Eu estava sorrindo sozinha enquanto olhava a conversa com o Murilo, sem conseguir conter a felicidade boba que tomava conta de mim. Cada mensagem dele parecia um pequeno toque de alegria, e eu, sem perceber, segurava com uma mão no ferro do metrô, como se fosse possível segurar também aquele momento. Kleber, ao meu lado, me observava com certa curiosidade, mas eu estava completamente imersa nas palavras de Murilo, na sensação gostosa de ser lembrada e desejada.
Juliana, como sempre, falava animada com ele sobre sua vida amorosa, ou melhor, sobre suas idas e voltas com o marido. Para nós, que a conhecíamos bem, a história já estava mais que contada. Era como uma novela repetida, em que o enredo nunca mudava. Toda vez que ela dizia que agora era definitivo, que a separação era de verdade, a gente se olhava em silêncio, sabendo que logo logo ela voltaria para ele. Era um ciclo que nunca se quebrava, e todos nós, seus amigos, já não acreditávamos mais.
Nesse momento, Kleber, olhando para o meu celular, soltou um sorriso intrigado e perguntou:
—Do que você tanto ri, olhando para esse celular?
Ele parecia genuinamente curioso, mas eu, em um impulso, tentei esconder a felicidade que ainda escapava de mim, respondendo quase como um reflexo:
—Nada.
Mas, pela expressão no rosto dele, ficou claro que ele não acreditava nem um pouco. Eu só queria me esconder atrás do sorriso que sentia, mas que talvez ainda fosse cedo para dividir.
Mensagem ON
Murilo: Você não sabe o que a família do paciente me fez passar?
Eu: O que aconteceu?
Murilo: Eles chegam com gripe e já acham que estão morrendo.
Eu: Enquanto algumas pessoas fogem do hospital (tipo eu), outras adoram uma dipirona na veia, rsrs.
Murilo: Sim, é isso mesmo.
Eu: Eu fiz enfermagem, mas não segui na área e me lembro bem como era lidar com alguns pacientes.
Murilo: Nossa, que legal! Também fiz enfermagem. Depois, quando virei enfermeiro, tive dinheiro suficiente para fazer medicina!
Eu: Uau, dá para ver que você estudou muitos anos para chegar aonde está hoje.
Era fácil falar com o Murilo. Ele parecia real, uma pessoa como qualquer outra. Sempre tive na minha cabeça que médicos eram pessoas sérias, chatas, quase inacessíveis, e, no entanto, com ele era tão simples. A conversa fluía, ele me fazia rir, me fazia sentir confortável. Como se o título de médico não fosse uma barreira, mas sim um detalhe a mais sobre ele. Nunca imaginei que seria assim.
Mensagem OFF
—Larga esse celular e presta atenção na história da Juliana — Kleber me chama, tentando me puxar de volta para a realidade.
—Essa história eu já sei, ela está triste, mas logo volta com ele — dou de ombros, tentando parecer indiferente.
Juliana, com um sorriso meio forçado, me olha e diz:
—Eu não vou voltar dessa vez.
—Semana passada você falou isso para mim e para Soraya — respondo, com uma pitada de ceticismo.
—Mas dessa vez é diferente — ela responde, rindo, tentando parecer convincente. — E o Max sabe disso?
A pergunta me pega de surpresa. Fiquei em silêncio por alguns minutos, olhando fixamente para o nada, tentando organizar os pensamentos. Fazia tanto tempo que não falava sobre o Max, meu ex-namorado. Era uma ferida que, mesmo cicatrizando, ainda doía. Eu sabia que não era bom mexer em feridas abertas, mas, por mais que tentasse, era impossível não falar dele quando ele era irmão do meu melhor amigo.
—Aslan colocou uma foto com ele ontem no status do w******p — finalmente digo, a voz um pouco mais baixa.
—E como você se sentiu? — Kleber pergunta, com um tom de curiosidade.
—No começo, confesso, eu me senti mal... uma mistura de saudade e um aperto no peito que parecia não ter fim. Mas, depois de um tempo, tudo se acalmou. Dei de ombros e tentei esconder o que ainda estava preso dentro de mim.
A verdade é que, embora eu tenha falado que estava tudo bem, meu peito apertou de uma maneira que eu não conseguia controlar.
—Agora você tem o Ethan, vai ficar tudo bem — Juliana diz, tentando mudar de assunto, mas suas palavras têm um tom de consolo.
—Nem me fale. Acredita que ontem ele dormiu na minha casa? — respondo, horrorizada, tentando ao mesmo tempo esconder o nervosismo na voz.
—Por isso que você estava mais relaxada de manhã — brinca Kleber, um sorriso divertido no rosto.
—Eu estou como sempre estou — digo, tentando passar a impressão de que nada estava diferente, mas eles não conseguem segurar as risadas. E eu, por dentro, me sentia um pouco perdida em todas aquelas mudanças.
Um mês depois...
Com a colher na boca, dei uma pausa e peguei o meu celular para dar uma olhada nos status. Foi quando uma foto da Elisabeth apareceu no meu feed. Ela estava com uma xícara de café e um livro, aparentemente muito tranquila em seu cantinho de leitura. Elisabeth... minha melhor amiga. Bem, ao menos era. Não tinha certeza se ainda poderia chamá-la assim, considerando tudo o que havia acontecido nos últimos meses. O término do meu namoro com Max ainda era um fantasma em minha vida, e, por ser amiga tanto minha quanto dele, Elisabeth havia ficado em uma posição impossível, absorvendo toda a tensão do nosso fim.
Já haviam se passado quatro meses desde o término, mas parecia que a dor ainda estava fresca. Elisabeth e eu não nos falávamos como antes, e isso apertava meu peito toda vez que pensava nisso. Olhei para a foto mais uma vez, pensando em como responder. Digitei um comentário, mas, logo depois, apaguei. Fiz isso mais de uma vez, até desistir completamente.
—Nossa, até que enfim está comendo algo que preste — falou Erick, puxando uma mecha do meu cabelo, sentando-se ao meu lado. Ele sempre tinha esse jeito de me provocar, mas, naqueles momentos, era difícil me concentrar.
Guardei o celular, sem comentar nada no status de Elisabeth, e, revirando os olhos, voltei minha atenção para Erick.
—E o que foi isso no seu pescoço? — perguntou Alex, me encarando enquanto se sentava à minha frente, com um olhar curioso.
—Cair da cama, de pescoço no chão — respondi, debochada, tentando esconder a marca no meu pescoço com o cabelo. Eu sabia o que eles pensavam, mas não queria falar sobre isso.
—Na próxima podemos cair juntos na minha cama — Alex disparou, como sempre, flertando com um sorriso malicioso.
Erick deu uma risadinha, e eu, sem paciência, falei:
—Não valeu, isso só vai acontecer nos seus sonhos.
Mudamos de assunto, e a conversa foi naturalmente puxada para o trabalho. Mas meu celular vibrava novamente. Era uma mensagem de Murilo.
Murilo: Oi
Elisa: Oi
Murilo: Tudo bem?
Elisa: Sim, e você?
Murilo: Estou bem, obrigada!
Elisa: :D
Murilo: O que você está fazendo?
Elisa: Estou no trabalho, e você?
Murilo: Hoje estou em casa depois de um plantão de 72 horas.
Elisa: Até que enfim, né? Você parece não ter vida.
Murilo: Hahaha, me sinto assim às vezes!
Elisa: ^^
Murilo: Quando vamos sair para nos conhecer pessoalmente?
Elisa: Eu não sei... Não sei se estou pronta.
Murilo: Tudo bem, espero você.
Nos últimos dias, eu vinha ficando com o Ethan, mas nada sério. Eu não conseguia confiar em ninguém, muito menos nele. As conversas com o Murilo, por outro lado, se tornaram cada vez mais longas e profundas. No começo, Ethan achava que aquilo era só uma brincadeira, e talvez até eu pensasse assim no início. Mas o tempo foi passando, e o que antes parecia inofensivo começou a ganhar outro peso. O que você poderia esperar conversando com alguém que não tem tempo para nada além de trabalho?
Eu sabia que havia uma diferença enorme entre minha vida e a do Murilo. Nossos horários dificilmente batiam, nossas rotinas não se alinhavam de forma alguma. Fomos criados de maneiras muito diferentes, eu sendo nordestina e ele gaúcho, mas, mesmo com todas essas diferenças, algo em nossa conexão parecia real, genuína. No começo, pensei que não ia levar aquilo a sério, que não passaria de uma amizade à distância, algo passageiro. Ele era uma pessoa incrivelmente gentil, e me tratava de uma maneira que me fazia me sentir bem. Nos últimos dias, ele se tornara um grande amigo, alguém com quem eu podia contar para desabafar, rir e, acima de tudo, sentir que não estava sozinha.
Conseguir me abrir com ele foi uma experiência nova, algo que eu nunca tinha vivido com ninguém antes. Conhecer o Murilo me fez parar de pensar tanto no lado r**m das coisas e começar a explorar um mundo novo, cheio de possibilidades. Eu não entendia direito o que estava acontecendo dentro de mim. Às vezes, parecia que eu estava me apaixonando por ele, mas eu não sabia se era só uma amizade ou algo mais. Talvez eu mesma nem quisesse admitir o que estava sentindo.
Já com o Ethan, era totalmente diferente. Ele me fazia sentir insegura o tempo todo. Era um daqueles caras que precisava de várias garotas para se sentir importante, como um garanhão, e eu sabia que nunca seria suficiente para ele. Cada vez que ele me olhava, eu sentia que não era quem ele realmente queria, que ele estava sempre em busca de algo ou alguém melhor. E aquilo me fazia questionar se o que estávamos vivendo realmente valia a pena.
Mas, no fundo, eu sabia que minha relação com Ethan era mais uma forma de me distrair do que realmente uma busca por algo sólido. E o que eu sentia por Murilo, embora confuso, parecia ser bem mais profundo do que qualquer coisa que eu poderia viver com o Ethan.
Do you ever feel
Already buried deep
Six feet under screams
But no one seems to hear a thing?
Do you know that there's
Still a chance for you?
'Cause there's a spark in you ♫
(Você já se sentiu
Como se estivesse enterrado bem fundo
Gritando a sete palmos
Mas ninguém parece ouvir nada?
Você sabe que ainda
Há uma chance para você?)