O sol ainda nem tinha nascido, mas a cidade já fervia. No Complexo da Maré, o rádio chiava com avisos curtos e tensos.
— O Pedro tá vivo. Foi a médica que salvou. — dizia a voz rouca, abafada entre chiados. — Uma branquela... nome dela é Mariana.
Na laje, com o fuzil atravessado no peito e o boné virado pra trás, Carlinhos, braço direito de Pedro, escutava em silêncio. Ele era o tipo de homem que falava pouco, mas via tudo. E naquele momento, a única coisa que ele queria saber era quem era essa tal de Mariana, e por que o chefe estava escondido num hospital com ela.
Ele pegou o celular e mandou uma mensagem curta:
“Já tô indo buscar. Prepara ele.”
No hospital, Mariana sentia os olhos cansados queimarem. Havia dormido pouco, e a tensão da madrugada anterior ainda martelava dentro dela como uma ressaca emocional.
Estava trocando o curativo de Pedro quando ele abriu os olhos com aquele mesmo olhar desafiador da noite anterior.
— Já acordado? — ela perguntou, tentando não parecer tão afetada por aquela presença dominante.
— Tô vivo, né? Por tua causa... — respondeu ele, com a voz ainda rouca. — Brigado, doutora.
Ela deu um sorriso breve, profissional.
— O ferimento ainda pode infeccionar. Precisa repousar. E sumir daqui o mais rápido possível. Não posso cobrir você por muito tempo.
Pedro ergueu uma sobrancelha.
— E por que cobriu até agora?
Ela não respondeu. Continuou trocando o curativo, desviando o olhar. Mas ele não parou.
— Tu sabe quem eu sou, né?
— Sei. E por isso mesmo, não devia estar aqui.
— Mas tá. — Ele sorriu, de canto. — E tá linda com essa cara brava.
Mariana se afastou um passo. Aquele jeito dele, meio debochado, meio perigoso, causava algo estranho dentro dela. Como se a tensão do medo e do desejo se misturassem sem pedir licença.
— Não tô brincando, Pedro. Eu tô colocando minha carreira em risco.
— E eu, minha vida. — Ele se ergueu um pouco na maca, gemendo. — Mas se tu não tivesse ali ontem, eu já era. Tu me deu uma segunda chance. E eu não esqueço de quem me salva.
Ela cruzou os braços, encarando-o.
— Só espero que você não me coloque no seu mundo, porque eu não faço parte dele.
Pedro não respondeu de imediato. Só ficou olhando, como se estudasse cada detalhe dela. O jaleco branco, os olhos firmes, a voz trêmula tentando parecer segura.
— O problema é que, mesmo sem querer, já tá dentro.
No corredor do hospital, Dra. Érica, colega de plantão de Mariana, estava encostada no balcão, observando os enfermeiros
cochichando. Ela era experiente, vivida, e desconfiava de movimentações estranhas como quem fareja fumaça antes do fogo.
— Tá acontecendo alguma coisa com a Mari? — perguntou a um dos residentes.
— Não sei... Ela ficou a madrugada inteira naquela sala dos fundos. Disseram que foi um caso sigiloso. Nem ficha tem.
Érica franziu a testa. Mariana não era do tipo que fazia as coisas fora do protocolo. E caso sem ficha? Aquilo cheirava a coisa errada.
Pegou o celular e mandou uma mensagem:
“Podemos conversar? Me preocupa esse tal paciente secreto.”
Do lado de fora do hospital, uma moto preta estacionou discretamente. Carlinhos desceu com passos firmes, capuz cobrindo metade do rosto. Ele entrou pela lateral, onde os entregadores de material médico costumavam descarregar caixas. Já sabia o caminho. Alguém do hospital tinha passado o recado.
Chegou até a sala reservada, bateu duas vezes. Mariana abriu com o jaleco amarrotado e os olhos tensos.
— Quem é você?
— Sou o que cuida do homem que tu salvou. — Carlinhos entrou sem pedir. — Vim buscar ele.
Pedro riu ao ver o comparsa.
— Aí, Carlinhos... demorou, hein? Tava quase me apaixonando aqui pela doutora.
Carlinhos não sorriu. Olhou direto pra Mariana.
— Cê sabe o risco que corre, né?
— Eu sei. Mas ele precisava de ajuda. Era isso ou deixar ele morrer.
— E cê acha que vão te agradecer por isso?
Mariana encarou Carlinhos de volta. Sentia o coração acelerar, mas manteve a postura.
— Eu não espero agradecimento. Só quero que ele saia daqui sem chamar atenção.
Carlinhos assentiu.
— Vai ser feito. Mas ouve aqui... agora que tu salvou ele, teu nome já corre. Se a boca de fumo sabe quem tu é, a polícia também vai saber. Tá no meio da linha de tiro, doutora.
— Eu sei. — Ela abaixou os olhos, por um segundo. — Mas não volto atrás.
Pedro observava tudo em silêncio, com aquele olhar que misturava admiração e perigo.
— Bora, então — disse ele, com esforço para se levantar. Mariana correu para ajudá-lo.
— Vai devagar. Você ainda tá fraco.
Pedro segurou sua mão, firme.
— A gente vai se ver de novo, né?
Ela hesitou. Não respondeu.
Mas dentro dela, algo já sabia a resposta.
Horas depois, Mariana estava de volta à sala de descanso, com a cabeça girando. Tinha feito algo que não podia contar pra ninguém. Algo que, se descoberto, podia acabar com tudo o que construiu.
O celular vibrou. Era uma mensagem de Érica:
“Te espero na sala do café. Precisamos conversar.”
E ela sabia: era só o começo do que estava por vir.
Porque enquanto Pedro deixava o hospital pela porta dos fundos, com Carlinhos o apoiando, o nome de Mariana se espalhava não só pelos becos da favela… mas também nos corredores da Justiça.
O café esfriava na xícara enquanto Mariana encarava o olhar fixo de Érica.
— Cê quer me explicar o que tá acontecendo? — Érica perguntou, cruzando os braços, com a expressão dura.
Mariana engoliu seco. Sabia que mais cedo ou mais tarde isso ia acontecer.
— Era um paciente grave, Érica. Tinha perdido muito sangue. Chegou sem identificação... foi uma emergência.
— Emergência sem ficha? Sem prontuário? Você trancou uma sala por mais de três horas! E agora sumiu com o homem? — Ela bateu a mão na mesa. — Tu acha que eu sou i****a?
— Eu fiz o que precisava ser feito — Mariana respondeu, firme. — Salvei uma vida.
— E que vida, Mariana? Quem era ele?
Silêncio.
Érica se aproximou.
— Eu sou tua amiga, mas também sou médica. Isso pode acabar contigo. Se alguém descobre, você tá fora do hospital. Sem CRM. Sem carreira. Entendeu?
Mariana respirou fundo. A imagem de Pedro sangrando no corredor da emergência ainda estava vívida demais.
— Eu sei. Mas ele teria morrido ali mesmo. E não vou carregar isso na minha consciência.
Érica balançou a cabeça, frustrada.
— Só espero que esse “alguém” que tu salvou não te arraste junto pro buraco, Mari. Porque o sistema não perdoa quem pisa fora da linha.
Enquanto isso, a Kombi descia uma viela estreita da Maré, com os vidros cobertos por insulfilm. Lá dentro, Pedro estava encostado, olhando pela fresta entre as cortinas improvisadas.
Carlinhos dirigia, com o rosto sério.
— O bagulho esquentou enquanto tu sumiu. — disse ele. — Os cara do TCP achou que tu tinha morrido. Vieram testar a fronteira da Vila do João ontem à noite.
Pedro arregalou os olhos.
— Entraram na Vila?
— Tentaram. Mas a gente segurou. Só que geral começou a falar. Teu nome tava na boca da favela inteira. Uns dizendo que tu morreu, outros dizendo que tu fugiu.
— E tu deixou?
Carlinhos olhou pelo retrovisor, tenso.
— Era isso ou atrair a polícia. Só tu vivo podia mostrar que o morro ainda tem dono.
Pedro respirou fundo, sentindo o peso do fuzil nos ombros antes mesmo de pegá-lo.
— Então bora mostrar.
A Kombi parou no beco de trás da boca da Rua Dois. Quando Pedro desceu, o burburinho se espalhou como rastilho de pólvora. Os meninos da contenção ergueram os rádios.
— É ele! O Pedro voltou! — gritou um.
Em segundos, a viela se encheu de olhares. Alguns aliviados, outros tensos.
Pedro caminhou devagar, ainda se recuperando da ferida. Mas sua presença falava mais alto que qualquer dor. Estava de volta. E isso mudava tudo.
Na laje, os soldados da contenção cumprimentavam com o sinal do bonde. Um silêncio respeitoso caía sobre a quebrada, como se o morro respirasse aliviado.
Mas o alívio durou pouco.
— Vem vindo carro estranho pela entrada do Parque União! — gritou um dos olheiros pelo rádio.
Pedro se virou pra Carlinhos.
— Já sabiam que eu tava voltando?
— Ou tem X9, ou tão vigiando desde ontem.
— Pega o fuzil.
Carlinhos entregou a arma sem hesitar. E no mesmo segundo, o primeiro tiro estourou no alto da viela.
PÁ!
A quebrada explodiu em gritos.
— SE ABAIXA!
— VEM INVASÃO!
Pedro subiu a escadaria com o fuzil no ombro e os olhos frios. A bala zunia pelos corredores da favela como mosquito em noite quente.
— ALINHA OS HOMEM! — gritou. — NINGUÉM VAI TOMAR O QUE É NOSSO!
No topo da laje, Pedro se posicionou atrás do muro quebrado. Ao lado dele, três soldados armados. O tiroteio aumentava, estourando as janelas, riscando o céu de chumbo.
De onde estava, viu os inimigos recuando pela Rua da Feira. A invasão era teste, provocação. Mas ele sabia que não ia parar por aí.
Quando os tiros cessaram, e o silêncio pesado caiu sobre a favela, Pedro desceu com a respiração ofegante.
— Isso é só o começo. — disse Carlinhos. — A guerra vai voltar.
Pedro encarou os becos, as crianças saindo de onde estavam escondidas, as mães chorando no portão.
— Se querem guerra, vão ter.
Mas no fundo, o que mais o incomodava era outro fantasma.
O X9.
— Tem dedo de traidor nisso aí — disse ele, baixo.
— Tenho uma suspeita. — Carlinhos respondeu. — Mas ainda preciso confirmar. O nome é Neguinho da Baixa.
Pedro parou.
— O moleque da contenção?
— Ele mesmo. Tá saindo demais, sem dar satisfação. E ontem foi visto no Centro com celular novo e roupa de marca.
Pedro mordeu os lábios, pensativo.
— Fica de olho. Mas ninguém encosta nele ainda.
— Vai fazer o quê?
Pedro olhou pro céu escurecendo.
— Vou esperar ele errar de vez.
No hospital, Mariana lavava as mãos com força, como se pudesse tirar o cheiro da pólvora e do sangue com sabão.
O celular vibrou.
Número desconhecido.
Ela hesitou... e atendeu.
— Alô?
— É o Pedro. Só queria dizer... obrigado.
Silêncio.
— Não devia estar me ligando. Se alguém rastreia...
— Tô usando linha de um menor da boca. Só queria que tu soubesse que eu tô vivo. E que se tu precisar de mim... já sabe.
Ela fechou os olhos, sentindo o coração bater forte.
— Pedro... isso é perigoso.
— Mais perigoso é sentir que tu mudou minha vida em uma madrugada.
A ligação caiu.
E Mariana, mesmo cercada por paredes de hospital, sentiu que estava num campo de guerra muito maior do que qualquer pronto-socorro.
Um campo onde vida e morte se misturavam com desejo, medo e escolhas impossíveis.
E ali, entre a vida e a morte, ela sabia: já não tinha mais volta.