Enquanto o silêncio da praia envolvia Rafael e Rebeca…
do outro lado da cidade, a noite tomava um rumo completamente diferente.
Dentro da boate, Carla já estava visivelmente alterada.
Rindo alto, os passos descompassados, o olhar perdido entre a música e o álcool.
— Acho que… eu bebi demais — ela disse, apoiando a cabeça no ombro de Roberto.
Ele também já sentia os efeitos.
Mas tentou manter o controle.
— Vamos embora — disse, segurando ela com firmeza. — Já deu.
Carla não discutiu.
Apenas assentiu, cansada.
Minutos depois, os dois estavam no carro.
O silêncio ali dentro era estranho.
Pesado.
A música baixa tocava ao fundo.
Carla encostou a cabeça no vidro.
— Hoje foi tão bom… — murmurou.
Roberto tentou focar na estrada.
Mas a visão não estava totalmente firme.
As luzes pareciam mais fortes.
Mais confusas.
E então…
Tudo aconteceu em segundos.
Um farol.
Um carro surgindo rápido demais.
O som de freios.
Um impacto violento.
Silêncio.
Depois… destruição.
O carro ficou completamente destruído.
Carla e Roberto… presos nas ferragens.
Minutos depois, sirenes cortavam a noite.
O corpo de bombeiros chegou.
A cena era grave.
— Duas vítimas presas! — alguém gritou.
Na praia, o celular de Rafael começou a tocar.
Ele franziu a testa ao ver o número.
Atendeu.
E, à medida que ouvia… seu rosto mudou completamente.
— O quê? — disse, levantando na hora.
Rebeca sentiu o coração gelar.
— O que aconteceu?
Rafael desligou, já tenso.
— A Carla e o Roberto sofreram um acidente.
O mundo de Rebeca pareceu parar.
— Não…
— Eles estão presos nas ferragens.
Sem pensar, os dois correram.
Quando chegaram ao local…
o cenário era desesperador.
Luzes, sirenes, gente ao redor.
O carro… irreconhecível.
Rebeca levou a mão à boca, em choque.
— Carla… — sussurrou.
Ela tentou se aproximar, mas Rafael segurou.
— Calma!
Mas ela já chorava.
— Ela tá lá… ela tá lá!
Dentro do carro, Carla ainda estava consciente.
Mas fraca.
Ferida.
— Re… be… ca… — ela tentou falar, ao ver a amiga de longe.
Rebeca desmoronou.
— EU TÔ AQUI! — gritou, chorando. — EU TÔ AQUI!
Os bombeiros trabalhavam rápido.
Cortando metal.
Tentando abrir espaço.
Roberto estava desacordado.
A situação dele parecia ainda mais grave.
Rafael observava tudo…
Com o coração apertado.
Sem poder agir como profissional.
Só como alguém que se importava.
Cada segundo parecia uma eternidade.
Cada movimento, uma esperança.
Ou um medo.
Rebeca chorava sem conseguir parar.
— Ela tá sofrendo… — repetia. — Meu Deus, ela tá sofrendo…
Rafael a segurava, tentando manter ela de pé.
Mas por dentro…
ele também estava destruído.
Naquela noite…
a felicidade deu lugar ao desespero.
E tudo que parecia estar começando a dar certo…
agora estava por um fio.
O tempo parecia não andar.
Cada segundo naquela cena era pesado… c***l.
O som do metal sendo cortado ecoava na noite, misturado com as sirenes e os pedidos urgentes da equipe.
Rebeca não conseguia parar de chorar.
— Ela tá com dor… eu sei que ela tá… — repetia, com a voz quebrada.
Rafael segurava ela com firmeza, tentando manter algum controle.
— Eles vão tirar ela dali… calma… — dizia, mesmo sabendo que não era simples.
Dentro do carro, Carla ainda lutava para se manter consciente.
Os olhos semicerrados, a respiração fraca.
— Fica com a gente! — um dos bombeiros dizia. — Não dorme!
Ela tentou focar… tentou responder…
Mas o corpo já começava a ceder.
Do outro lado, Roberto continuava desacordado.
A equipe trabalhava com ainda mais urgência.
— Esse aqui tá crítico! — alguém avisou.
Finalmente, depois de minutos que pareceram horas…
— Conseguimos! — gritou um dos bombeiros.
Carla foi retirada primeiro.
Com cuidado, imobilizada, sendo levada direto para a ambulância.
— CARLA! — Rebeca gritou, tentando se aproximar.
Mas foi contida.
— Senhora, por favor!
— Eu preciso ir com ela! — ela implorava.
Logo depois, Roberto também foi retirado.
O estado dele era ainda mais grave.
Sem reação.
Sem movimento.
Rafael observava tudo com o coração apertado, o olhar fixo.
Ele conhecia aquele cenário.
Mas nunca daquele lado.
As ambulâncias partiram com urgência.
Sirene alta, cortando a noite.
Rebeca estava em choque.
— A gente precisa ir… — disse, sem conseguir parar de chorar.
Rafael assentiu na hora.
— Vamos.
No hospital, o clima era tenso.
Corredores frios.
Movimento constante.
Profissionais correndo.
Rebeca andava de um lado para o outro, completamente perdida.
— Eu não devia ter deixado ela ir embora assim… — dizia, desesperada. — Ela não tava bem…
Rafael tentou segurar o rosto dela, fazendo ela olhar pra ele.
— Ei… isso não é culpa sua.
Mas ela não conseguia ouvir.
Minutos depois, um médico apareceu.
O silêncio tomou conta.
— Quem são os acompanhantes?
Rafael deu um passo à frente, junto com Rebeca.
— Somos amigos.
O médico respirou fundo.
— As duas vítimas chegaram em estado grave.
Rebeca levou a mão à boca.
— A mulher… Carla… teve múltiplos ferimentos, mas está consciente. Vai passar por cirurgia.
Uma pequena esperança.
Mas breve.
— E o homem… — o médico continuou. — está em estado crítico. Inconsciente. Estamos fazendo tudo que podemos.
O chão pareceu sumir.
Rebeca começou a chorar ainda mais.
Rafael a abraçou forte.
— Eu devia ter impedido… — ela repetia, quase sem voz.
Rafael, encostado na parede, observava em silêncio por alguns segundos… até se aproximar de novo.
— Rebeca… — ele falou com firmeza, mas com cuidado. — Olha pra mim.
Ela levantou o olhar, perdida.
— Você não tem culpa disso.
— Mas eu sabia que ela tinha bebido… — a voz dela falhou. — Eu deixei…
Rafael respirou fundo.
— Quem dirigiu foi o Roberto. E foi uma escolha dele. Você não podia prever isso.
Ela ficou em silêncio… mas a dor ainda estava ali.
As horas passavam devagar.
Cada vez que a porta do centro cirúrgico se abria, o coração de Rebeca disparava.
Até que, finalmente…
Um médico saiu.
— Família da Carla?
Rebeca foi a primeira a se aproximar.
— Sou amiga… como ela tá?
O médico tirou a máscara, com expressão cansada.
— A cirurgia foi longa… mas conseguimos estabilizar. Ela está fora de perigo imediato.
Rebeca levou a mão ao rosto, chorando.
— Graças a Deus…
Rafael fechou os olhos por um segundo, aliviado.
— Ela vai precisar de recuperação, mas vai ficar bem — o médico completou.
Um peso enorme saiu dos ombros deles.
Mas a tensão voltou na mesma hora.
— E o Roberto? — Rafael perguntou.
O médico ficou sério novamente.
— O estado dele ainda é crítico. Ele teve um trauma muito forte… estamos tentando estabilizar, mas as próximas horas são decisivas.
O silêncio caiu como uma pedra.
Rebeca segurou a mão de Rafael com força.
— Ele não pode morrer… — disse, quase em desespero.
Rafael apertou a mão dela de volta.
— Vamos acreditar que ele vai sair dessa.
Mais tarde, já com o dia começando a clarear, permitiram que Rebeca visse Carla rapidamente.
Ela se aproximou devagar.
— Amiga… — sussurrou, com lágrimas nos olhos.
Carla abriu os olhos com dificuldade.
— Re… be… ca…
A voz era fraca, quase um sopro.
Rebeca segurou a mão dela com cuidado.
— Eu tô aqui… você tá segura agora…
Carla tentou sorrir, mas sentiu dor.
— Ro… ber… to…
Rebeca sentiu o coração apertar.
— Ele tá sendo cuidado… vai ficar bem… — disse, mesmo sem ter certeza.