria me importar, sei disso. Sei que eu deveria estar gritando para que Lyla deixe de me levar até ele. Mas não o faço, porque eu não me importo com o que acontece comigo. A sensação continua a mesma, em constância. A única coisa que sinto é na verdade uma dúvida: O que ele vai fazer comigo? Quais suas expectativas e também, por que eu? — É uma supresa, sabe? — Fala Lyla ao meu lado. — Machos de Asa nunca compram escravos. Quem dirá uma fêmea. — Como assim? Eles... — É a religião deles ,eu acho— ela me corta — ,as histórias contam quem em Asa a deusa Olyss fez morada e criou os seres pertencentes aquele planeta. Então, em hipótese alguma, eles compram fêmeas. Acham que é um tipo de desrespeito a deusa. Eu realmente não entendo porque ele escolheu você. — Porém, só há curiosidade nas palavras dela. Nenhuma preocupação. — Mas ele fez, e pelo o que aquele chifrudo cara de sapo disse, eu não pertenço mais a Terra. Alguma dica? Algo útil? — No estado que você está? — Ela faz uma careta franzindo o nariz. — Clara você não consegue comer, quem dirá lutar pela sua vida. Não é como se fosse uma escolha. Eu não sinto que é. Lutar. Pior, lutar por algo que nem faz sentido. Por que eu estou aqui? Por que sofrer de repente se tornou meu destino? Eu só quero chorar. — Vale a pena? — Ela para no corredor do alojamento, olhando para mim. Dessa vez seu olhar é preocupado, como se ela se importasse. — O que aconteceu com você. Vale a sua vida? Eu sei o que é depressão... — Sabe? Então deve saber que eu não tenho controle sobre isso. — Pelo contrario, Clara. É justamente isso que te falta. Controle da sua vida e de suas vontades. A depressão é como uma cobra, ela te abraça antes de te levar a morte. — Ela suspira, desviando o olhar. — Segure esse cobra pelo corpo e lhe arranque a cabeça, Clara. Só assim vai conseguir sair de onde está. Ela volta a andar, dessa vez dois passos a minha frente. As vezes Lyla não fala nada com nada, ela sempre é enigmática e eu custo a entender o que ela diz, mas desse vez eu entendi. m***r a cobra. Mas como? Mesmo se eu quisesse, como eu faria isso? Estou convivendo com ela a tanto tempo que seu abraço se tornou confortável, mesmo que ela vá acabar me dando o bote. De frente para a porta do quarto do meu dono — isso é muito errado —, Lyla sorri gentilmente. — Ele não vai machucar você, dentre todos os Asarianos são os mais respeitosos. Só não tire o general do sério, ele tem a fama de ter temperamento forte. — Hum, tá bom. Só isso, guia? Ela revira os olhos. — E não morra, Clara. Se me prometer isso posso prometer visitar você em Asa. — Ela põe a mão no quadril e deposita o peso em um das pernas. — Eu sabia que você não ia desgrudar. — Faço uma careta. — E eu não prometo nada. Ela balança a cabeça, irritada. Lyla é do tipo que insiste até a pessoa ceder. Todas as vezes em que ela queria me falar andar, tomar banho, comer, ela sempre acabava com essa mesma expressão. A expressão de quem me mataria. — Eu vou te visitar mesmo assim, sua peste. Não é assim que os brasileiros chamam os filhos quando eles são desobedientes? Sinto uma pequena vontade de sorrir. — Então eu sou uma criança desobediente? Então você é a tia intrometida que fica perguntando "e os namoradinhos". — Ai, você é insuportável, sabia? — Eu sei. Ela bate na porta de metal duas vezes e então aguardamos. Segundos depois a porta se abre e um...homem incrivelmente lindo nos encara. p***a! Ele é... — Essa é Clara, ela já está alimentada e já inseriram o dispositivo de tradução universal nela. Argh. Eu nunca senti tanta dor física quanto receber esse tradutor. O aparelho tinha o tamanho de uma formiga vermelha mas foi inserido pelo meu nariz e eu literalmente preferia ter levado um tiro. Eles apenas disseram "relaxe e não engula", me senti invadida no início, até a dor chegar e eu sentir como se estivesse sendo torturada. — Então ela me entende. — Sim, eu entendo. — Respondo. O homem de asas me encara e eu posso estar vendo coisas, mas as asas de morcego se encolheram. O que isso significa? — Bem, ela está entregue. — Lyla olha para mim. — Lembre-se do que eu te falei. E com isso ela sai. Eu deveria tê-la abraçado, falado "obrigada", mas não o faço, tanto porque é proibido — devido a eu pertencer a esse homem agora —, quanto porque a função dela é me guiar nessa loucura e não ser a minha amiga. — Entre — A voz dele soa gentil, mas é tão grave que é impossível não tremer um pouco. Entrei no quarto de cores cinza e verde. A cama é gigantesca, provavelmente para comportar as asas em suas costas. Ao lado dela, um criado mudo pequeno com um abajur. Há uma poltrona no canto do quarto, ao lado de um janela de vidro. O quarto está pouco iluminado, mas consigo ver claramente cada móvel. O cheiro de mar é forte, como se ele estivesse passado o dia a beira mar sob o sol. Como isso é possível? — Clara — Ele diz. Não está me chamando, ou iniciando uma conversa, é como se ele tivesse testando meu nome. —, que engraçado. Me viro querendo olhar para ele. A imagem do general em minha frente é linda. Ele é lindo, não dá pra negar. É quase como se tivesse sido esculpido do mármore. Quais as chances dele ter me comprado para fins sexuais? Hum. É esse meu destino? Eu deveria estar apavorada, eu deveria estar gritando, mas não é isso o que sai da minha boca. — O que é engraçado? — minha voz sai sussurrada e eu não sei o porquê. Ele pisca, o rosto se torna avaliativo. — O seu nome, é semelhante a palavra Clarie da minha língua. Significa dar a luz. — Ele explica, o rosto ainda moldado em seriedade. — Dar a luz. Como conceber? Ele assenti. — Hum. E...e o seu? — Ele franze as sobrancelhas negras em dúvida. — Qual é o seu nome? — Ah, o meu nome é Rodan. — Ele se vira, inda para a cama. Um calafrio percorre a minha espinha. Eu devo correr, não devo? — O que você vai fazer comigo, Rodan? Ele lança um olhar para mim que me faz arquejar, me faz querer correr e correr e correr. Esse homem é capaz de me devorar, consigo ver isso, consigo ver claramente as presas afiadas agora escondidas pelos lábios. — Eu ainda não sei. Isso é bom? Não sei. Deveria ser, porque "eu não sei" é melhor do que eu vou devorar você. Me sento na poltrona no canto do quarto e espero. Espero e espero. Não é como se eu pudesse fazer algo a respeito. Pelo menos eu não tenho que trabalhar naquele hotel, pelo menos eu não preciso voltar para aquela casa vazia. É, são bons pontos positivos. Melhor do que nada. — O que você quer fazer? Gosta de alguma coisa? Acho que posso encontrar alguns livros ... — Estou bem. Não preciso de nada. A dúvida fica ainda mais forte. O que esse homem, com asas as costas, o corpo grande cheio de músculos, com um rosto avassalador, quer comigo? Uma humana sem valor algum aqui? Ele não quer s**o. Ele nem sabe o que vai fazer comigo, então por que? Não faço essa pergunta, apenas encaro as estrelas e o a galáxia do lado de fora da janela. Eu ainda não entendo como consigo respirar aqui dentro, e em como posso vestir um simples vestido sem congelar ou morrer, eu só sei que tudo aqui é muito diferente do que já conheci. É um mundo novo, a Clara que eu era ficaria extasiada com tudo isso aqui, não com medo, mas com vontade de explorar cada canto desse novo mundo. É uma pena que ela tenha desaparecido quando o luto chegou.
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