Eu não sou mais a mesma

931 Palavras
Na manhã seguinte, Mariana acordou antes de Miguel. Não por hábito. Mas por inquietação. O corpo ainda estava pesado da intensidade dos últimos dias, mas a mente… alerta demais pra descansar. Ela ficou alguns segundos olhando pro teto, absorvendo tudo que tinha mudado tão rápido, e pela primeira vez não pensou em fugir. Pensou em se preparar. Levantou devagar, sem fazer barulho, e foi até a janela. A luz da manhã entrava suave, mas não trazia calma. Trazia clareza. Aquela sensação de que não dava mais pra voltar atrás… e que, se ela quisesse continuar ali, precisaria ser mais do que só corajosa. Precisaria ser inteligente. — Já acordou pensando demais — a voz de Miguel veio rouca atrás dela. Mariana não se virou de imediato. — Pensar agora é necessidade, não opção. Ele soltou um leve riso baixo, ainda deitado. — Isso é bom… — murmurou — significa que você entendeu o jogo. Ela virou então, encostando levemente na janela. — Eu entendi que não dá pra entrar nisso só com sentimento. Miguel sentou na cama, apoiando os braços nos joelhos, o olhar atento nela. — E o que mais você entendeu? Mariana cruzou os braços, mas não como defesa… como firmeza. — Que eu vou ser testada o tempo todo — disse — que vão tentar me diminuir, me provocar, me tirar do eixo… e que, se eu reagir do jeito errado, eu perco. O silêncio caiu. Mas dessa vez… carregado de aprovação. Miguel levantou devagar, caminhando até ela. — E você acha que consegue não reagir? Ela sustentou o olhar. — Eu acho que consigo escolher quando reagir. Ele parou na frente dela. Perto. Mais perto do que precisava. — Isso já te coloca na frente de muita gente. Mariana não recuou. — Então começa a me ensinar o resto. O olhar dele escureceu levemente. Não de ameaça. Mas de intensidade. — Você tem certeza? — perguntou, mais baixo — porque isso aqui não é só sobre aprender a falar ou se posicionar… é sobre mudar completamente a forma como você enxerga as pessoas. Mariana inclinou levemente a cabeça. — Eu já tô mudando. O silêncio entre eles ficou denso. Mas firme. Miguel levou a mão até o queixo dela, erguendo levemente. — Então presta atenção — disse, a voz mais grave — primeira coisa: nunca mostra tudo que você tá sentindo. Ela não desviou. — Nem pra você? Ele sustentou. — Principalmente fora daqui. Aquilo ficou. Guardado. — Segunda coisa — continuou — quem fala demais, perde poder. Mariana absorveu. — Então eu escuto mais. Ele assentiu. — E quando falar… — aproximou um pouco mais — fala pra marcar, não pra preencher silêncio. O coração dela acelerou. Mas não por nervosismo. Por presença. Por atenção. — E a terceira? — perguntou, mais baixa. Miguel demorou um segundo. Como se escolhesse. — Nunca entra em uma briga que não sabe como terminar. O silêncio caiu. E dessa vez… pesou. Porque ela entendeu. — Ontem… — começou, mas ele interrompeu. — Ontem você entrou pronta pra enfrentar — disse — mas não pra finalizar. Ela travou o olhar. — E isso é r**m? Miguel não suavizou. — Isso é perigoso. Mariana respirou fundo. Sentindo o impacto. Mas não recuou. — Então me ensina a terminar. O olhar dele ficou mais intenso. Mais profundo. — Eu ensino… — murmurou — mas você vai ter que aprender a ir até o limite. Ela deu um passo à frente. — Eu não tenho medo de limite. Ele soltou um leve riso baixo. — Ainda não. O restante da manhã foi diferente de tudo que Mariana já viveu. Não era aula formal. Não era teoria. Era prática. Miguel colocou ela em situações simuladas, perguntas difíceis, provocações diretas, cenários onde ela precisava responder rápido, mas sem perder controle. Ele mudava o tom, pressionava, interrompia, testava. E Mariana… reagia. Errava. Ajustava. Aprendia. — Errado — ele disse em determinado momento — você respondeu com emoção. Ela cruzou os braços, já irritada. — Porque foi uma provocação absurda. Miguel se aproximou na hora. — E é exatamente isso que eles vão fazer. O olhar dele travou no dela. — Se você perde o controle… você entrega o jogo. Mariana respirou fundo. Segurando. Reorganizando. — Então eu respiro antes de responder. Ele assentiu. — E pensa: isso me fortalece ou me expõe? O silêncio ficou. Mas dessa vez… produtivo. Ela tentou de novo. Melhor. Mais firme. E ele percebeu. — Agora sim… — murmurou. Mariana soltou o ar devagar. — Eu vou ficar boa nisso. Miguel olhou direto pra ela. — Você já tá ficando. Horas depois, já mais calmos, os dois estavam mais próximos de novo, o clima diferente, mas ainda carregado de intensidade. Mariana encostou levemente na bancada, o olhar mais firme, mais consciente de si. — Eu não sou mais a mesma de alguns dias atrás — disse. Miguel se aproximou devagar. — Não mesmo. Ela sustentou o olhar. — E isso te preocupa? Ele parou na frente dela. Perto. — Me instiga. O coração dela acelerou. Mas dessa vez… controlado. — Então continua — ele murmurou — porque quanto mais você cresce… mais difícil vai ser alguém te derrubar. Mariana deu um leve sorriso. Não tímido. Seguro. — Eu não vou ser derrubada. Miguel inclinou levemente o rosto. — Eu sei. O silêncio caiu. Mas agora… cheio de tensão boa. De construção. De algo que não estava mais começando… estava se fortalecendo. E Mariana sabia. Aquilo ainda era só o início. Mas dessa vez… ela estava pronta pra ir até o fim.
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