CAPÍTULO 77 ESCORPIÃO NARRANDO Nem preguei o olho a noite toda. Fiquei ali, sentado no meio-fio, com o corpo cansado, a mente virada e o coração doendo mais que qualquer ferida que eu já levei na vida. A rua foi amanhecendo devagar, o sol batendo fraco nos telhados, e eu continuava no mesmo lugar, com o baseado queimando entre os dedos e o peso de tudo me esmagando o peito. O Júlio saiu qntes, de moto, e nem notou que eu tava ali do outro lado da rua. Atravessou com aquele olhar de sempre, reto, seco, sem imaginar que o cara que ele queria longe tava a poucos metros, esperando o dia clarear pra ver o próprio filho. Eu só ouvia o barulho do morro acordando — o cachorro latindo, o som de panela batendo lá dentro, e de vez em quando a risada leve do pequeno escapando pela janela. Minha

