Capítulo Nove

1498 Palavras
Jane não podia esperar Eleanor e Rae depois da aula, então as duas seguiram juntas para o salão de teatro, ambas em silêncio. Eleanor lembrou do que Jane havia dito, Rae com ciúmes dela? Cameron afim dela? Ela queria crer nas duas hipóteses, mas eram incertas demais para comemorar antes da hora. — A professora pediu pra gente ensaiar pelo menos uma parte da peça. – Rae disse quando elas abriram a porta do salão, ainda estava vazio. — Não vai dar tempo, Rae. Eu nem li o roteiro. — Eleanor olhou seu relógio de pulso, era 15:04. — Temos quase meia hora ainda. — Ok. Elas atravessaram e subiram no palco. Não podia ser tão assustador encenar uma peça de teatro com Rae, Eleanor pensou. ─ Vamos para a parte em que nos encontramos pela primeira vez. ─ Eleanor disse folheando o roteiro, não era tão grande quanto pensava. ─ Certo, que ótimo que isso está atualizado para o nosso século. ─ Rae disse fazendo o mesmo que Eleanor. ─ Eu me chamo Romana, uau. ─ Rae disse sem empolgação. ─ Eu começo. — Como quiser. — Se ao tocar tua mão com a minha, tão comum e indigna, eu profano algo tão sagrado quanto você, me permita corrigir esse erro: meus lábios, dois humildes viajantes, imploram por permissão para suavizar o impacto com um beijo leve. — Rae começou a atuar. — Você é bem dramática, sabia? Mas está sendo injusto com a sua própria mão. Um toque assim é só uma forma educada de mostrar respeito, não acha? E, olha, se fosse algo sagrado, até as santas deixam suas mãos serem tocadas. Apertar mãos já é tipo o oi oficial do mundo. — E as santas, por acaso, não têm lábios também? Os peregrinos não usam os lábios para algo além de palavras? — Têm, claro. Mas lábios são pra rezar, não para... se meter em encrenca? — Eleanor disse sem entender muito bem o roteiro e Rae riu da cena. — Então, deixa que minha oração seja um beijo, só dessa vez. — Rae se aproximou de Eleanor, como indicava o roteiro. — E se eu disser que não acredito nesse seu ato de fé? — Eu arriscaria até minha alma pra provar que é sincero. — Rae disse encarando Eleanor nos olhos, coisa que ela não fazia a muito tempo. Ela sempre esquivava, mas ali eles estavam tão conectados, como se estivessem sentindo saudade um dos outros. — Então prove. ─ Eleanor disse sem olhar o roteiro e se aproximou de Rae, que não hesitou, em vez disso, segurou seu rosto e a beijou. As duas se beijaram como se aquele momento fosse aguardado há uma eternidade. Rae a tocava com tamanha delicadeza que seus lábios pareciam feitos de algodão. Por um momento, Eleanor esqueceu o mundo ao seu redor, esqueceu de tudo que a preocupava e lhe causava medo. Ela acreditava que Rae também sentia isso, pois as duas só se afastaram quando o fôlego lhes faltou. ─ Lindo! ─ Rebecca disse alto e aplaudiu, o eco de suas palmas ecoou pelo salão vazio e as duas se separaram assustadas. ─ Desde quando está aí? ─ Eleanor perguntou com o rosto corado, Rebecca estava na primeira fileira, como as duas não perceberam a presença dela? ─ Desde a última fala da Rae. ─ Mas não vimos você entrar. — Rae perguntou confusa. ─ Claro que não, pareciam estar em transe! — A professora disse empolgada. ─ Eu tenho que ir. ─ Rae disse atordoada e correu para a saída do salão. ─ Que d***a. Isso não devia ter acontecido.─ Eleanor se frustrou e desceu do palco. ─ Não tem problema, Eleanor. ─ Rebecca disse tentando a consolar. — Vou conversar com ela. — Ela levantou da cadeira, alguns alunos começaram a entrar no salão. — Não comecem o ensaio sem mim! Eleanor se sentou em uma das cadeiras e ficou encarando o palco vazio. Agora tudo tinha ido por água abaixo, mas por que ela sempre se culpava? Rae também estava agindo de forma estranha, ela também tinha culpa naquilo. Se ela não quisesse ser beijada, tinha recuado, mas ela permaneceu e agora a errada da história era Eleanor? — Eleanor, você está bem? — Cameron sentou ao lado de Eleanor. — Oi Cameron, estou bem. Mais ou menos, na verdade. — Aconteceu alguma coisa? A Rebecca estava lá fora conversando com a Rae e ela parecia estar m*l. — Não foi nada sério. Não se preocupe. Todos já haviam chegado no salão, tanto o pessoal da detenção, quanto os atores de teatro da escola. Depois de alguns minutos Rebecca voltou, estava sem Rae. — Eleanor, você está liberada hoje. Você e Rae só aparecem a partir da segunda cena. — Rebecca se aproximou de Eleanor. — Rae vai continuar? — Sim, consegui convencê-la. — Que bom. — Eleanor suspirou aliviada. Rebecca chamou os atores para começar o ensaio. — Vou ter que ir lá, posso pegar seu número? — Cameron pegou seu celular e o entregou para Eleanor, ela digitou seu número e salvou o contato. — Prontinho. — Eleanor se levantou e Cameron fez o mesmo. — Obrigado, Eleanor. Amanhã meu amigo Liam vai dar uma festa, se animar ir. Podemos nos encontrar por lá. — Eu não sou de ir em festas, mas pode ser. Talvez eu anime. — Tá legal. — Cameron se aproximou de Eleanor e lhe deu um abraço desajeitado, seu coração acelerou ao sentir o corpo dele encostando no seu. Ele era quente e cheirava a amaciante. — Até mais. — Eleanor disse quando eles se separaram, suas bochechas estavam coradas e Cameron estava sem jeito. Ele era tão tímido quanto ela. Ela saiu do salão de teatro sorrindo e atravessou o corredor da escola, Rae estava a esperando sentada no banco do estacionamento. Eleanor caminhou lentamente até ela, qual seria sua primeira fala? Devia pedir desculpas? Deixar para lá? Seu cérebro começou a formular vários diálogos ao mesmo tempo e sua mão suava frio. — Oi, Rae. — Eleanor disse, seu coração estava disparado. — Hey, eu... — Rae se levantou e ficou de frente para Eleanor, o que ela ia dizer? Ia dizer que estava tudo bem? Que queria ter a beijado? — Podemos deixar pra lá o que aconteceu? Eleanor sentiu como se algo dentro de si tivesse se apagado, qualquer indícios de que Rae pudesse gostar dela acabaram ali. — Sim. — Diga que está tudo bem, por favor, Eleanor. — Rae disse com os olhos marejados. — Está tudo bem. — Eleanor sabia que não, mas era o que podia responder. Ela limpou as lágrimas de Rae com o dedo e a puxou para um abraço. E era diferente de abraçar Cameron. Abraçar ele, lhe trouxe conforto, mas abraçar Rae, lhe trazia a sensação de casa, de que estava segura do mundo. — Você está com cheiro de perfume masculino. — Rae disse depois que se desvencilhou. — Deve ser do Cameron. — E parece que emagreceu um pouco. — Impressão sua. — Ah. — Rae não disse mais nada. Colette chegou em seu carro prata e as duas entraram, aliviadas do dia estar acabando. *** Rae não apareceu para o jantar em família naquela noite, o que era preocupante visto que ela sempre se esforçava para participar. Colette e John a fizeram várias perguntas e ela não soube responder quase nenhuma "sabe o que ela fez hoje?" "ela estava passando m*l?" "você viu acontecer alguma coisa" "ela te contou alguma coisa?" não. Eleanor respondeu "não" para todas. — Eu vou ir até ela. — Eleanor estava cansada do interrogatório e decidiu se levantar. — Leva algo para ela. — John disse quando Eleanor já estava na sala de estar. — Não força a barra, John. Talvez ela só não esteja com fome. — Ela ouviu Colette dizer. Subiu as escadas e atravessou o corredor, parecia um filme de suspense. O que tem atrás da porta? Ela caminhou em silêncio e bateu três vezes na porta de Rae. — Sou eu. — Pode entrar. — Rae disse com a voz abafada. Eleanor entrou no quarto e fechou a porta, Rae estava deitada na cama vendo série na televisão, seus olhos estavam um pouco vermelhos. — Seu pai me mandou vir aqui ver como você está. — Estou bem. — Acho que já vou então. — Eleanor se virou de costas para Rae. — Dorme aqui? — Rae disse, Eleanor foi pega de surpresa. Por quê? — Ok. — Foi o que ela conseguiu dizer. — Só vou escovar os dentes. Eleanor saiu do quarto e correu para o banheiro, sua dor de cabeça estava voltando e ela podia sentir a comida do jantar subindo até seu esofago acompanhada pelo h******l gosto de bile. Ela vomitou tudo o que tinha no estômago e pegou alguns comprimidos que tinha escondido debaixo das toalhas na gaveta do armário. Dava pra passar a noite.
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