Eu quero você

978 Palavras
A chuva caía forte demais, pesada, constante, como se lavasse tudo ao redor, menos o que estava dentro dela. Mariana andava sem direção, os passos rápidos, descompassados, a respiração falhando entre um soluço e outro, sem conseguir organizar nada do que tinha acabado de acontecer. A imagem não saía da cabeça: o beijo, o jeito que ele não reagiu na hora, o corpo deles próximos, tudo aquilo esmagando qualquer esperança que ela ainda tentava manter. Ela não sabia de jantar nenhum, não sabia de decisão nenhuma, só sabia do que viu, e aquilo foi suficiente pra destruir o pouco que ainda restava dela ali dentro. — Claro… — ela murmurava sozinha, a voz perdida no barulho da chuva — claro que eu fui i****a de novo… A água já tinha encharcado completamente o cabelo, a roupa, a pele, mas ela nem sentia direito, porque a dor não estava ali fora. Estava no peito, apertando, sufocando, lembrando ela exatamente do lugar que sempre teve: escondida, substituível, errada. Ela não ouviu a porta abrir atrás dela. Nem os passos rápidos. Só percebeu quando a mão dele segurou o braço dela com firmeza, puxando ela de volta com força suficiente pra interromper o movimento. — Mariana — a voz dele saiu mais alta, carregada, atravessando o som da chuva — para. Ela tentou puxar o braço de volta na mesma hora, o olhar cheio, a respiração pesada, completamente quebrada. — Me solta, Miguel — disse, a voz falhando, mas firme — eu não quero mais isso. Ele não soltou. Pelo contrário. Aproximou mais, segurando com mais firmeza, obrigando ela a encarar ele, a não fugir de novo. — Você não sabe o que aconteceu lá dentro. Ela soltou uma risada amarga, balançando a cabeça enquanto a água escorria pelo rosto misturada com as lágrimas. — Eu vi o suficiente — respondeu, olhando direto pra ele — vi exatamente o meu lugar. — Não, você não viu. — Eu vi você com ela! — a voz subiu, quebrando de vez — eu vi você beijando ela como se nada tivesse acontecido, como se eu fosse nada! Miguel apertou a mandíbula, o olhar firme, mas sem desviar. — Aquilo não foi o que você tá pensando. — Para de fazer isso — ela cortou, puxando o braço de novo, dessa vez com mais força, conseguindo se soltar — para de tentar mudar o que eu vi com palavra! Eu não aguento mais isso, eu não aguento mais competir por um espaço que nunca foi meu! O silêncio que veio depois foi pesado, mesmo com o barulho da chuva ao redor. Miguel deu um passo na direção dela, mais devagar agora, mais controlado, mas com uma intensidade que não tinha mais volta. — Nunca foi competição — ele disse, a voz mais baixa, mas firme — você só não sabia de tudo. Ela soltou o ar com força, completamente exausta. — Não importa, Miguel. Pra mim sempre foi. Eu sempre fui a que vinha depois, a que ficava escondida, a que— — Chega — ele interrompeu, mais firme, mais intenso, fazendo ela travar por um segundo. O olhar dele prendeu no dela. Sem fuga. Sem desvio. — Aquele jantar era pra terminar com ela. O mundo pareceu parar por um segundo. A chuva continuava. Mas o som ficou distante. — O quê? — a voz dela saiu mais baixa, confusa, desacreditada. — Eu chamei ela pra acabar tudo — ele continuou, agora mais próximo, o olhar sério, carregado de verdade — eu já tinha decidido. Antes de você descer. Antes de qualquer coisa. Mariana piscou algumas vezes, tentando processar, o peito ainda apertado, ainda doendo, mas agora com algo novo misturado. — Então… aquilo… — ela começou, sem conseguir terminar. — Foi ela — Miguel respondeu direto — ela perdeu o controle quando percebeu, me acusou, gritou… e quando te viu, fez aquilo de propósito. O silêncio caiu entre eles. Pesado. Diferente. Mariana passou a mão pelo rosto, misturando chuva e lágrimas, claramente abalada, tentando reorganizar tudo dentro dela. — Eu não sabia… — murmurou, mais pra si mesma do que pra ele. Miguel deu mais um passo, agora perto o suficiente pra tocar, mas sem forçar. — Eu sei — disse mais baixo — e é por isso que eu vim atrás de você. Ela levantou o olhar devagar, ainda frágil, ainda machucada. — Eu já tava desistindo… — confessou, a voz falhando — eu já tava aceitando que eu nunca ia ser escolhida. Aquilo acertou ele. Forte. Miguel levantou a mão, segurando o rosto dela com cuidado dessa vez, completamente diferente da firmeza de antes, mas ainda assim intenso, ainda assim decidido. — Você sempre foi — ele disse, olhando direto nos olhos dela — eu só demorei pra fazer o que precisava ser feito. O coração dela acelerou, mas ainda tinha medo ali, ainda tinha dúvida. — Eu não quero mais me sentir escondida… — ela disse, mais baixo — eu não quero mais ser a opção. — Você não é — ele respondeu na mesma hora — nunca foi. O silêncio que se seguiu foi carregado de tudo que ainda precisava ser dito. E então ele disse. Sem desviar. Sem hesitar. — Eu amo você. A respiração dela falhou. Os olhos se encheram de novo, mas dessa vez diferente. — Eu amo você — ele repetiu, mais firme — e eu te quero na minha vida. Não escondida, não pela metade, não como erro. Eu te quero inteira… do meu lado. A chuva continuava caindo ao redor deles, pesada, constante, mas naquele momento parecia distante, como se nada mais existisse além daquilo. Mariana ficou em silêncio por alguns segundos, absorvendo, sentindo, deixando aquelas palavras entrarem de verdade, porque não era o que ele dizia antes, não era impulso, não era desejo. Era escolha. Finalmente. E dessa vez… ele escolheu.
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