"Enquanto o carro subia o morro, os nomes de Eduardo e Marcola ecoavam na minha mente como um mantra maldito. Eu passei a vida tentando ser invisível para não atrair o perigo, mas o medo agora tinha nome, rosto e um convite que eu não podia recusar."
Mariana
A sensação de sair daquele barraco no mangue, foi como se eu estivesse despertando de um pesadelo horrível, só para cair em outro. O assoalho onde tudo aconteceu, agora estava vazio. Os fofoqueiros tinham sumido, o corpo de Leonardo já não estava mais lá e os “parceiros” que assistiram à execução haviam dispersado como sombra.
Não olhei para trás. Não procurei pelo homem que comandou aquele horror todo. Tinha medo de que, se meus olhos encontrassem com os dele de novo, eu terminaria de quebrar ali mesmo.
— Vamos, garota. Vou te deixar na principal.
Apesar de ter me assustado com a voz do homem que falava comigo e que querer negar, me resignei e aceitei aquela ordem, pois, Juliana não estava mais ali e eu sabia que não conseguiria achar o caminho de volta sozinha.
Caminhar pelas vielas úmidas e estreitas naquela escuridão, foi uma tortura. Cada sombra projetada nos muros descascados, parecia o corpo de Leonardo se contorcendo de dor. O cheiro de maresia misturado com o lodo do mangue me dava enjoo. Era como se eu pudesse sentir o olhar agoniado de Leonardo me seguindo a cada beco escuro.
Chegar à rua principal, toda iluminada, era como enxergar a luz no fim do túnel. A favela continuava igual, como sempre foi. Moradores passando pela calçada, a confusão de carros e ônibus na estrada, o inferninho tocando sua costumeira música... Todos ignorantes a barbárie que tinha acabado de acontecer.
Juliana estava lá, encolhida em um canto. Ela estalava os dedos ansiosamente. Também não deixei de notar que Bianca e o namorado não estavam ali.
— Os moleques me obrigaram a sair de lá, Mary... — ela começou a chorar assim que me viu, mas eu não conseguia sentir nada além de um vazio gelado. — O namorado da Bianca levou ela embora logo que o... que o negócio terminou.
Por um momento senti um pingo de compaixão por ela, que teve que presenciar tudo do começo ao fim. Mas quando tensionei abrir a boca para lhe dizer qualquer coisa, percebi que não conseguia. Meu corpo parecia pesado e, enquanto eu via o desconhecido que me acompanhou se despedir com um aceno mudo, desaparecendo de volta por dentro daquele beco, percebi que eu estava prestes a desabar a qualquer momento.
Não falei com Juliana. Não consegui. Me pus a caminhar e a cada passo dado, tudo o que eu conseguia pensar era em como eu estava cada vez mais perto de casa. Lá, eu poderia desabar. Lá, eu estaria segura. Eu só precisava tomar um banho demorado e chorar em paz.
Bom... Era o que eu acreditava.
O choro não veio. Parecia que a voz dele ainda ecoava em minha mente com aquela ameaça. A sensação de segurança também não veio. Passei dias enfurnada em casa, sem conseguir olhar para a cara de Juliana e com medo de que invadisse a casa para nos ma.tar, temendo que revelássemos o horror que tínhamos visto naquele mangue.
Foi só depois de quase uma semana de silencio que a Juliana explodiu em choro na cozinha, implorando pelo meu perdão.
— Mary, me desculpa! Eu não sabia que ia ser assim! O Eduardo... ele não é de fazer isso na frente de todo mundo, foi um exemplo porque o Léo tava passando visão pros canas... E o Marcola só tava cumprindo ordem...
— Eduardo? Marcola? — interrompi, a voz saindo rouca. — Então é assim que eles se chamam?
— É... — ela fungou. — O Eduardo quem manda em tudo aqui. E o Marcola é o braço direito dele.
Agora o meu medo tinha nome. Eduardo. O nome soava curto, seco, mas carregava o peso de todas as pauladas que eu ouvi naquela noite.
Os dias passaram, lentos e cinzentos. Apesar de tudo o que vi e passei, precisei voltar para a minha rotina de exaustão no dia seguinte como se nada tivesse acontecido. Trabalho de manhã, curso de enfermagem a tarde. Eu tentava ao máximo ser invisível.
Eu sabia que tinha uma grande chance de nos encontrarmos pelas ruas, andava sempre alerta e desconfiava. Mas não aconteceu. Eventualmente acabei me acalmando, aceitando que aquele dia foi só mais um dia de “trabalho” para ele e que, talvez, eu tenha sido insignificante em sua corrida vida de tra.ficante. Talvez eu tenha conseguido voltar a ser invisível e poderia voltar a minha monótona vida. Os pesadelos até mesmo tinham diminuído. Estava começando a acreditar que tudo poderia voltar a ser como antes.
Até que aconteceu...
Eu já não temia mais minha própria sombra e, naquele dia, minha única preocupação era chegar atrasada no trabalho. Iria fazer seis meses no emprego e finalmente estavam começando a pegar menos no meu pé. Não queria chegar atrasada e dar motivos para chateação.
Eu tinha dormido tarde no dia anterior, justamente por causa do barulho do baile que ainda estava rolando naquele momento. Quase seis horas da manhã e o estrondo dos altos falantes dos carros fazia o meu corpo vibrar. Estava cansada, com sono e irritada. A única coisa boa era que amanhã era domingo e eu poderia dormir até mais tarde. Não teria trabalho. Não teria curso, e se tivesse baile novamente, provavelmente eu estaria cansada demais para escutar qualquer coisa.
Estava prestes a ir embora, tentar pegar um ônibus em outro lugar quando ele apareceu. Eduardo. Agora eu sabia o nome para o rosto que vinha me assombrando a dias. E por mais que ele tenha tentado parecer menos assustador ao me oferecer carona, meu estomago ainda deu um nó. Não consegui responder, nem mesmo para recusar. Agi por puro instinto de sobrevivência e fiz a única coisa que pude pensar em fazer naquele momento: Fugir.
(...)
A noite finalmente chegou e eu estava exausta! O trabalho tinha sido cansativo e o curso de enfermagem parecia sugar o resto das minhas energias. Meus pés latejavam enquanto eu subia a rua de casa, querendo apenas um banho e esquecer que o mundo existia.
De repente, o som de pneus cantando cortou o silêncio da noite, enquanto um carro todo escuro parava bruscamente a poucos metros de mim, fazendo o meu coração disparar. Revivi todos os meus pesadelos naquele momento e quando a janela desceu e vi o rosto de Marcola, meu estomago revirou.
— E aí, Mary? Firmeza? — Ele falou num tom calmo, quase gentil, o que me assustou ainda mais. — Entra aí.
— Oi... Marcola — respondi, tentando manter a voz firme. — Não precisa de carona, já tô chegando em casa.
Virei as costas e continuei andando, mas ele avançou o carro devagar, acompanhando meu passo.
— Não é carona não, Mariana — ele soltou, e eu parei. — O Eduardo quer trocar uma ideia contigo.
Senti um frio subir pela espinha.
— Eu não tenho nada pra falar com ele. Diz que eu tô cansada, que eu preciso dormir...
Marcola suspirou, apoiando o braço na janela. Ele não parecia querer me machucar, parecia estar me dando um conselho.
— Papo reto, Mary... Você é uma mina inteligente, sabe como as coisas funcionam. Ele só quer conversar. É melhor você ir por bem agora do que esperar ele perder a paciência. Eu te levo e te trago rapidinho. Promessa de homem.
Olhei para o final da rua, onde a luz do poste piscava. Eu estava encurralada. Se eu corresse, ele sabia onde eu morava. Se eu negasse, o Eduardo viria pessoalmente. Com as mãos tremendo, abri a porta do carro. O cheiro de estofado novo e ar-condicionado me envolveu, e eu soube que, pela segunda vez, eu estava entrando no mundo do Eduardo.