Capítulo 10

1818 Palavras
O ônibus da faculdade partiu às 7h da manhã em ponto, levando os selecionados para o Fórum de Justiça Criminal da capital. Alicia tinha dormido só três horas, mas mesmo assim vestiu sua calça preta de alfaiataria, salto discreto, camisa de botão aberta no colo e cabelo preso num r**o alto. Estava linda, mas passava a impressão de que nem percebia. O que, para Rafael, a tornava ainda mais perigosa. Ele entrou por último no ônibus. Estava de preto da cabeça aos pés. Relógio de luxo. Paletó impecável. Óculos escuros. Um homem que parecia saído de um tribunal… ou de um sonho. Os alunos comentavam baixo sobre como ele era “gostoso demais pra ser real” — menos Alicia, que não disse uma palavra. Só olhou para a janela, mesmo sentindo cada passo dele quando ele passou por ela no corredor. — Bom dia — ele disse, rouco. Ela não respondeu. Mas por dentro, o corpo dela queimava. Durante o trajeto, sentaram separados. Ele na frente, ela no meio, entre Mel e Guilherme. Mel falava sobre as palestras, mas Alicia só pensava no cheiro de Rafael, que vez ou outra passava flutuando quando ele se levantava para organizar pastas. O cheiro dele parecia persegui-la. Madeira, café e algo escuro… como pecado guardado num frasco. Ao chegarem no hotel reservado pela faculdade, houve uma pequena confusão com os quartos. A administração alegava que o número de reservas era menor do que o previsto. A professora responsável foi clara: — Alguns professores e alunos terão que dividir os quartos com camas de solteiro. Vão ter que se virar. Alicia gelou. E, claro, o nome dela apareceu ao lado de Rafael Calderon na planilha de última hora. — Isso só pode ser uma piada — ela sussurrou para Mel. — Uma piada que o universo mandou com fita de presente — respondeu a amiga. Rafael pegou a chave da recepção sem demonstrar emoção. — Vamos manter a compostura. — Quem disse que eu vou perder ela? — Alicia rebateu. — O quarto era elegante, discreto, com duas camas de solteiro separadas por um criado-mudo. Havia uma janela enorme com vista para a cidade. O silêncio entre os dois era quase palpável. Ele colocou a pasta sobre a escrivaninha e tirou o paletó. — Fica com o lado da janela — disse. — Pode ficar tranquilo, não vou morder você dormindo. Ele a olhou. Olhar de lâmina. Olhar que esculpia a alma. — Eu não tenho medo de ser mordido — murmurou. — E eu não tenho medo de você — ela respondeu. O clima ficou denso. Mas nenhum dos dois fez nada. Ainda não. Na palestra, Alicia sentou-se ao lado de Mel. Rafael ficou na mesa dos professores, mas seus olhos estavam nela o tempo todo. O blazer dela escorregava do ombro e, vez ou outra, mostrava a alça do sutiã branco. A boca dela se movia ao anotar algo. O cabelo preso revelava o pescoço. Rafael estava ficando louco. Na volta ao hotel, Alicia entrou primeiro no quarto. Estava exausta, mas a tensão não a deixava relaxar. Tirou os saltos, desabotoou a camisa até a metade e prendeu os cabelos num coque frouxo. Sentou-se na beirada da cama e ligou a TV para tentar distrair. Rafael chegou logo depois, tirando os sapatos e a gravata. — Posso usar o banheiro primeiro? — perguntou. Ela assentiu com um gesto e ele sumiu por alguns minutos. Quando saiu, ela ainda estava acordada, assistindo a um filme qualquer. — Você deveria dormir — disse ele. — Não consigo. Tá tudo quieto demais. — Seu silêncio é alto, Alicia. Ela riu. — Isso foi uma cantada? — Não. Uma constatação. Ele sentou-se na própria cama, cruzando os braços. — Por que me desafia tanto? — Porque eu te vejo, Rafael. Por baixo de todo esse gelo. Ele a encarou. Os olhos azuis estavam intensos, cansados, carregados de algo que ela ainda não conseguia decifrar. — O que mais você vê? Ela hesitou. Depois falou baixo. — Um homem que carrega culpa. Que se esconde do mundo. Que quer ser forte, mas está cansado. Que tá sempre a um passo de se entregar… e não deixa. Ele suspirou. — Eu… já machuquei uma pessoa. Uma aluna. Ela queria mais do que eu podia dar. Eu recuei. Ela… não suportou. Alicia sentiu o coração parar por um segundo. — Ela se matou? — Sim. — Foi culpa sua? — Não sei. Mas… me culpo mesmo assim. Silêncio. Ela levantou-se devagar e sentou-se na beira da cama dele. Estavam perto. Muito perto. — Você não é um monstro, Rafael. — Você não sabe do que eu sou capaz, Alicia. Ela sorriu leve. — Talvez eu queira descobrir. E então, como um sopro, ele ergueu a mão e roçou o dorso dos dedos na bochecha dela. Um toque suave. Quase um pedido de desculpa. Ou de permissão. Ela fechou os olhos. O corpo todo respondeu. Mas ele parou. — Boa noite, Alicia — disse, com a voz quebrada. Ela voltou pra sua cama sem protestar. O coração dela batia tão forte que sentia no peito, no pescoço, nos dedos dos pés. E naquela madrugada, os dois dormiram no mesmo quarto. Separados por um criado-mudo. Unidos por um silêncio cheio de gritos. ⸻ A manhã seguinte na viagem começou com uma tensão tão densa que dava pra cortar com uma faca. Alicia acordou antes de Rafael, se vestiu sem fazer barulho e desceu para o café da manhã com o coração apertado. A cena da noite anterior — ele saindo às pressas para atender uma ligação misteriosa — grudava nela como perfume forte. Ela não sabia o que era pior: o silêncio dele ou o que sua mente estava inventando. E no fundo, uma única hipótese gritava: ele é comprometido. Por isso tanto drama. No salão do hotel, Mel e Júlia já a esperavam com pão de queijo e olhos curiosos. — Você tá estranha — disse Mel, mordendo o croissant. — Aconteceu algo ontem? — perguntou Júlia, arqueando a sobrancelha. Alicia suspirou, mexendo o café. — Ele saiu do quarto no meio da madrugada pra atender uma ligação. Voltou com cara de culpa. E eu me senti uma i****a. Mel arregalou os olhos. — Será que ele tem namorada? — Ou esposa? — completou Júlia. — Sei lá. Mas não vou ficar me iludindo. Ele que fique com o passado dele. Eu quero outra coisa pra mim. Paz. Luz. Um cara que me queira de verdade. Foi nesse instante que Lucas apareceu. Bonito, sorridente, com uma xícara de café na mão e um olhar carinhoso só pra ela. — Dormiu bem? — perguntou, sentando ao lado dela. Alicia olhou para ele e sentiu algo novo: vontade de tentar. — Sim. Muito melhor agora. Do outro lado do salão, Rafael chegava. A camisa preta ajustada ao corpo denunciava os músculos, e o olhar azulado passou direto por Alicia e Lucas. Mas mesmo tentando ser indiferente, não conseguiu evitar o aperto no peito quando viu os dois rindo juntos. — O retorno da viagem foi silencioso. Alicia escolheu sentar ao lado de Lucas no ônibus. Conversaram sobre filmes, comida, livros, riram de piadas idiotas. Lucas a fazia sorrir — e isso era o que ela precisava. — Você tem o sorriso mais bonito que eu já vi — disse ele. Alicia sentiu o rosto corar. — Você fala isso pra todas? — Só pras que eu quero que fiquem — respondeu com sinceridade. No fundo do ônibus, Rafael observava tudo pelo reflexo da janela. O coração dele apertava a cada toque entre os dois. Sentiu ciúmes, culpa, raiva… mas, acima de tudo, arrependimento. — De volta à rotina da faculdade, as aulas seguiram, mas os olhares entre Alicia e Rafael ficaram escassos. Ele a ignorava com profissionalismo gélido. Ela fingia não se importar. Porém todos notavam o clima estranho no ar. Na cantina, Mel olhava da mesa onde estavam sentadas para a mesa do professor, onde Rafael almoçava sozinho. — Vocês tão brincando de quem ignora melhor, é? — Ele é um babaca — respondeu Alicia, mordendo a maçã. — E você ainda pensa nele toda noite, né? Alicia ficou em silêncio. Júlia riu e completou: — Coração não mente, mana. Mas orgulho grita mais alto. — Lucas não perdeu tempo. Convidou Alicia pra sair na sexta-feira e ela aceitou. Foram ao cinema, comeram hambúrguer, tomaram sorvete. Ele era leve, divertido, intenso na medida certa. No fim da noite, ele a beijou com doçura. Ela retribuiu. Mas quando fechou os olhos, o gosto na boca era outro. Na segunda, voltaram como casal “quase oficial”. Todos comentavam. Guilherme brincou com a situação: — A fila andou. E veio com GPS. Mel cutucou Alicia na sala de aula. — Rafael não gostou nada. Tá quase engolindo a caneta. E realmente estava. Rafael disfarçava com frieza, mas por dentro, estava um caos. No dia seguinte, sumiu da sala antes do fim da aula. Alicia achou estranho. Quando saiu no corredor, ouviu o comentário de uma aluna: — Calderon voltou pras baladas da zona sul. Dizem que ontem ele saiu com duas modelos. Seu peito apertou. Claro que ele faria isso. Era só sexo, sempre foi. — Naquela noite, Alicia chorou. Nina dormia ao seu lado, agarrada no travesseiro. Ela olhou o teto e sussurrou: — Por que eu fui me apaixonar por você? Enquanto isso, Rafael estava trancado em seu apartamento, deitado no sofá, camisa aberta, olhando a carta que recebeu junto com o testamento do tio-avô. A herança era enorme, mas o que o intrigava era o bilhete anônimo encontrado no meio dos documentos: “Você pode fugir do amor. Mas não do que te espera.” E, pela primeira vez, ele sentiu medo real. — Na semana seguinte, os professores organizaram um debate jurídico entre turmas. Rafael era o mediador. Alicia foi indicada como uma das representantes. Ao lado de Lucas. Durante o debate, ela foi firme, segura, brilhante. Rafael não conseguia tirar os olhos dela. Quando ela derrubou um argumento difícil e arrancou aplausos, ele se aproximou com o microfone e disse: — Parabéns, senhorita Vasquez. Sua argumentação foi… surpreendente. A sala inteira ficou em silêncio. Todos sabiam que ele nunca elogiava ninguém. Lucas percebeu. Mel percebeu. Alicia… tentou não reagir. Mas aquela noite, quando dormiu, sonhou com o elogio. Com a forma como ele a olhava. Com o que nunca chegaram a fazer. — Rafael saiu mais uma vez naquela semana. Se envolveu com uma mulher qualquer. Mas não tocou nela. Pediu um whisky, mas não bebeu. Quando ela começou a se despir, ele virou o rosto. Pagou e foi embora. Voltou pra casa com a camisa aberta, e murmurou: — Eu sou um covarde. Mas já era tarde. Alicia estava nos braços de outro. E ele, cada vez mais, sozinho com os próprios fantasmas.
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