Se doutor George pensava que iria ficar jogando por muito tempo comigo, hoje ele descobriu que não.
Penso e abro um sorriso.
Meu plano saiu melhor que a encomenda e ele ainda admitiu que sabia perfeitamente meu nome.
—Unbearable! (Insuportável)
Falo enquanto ouço a porta de seu escritório se abrir.
—Está liberada Senhorita.
É tudo que ele fala, enquanto passa por mim, seguindo para o elevador.
Guardo minhas coisas e depois de desligar o computador, também saio do prédio, indo até o carro de Roger.
—Olá, Roger.
—Senhorita, como foi o trabalho?
Ele pergunta, fechando a porta e seguindo até o lado do motorista.
—Foi bom. Na verdade foi ótimo, fiz meu chefe engolir o nome Eliza de sua boca.
Roger segura uma risada.
—Já colocando ordens no chefe?
Ele pergunta, me olhando pelo retrovisor.
—Nada disso! Ele não queria brincar!?
Ele solta outra risada e segue dirigindo enquanto eu olho pela janela a fora.
Aquele gostoso...
—Deus Elouisa!
Falo pra mim mesma e apenas olho pela janela a fora. Evitando olhar para a cara de interrogação de Roger.
Suspiro e apenas tento manter minha cabeça ocupada.
[.....]
Depois desse dia longo e agitado, agora estou aqui de banho tomado, deitada em minha cama, tentando ler um livro em português.
Toc toc.
—Entre.
Digo fechando o mesmo e colocando ele longe de mim. Estou tentando ler ele desde o dia que cheguei. Preciso firmar meu português, mas sou muito melhor falando do que lendo. No escritório, muitas vezes fico batendo a cabeça antes de conseguir fazer minhas caraminholas funcionarem.
Mas não vou desistir.
—Oi Elou...
—Vem amiga, estava quietinha no jantar... Está tudo bem?
—Está sim, só estou um pouco mais pensativa.
Arqueio a sobrancelha.
—Quer compartilhar seus pensamentos?
Ela dá de ombros.
—Estou pensando em enviar minhas qualificações para alguns restaurantes. Meu último curso eu não completei, mas sei muitas regras sobre eles.
Concordo com a cabeça.
—Acho que isso vai ser ótimo pra você. Assim ocupará sua mente e vai poder começar a olhar pra fora de sua dor.
Ela sorri.
—Eu não consigo nem disfarçar, não é mesmo?
Dou de ombros.
—Talvez para quem não te conhece. Mas não pense assim. Foque daqui pra frente e o primeiro passo você já está dando, que é tentar sair, o restante a gente vai se preocupando depois.
Ela concorda, me dando um abraço.
—Obrigada amiga, o que seria de mim sem você.
—Muita coisa!
Digo sinceramente, retribuindo o abraço.
Seguimos mais um tempo ali e eu conto para ela sobre o que aconteceu com meu patrão e eu.
—Amiga, você é muito doidinha. Mas eu queria ter visto a cara dele na hora.
Abro um sorriso.
—Eu pensei que ele iria me demitir. Mas apenas não falou comigo o dia inteiro.
Ela balança a cabeça pra lá e pra cá.
—Quero só ver o que vai acontecer.
Ela diz de um jeito estranho, apenas ignoro e começo outro assunto. Ficamos um bom tempo ali, conversando e depois, nos despedimos e ela vai para o seu quarto.
Me levanto, escovo os dentes e volto a me deitar.
—Vamos dormir, Eloiusa! Amanhã será um novo e longo dia, novamente.
Digo para mim mesma e me ajeito na cama. O sono não demora muito... Os pesadelos, demoram menos ainda.
《Sonho》
Desço as escadas correndo.
—Bom dia.
Falo me sentando a mesa.
—Estava excelente até você aparecer.
Minha irmã mais velha diz.
Respiro fundo, tentando ignorar a falta de empatia de toda a família.
São todos os dias assim, eu já deveria estar acostumada.
Me sirvo de um pouco de café com leite e tomo um gole apreciando sua quentura.
Quando vou levar minha mão, para pegar o último croissant meu irmão é mais rápido.
–Perdeu!
—Mas é o último.
Falo, olhando para a mesa que já foi esvaziada.
—Deveria ser mais rápida.
Meu irmão fala com uma piscadinha e minha irmã dá uma risada.
Me levanto e começo a ir em direção a cozinha, mas a voz de meu pai, me faz parar no caminho.
—Vamos lá, vou deixar vocês na escola e ir para o trabalho. Não vou esperar por ninguém.
Ele diz olhando pra mim.
É claro que não.
Penso em tom de derrota. Engulo a fome que estou sentindo e pego minha bolsa no chão, seguindo eles até o carro.
《Fim do sonho》
Abro meus olhos e me sento na cama com a respiração acelerada.
—Malditos! Quando vocês irão me deixar em paz?
Pergunto baixinho, com lágrimas nos olhos.
Jogo o travesseiro que me agarrei de lado e vou até o banheiro, jogar uma água no rosto.
Depois me aproximo da porta de vidro e como sempre, fico ali no escuro, abraçada ao meu próprio corpo.
Eu não queria sentir isso. Já fazem anos e os pesadelos ainda continuam. Desde quando eu era pequena, eles moram aqui. Mas eu aprendi a reprimir cada um deles.
Por que até meu choro incomodava! Acredito que eles sequer lembram que eu existo. Então por que devo continuar sofrendo em meus sonhos?
—Devo ter sido uma pessoa muito má na vida passada. Gente! Será que eu maltratava os animais? Ou eu neguei comida a alguém?
Balanço a cabeça e vejo Briana sentada em sua sacada. Quando cheguei perto dessa porta, ela já estava lá.
Respiro fundo.
—Vamos voltar pra cama, Elou! Amanhã você tem um chefe gato a servir, não pode estar com olheiras. Se não, ele de Eliza, passa a te chamar de panda.
Solto uma risada baixa e me deito.
Fico por um tempo ali, olhando para o teto, esperando o sono chegar.
Ele não demora muito e aquela mesma sensação gostosa que me invadiu na noite passada, me invade hoje.
A sensação de estar em um beco sem saída é ser puxada para uma linda e iluminada praça, apenas, para dançar na chuva.