Eu cheguei em casa e peguei meu caderno, para entender o que tem que fazer certinho no trabalho de geografia e o que ele passou na aula porque apesar de ter copiado o que ele pediu, não consegui prestar atenção.
Quando abri minha mochila e peguei meu caderno um papel caiu dele.
“Eu não sei porque estou escrevendo esse bilhete, isso é tão infantil, mas também diferente então aqui estou. Você me deixou curioso, acho que deve ser o fato de ter conseguido me suportar esse dia inteiro e olha que eu sou insuportável...”
É eu percebi...
“Mas, Milena, você realmente julgou meu livro pela capa, eu sou muito mais do que um clichê. Me desculpe por como o nosso dia terminou, entendo a sua posição, mas espero que me perdoe pelo que te fiz pensar de mim, eu não sou assim. Se quiser conversar e ver que sou mais do que acha que sou é só mandar uma mensagem 9942...., mas se não mandar vou entender que não quer mais falar comigo.
Ps: Na verdade foi eu, Zec, quem escreveu, mas o Adam me mandou o textão dizendo para te mandar isso, e todas as instruções.
Eu não vou mandar mensagem, não mesmo. De jeito nenhum. Mas, mesmo assim estou curiosa.
Preciso falar com a Isa.
Me levanto da cama e já coloco um casaco e vou correndo para a porta. Eu não sei porque estou ansiosa, nervosa e curiosa tudo ao mesmo tempo, talvez seja o fato de que nunca vivi algo assim antes.
- Aonde você vai? – minha mãe falou me dando um susto.
- Para a casa da Isa.
- E não pensava em pedir autorização?
- Desculpa, me esqueci desse detalhe, eu posso ir?
Ela me olha do pé a cabeça, tentando ver o que eu estava aprontando.
- Aproveita que vai sair e leva isso para os correios – ela falou me dando uma carta.
Olhei para a carta e era para alguém de Londres, quem ela conhece de lá e principalmente, porque uma carta, ela nunca ouviu falar de e-mail?
- Para quem é? – perguntei.
- Para um admirador inglês.
- Você finalmente superou o meu pai então? – falar isso parece ter sido o maior crime da minha vida. Ela enrijecer todo seu rosto.
Eu não conheci meu pai, minha mãe diz que ele era o homem mais perfeito que ela já conheceu, mas que assim que soube que ele soube que eu viria nos abandonou. Ela ainda o espera, achando que ele vai aparecer do nada para dizer que a ama e que algo aconteceu para ele ter ido embora há 15 anos.
- Não existe homem igual a seu pai, então não, jamais o superarei e a culpa é sua dele não estar mais aqui.
Ótimo eu me engravidei sozinha, cientistas venham me analisar.
Eu não respondi ao comentário dela, sabia que qualquer coisa que eu falasse iria fazer com que ela não me deixasse sair.
- Vai levar a carta ou não?
- Você sabe que os correios ficam do outro lado da cidade, né?
Ela deu de ombros.
- Você já vai sair mesmo.
Bufei. Peguei as coisas e nem me despedi.
A casa da Isa era longe da minha, mas mais ainda dos correios. Às vezes me pergunto quem conseguiria gostar da minha mãe, ela consegue tirar qualquer um do sério.
O ônibus não demorou muito a chegar, mas iria ficar mais uns 40 minutos ali esperando descer nos correios. Então peguei a carta de novo.
Destinatário: John Martins, Londres Inglaterra.
Nossa, o sobrenome dele é português, agora faz todo sentido, minha mãe nem sabe falar inglês.
°°°
Eu odiava o centro, era onde os correios ficavam, eu sempre conseguia me perder com tantas pessoas me empurrando de um lado para outro, eu consegui por pouco achar os correios, mas agora eu não acho é o ponto de ônibus. Eu sei que ele deveria ficar perto do relógio gigante, afinal ele é o centro da praça onde a maioria deles passam, mas eu nem se quer vejo esse relógio.
Queria perguntar para alguém, mas todos me ignoravam. Comecei a me sentir sufocada, precisava sair de lá.
Peguei meu celular e liguei para a Isa. Caixa Postal. Liguei de novo. Caixa Postal.
Droga.
Liguei para a minha mãe, mas ela tampouco atendeu.
Para o Leo, também nada.
O que essas pessoas estão fazendo para ninguém me responder.
Minha última esperança e meu maior medo se uniram. O nome dele apareceu na minha tela, mas eu não conseguia clicar em ligar. Não, não vou ligar para ele, isso seriamuito estranho.
Quando estava clicando em voltar para tentar me achar sozinha, uma pessoa esbarra em mim e acabo clicando em ligar.
AAAAAAAAAAA não.
Quando fui clicar em desligar eu ouvi.
“Alô?”
Deus só pode estar brincando comigo.
“Alô” Ele repete.
“Oi, Adam...”
“Milena é você?”
“Pois é...”
“Vou ser sincero que eu achava que se fosse falar comigo seria por mensagem... mas estou feliz que tenha ligado, de verdade me desculpa pelo que aconte....”
“Eu sei o que vai dizer, mas eu preciso de ajuda... Eu não consegui faar com ninguém mais e sei que isso pode ser estranho já que a gente se conheceu literalmente hoje, mas eu estou desesperada...”
“O que aconteceu?” ele falou preocupado.
“Eu me perdi, eu estou no centro, mas para ser sincera eu sempre me perco com essa multidão passando de um lado para o outro... e eu não sei o que fazer, me ajuda.”
“Primeiramente, calma. Entra em alguma loja que esteja ai perto de você e me fala o nome, vou ir até ai.”
Engoli seco.
“Não precisa vir, eu só preciso saber onde que eu pego o ônibus.”
“Pense comigo, você sabe o caminho, afinal você foi de ônibus, mas você está travada, me disse que sempre se perde no centro devido a quantidade de pessoas. Sabe o que é isso?”
“Não.”
“Se chama Agorafobia, você desenvolve um ataque de pânico por estar rodeada de pessoas, se sente sufocada e acaba travando. Só me diz o nome da loja que você entrar que eu já estou indo para lá”
Entrei em uma lanchonete que estava atrás de mim.
“Snack na mão.”