Rafael manteve o olhar fixo em Rebeca, como se estivesse esperando uma resposta que fosse além das palavras. A música ao redor parecia mais distante agora, abafada pelo som do próprio coração dela batendo mais rápido.
— Continuar a conversa? — ela repetiu, tentando disfarçar o nervosismo com um leve sorriso.
— É… — ele disse, se aproximando um pouco mais, apoiando o braço na mesa. — A gente meio que começou uma história ali atrás… quando eu virei seu “namorado”.
Rebeca soltou uma risada baixa.
— História improvisada, né?
— Às vezes as melhores começam assim.
Aquilo fez ela abaixar o olhar por um segundo. Não era só uma cantada qualquer… tinha algo mais ali. Algo que deixava tudo mais intenso.
— E como você imagina que essa história continua? — ela perguntou, levantando os olhos de volta pra ele.
Rafael pensou por um instante, como se realmente estivesse considerando aquilo com cuidado.
— Acho que… sem mentira dessa vez.
Rebeca sentiu o corpo inteiro arrepiar de leve.
— Sem mentira?
— É. Sem precisar fingir nada pra ninguém. Só… a gente conversando de verdade.
Ela respirou fundo, apoiando os cotovelos na mesa.
— E sobre o que você quer conversar?
Rafael sorriu de canto.
— Sobre você.
— Sobre mim?
— Uhum. Eu percebi que você tenta parecer tranquila… mas guarda muita coisa.
Rebeca ficou em silêncio. Aquilo foi direto demais. Preciso demais.
— Você me conhece há o quê… duas horas?
— Tempo suficiente pra perceber algumas coisas.
Ela desviou o olhar, mas não negou.
Antes que pudesse responder, um barulho de gritos e risadas veio da piscina. Alguém tinha escorregado e caído de um jeito engraçado, e o pessoal estava indo à loucura.
A festa seguia viva, intensa… mas ali, naquela mesa, o clima era outro.
Mais calmo.
Mais íntimo.
— E você? — Rebeca perguntou, tentando mudar o foco. — O que você esconde?
Rafael arqueou a sobrancelha.
— Agora virou entrevista?
— Equilíbrio — ela respondeu, sorrindo. — Você perguntou de mim… eu pergunto de você.
Ele riu, passando a mão na nuca.
— Eu escondo menos do que parece.
— Duvido.
— Sério. Eu sou mais direto.
— Tipo fingir ser meu namorado?
Ele riu mais uma vez.
— Tá, aquilo foi estratégia.
Rebeca se inclinou um pouco mais pra frente.
— E agora? Também é estratégia?
A pergunta ficou no ar.
Rafael não respondeu de imediato. Ele apenas se aproximou mais um pouco… o suficiente pra diminuir o espaço entre eles.
— Não — ele disse, com a voz mais baixa. — Agora é vontade.
O mundo pareceu desacelerar.
Rebeca sentiu o coração disparar de novo… mas não recuou.
Pelo contrário.
Ela ficou ali.
Presente.
Sentindo cada segundo.
Mas antes que a tensão entre os dois chegasse ao limite—
— REBECAAAAA! — a voz de Carla cortou o momento como um raio.
Os dois se afastaram levemente, quase ao mesmo tempo.
Carla voltou correndo, segurando o braço de Roberto, completamente elétrica.
— Vocês não vão acreditar!
— O que foi agora? — Rebeca perguntou, tentando esconder o sorriso nervoso.
Carla puxou uma cadeira sem pedir licença.
— O Leandro foi embora de vez!
Rebeca franziu a testa.
— Como assim?
— A namorada dele surtou total! Disse que não confia nele, fez um escândalo lá fora… e ele simplesmente entrou no carro com ela e foi embora.
Rafael soltou um suspiro leve.
— Era meio óbvio que ia dar r**m.
— Mas tem mais — Carla continuou, com os olhos brilhando de fofoca. — Ela falou um monte de coisa de você, Rebeca… mas o Rafael respondeu tudo na frente de todo mundo.
Rebeca olhou pra ele, surpresa.
— Você fez isso?
Rafael deu de ombros.
— Só falei a verdade.
— Que verdade?
Ele sustentou o olhar dela.
— Que você não fez nada de errado… e que o problema não era você.
Aquilo mexeu de novo com ela.
Mais do que antes.
Carla cruzou os braços, sorrindo de lado.
— Sério, eu tô começando a gostar muito desse menino.
— Carla… — Rebeca murmurou, meio sem graça.
— Tô falando sério! — ela insistiu. — Ele te defendeu duas vezes já. Isso não é comum.
Rafael riu, meio desconcertado.
— Eu só fiz o que qualquer pessoa faria.
— Não faria não — Carla respondeu rápido. — A maioria só assiste.
O silêncio caiu por um segundo.
Mas não era pesado.
Era cheio de significado.
Rebeca olhou pra Rafael mais uma vez.
Dessa vez, com menos dúvida.
E mais certeza.
— Você quer… dar uma volta? — ela perguntou de repente.
Carla abriu um sorriso gigante.
— EU SABIA!
— Carla! — Rebeca tentou conter.
Rafael se levantou, estendendo a mão pra ela.
— Eu quero.
Rebeca hesitou por meio segundo… mas então segurou a mão dele.
E se levantou.
Enquanto os dois se afastavam da mesa, indo em direção a uma parte mais tranquila da casa, longe do barulho e da agitação, Carla ficou olhando com cara de missão cumprida.
— Finalmente — ela murmurou, antes de voltar a atenção pra Roberto.
Do lado de fora, o ar estava mais fresco.
A música ainda dava pra ouvir… mas distante.
Mais suave.
Rafael e Rebeca caminharam lado a lado por alguns segundos em silêncio.
Mas dessa vez, o silêncio não era dúvida.
Era expectativa.
— Então… — ele começou. — Agora sem plateia.
Rebeca sorriu.
— Agora sem mentira.
Ele parou de andar.
Ela também.
Os dois ficaram frente a frente.
Mais próximos do que antes.
Mais conectados.
E naquele momento, longe do caos da festa, longe dos olhares e dos julgamentos… tudo parecia mais simples.
Mais real.
— Posso te fazer uma pergunta de verdade agora? — Rafael disse.
Rebeca assentiu.
— Pode.
Ele respirou fundo, como se aquela pergunta fosse importante.
— Se eu não tivesse mentido lá dentro… você ainda estaria aqui comigo agora?
Rebeca não respondeu na hora.
Ela apenas deu um pequeno passo à frente.
Diminuindo ainda mais a distância.
— Estaria — ela disse, com a voz baixa.
Rafael sorriu.
E dessa vez… não tinha mais motivo pra fingir nada.