O sol da tarde refletia-se nas vitrinas do centro da cidade. Gabriella caminhava com Clara e mais duas amigas após um café. Camilla, por sorte, recusara o convite, preferindo passar o dia em compras com Eloísa.
Gabriella estava mais leve. A lembrança do enfrentamento no coquetel ainda lhe trazia uma centelha de orgulho. Sentia-se diferente, mais dona de si. Até Clara comentou:
— Nunca te vi tão segura, Gabi. Estás a brilhar.
Gabriella sorriu, ajeitando os óculos de sol.
— Talvez esteja a aprender a viver para mim, não para eles.
Enquanto conversavam, uma mulher atravessava a rua, trazendo uma sacola de tecidos. Era Rosa Helena, que acabara de sair de uma loja de costura. Não esperava cruzar-se com ninguém, mas quando seus olhos pousaram em Gabriella, o mundo pareceu parar.
Os mesmos olhos azuis.
O mesmo semblante que por duas décadas habitara seus sonhos.
Rosa sentiu as pernas fraquejarem. Por instantes, não conseguiu respirar.
Gabriella percebeu o olhar fixo e estranho da desconhecida. Parou no meio da calçada, intrigada.
— Posso ajudá-la? — perguntou, educadamente.
Rosa apertou a sacola contra o peito, tentando disfarçar as lágrimas que insistiam em surgir.
— Desculpa, senhorita... eu... pensei que conhecia você.
Clara olhou de uma para a outra, curiosa.
— Conhecê-la? Como assim?
Rosa respirou fundo, forçando um sorriso.
— É que... tens uns olhos idênticos aos de alguém muito especial que conheci há muito tempo.
Gabriella franziu a testa, surpresa.
— Já me disseram isso antes... mas não sei quem poderia ser.
A voz de Rosa falhou.
— Talvez... um anjo que perdi no passado.
As palavras deixaram Gabriella perturbada. Sentiu uma estranha mistura de calor e desconforto, como se algo dentro de si tivesse reconhecido aquela mulher.
Clara, sempre atenta, cochichou:
— Gabi, reparaste? Vocês têm o mesmo tom de olhos. Até o jeito de olhar é parecido.
Gabriella desviou, nervosa.
— Coincidência, só pode ser...
Rosa percebeu a agitação dela e recuou, temendo revelar-se cedo demais. Mas não resistiu a dizer:
— Se um dia precisar de ajuda, procure-me. Trabalho naquela pequena costura ali na esquina.
E apontou discretamente para a loja.
Gabriella assentiu, intrigada.
— Obrigada.
Rosa então afastou-se, antes que as lágrimas a traíssem. Cada passo parecia uma faca cravada no coração. Mas também carregava uma esperança nova: agora tinha tocado o caminho da filha, ainda que como estranha.
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Naquela noite, sozinha no quarto, Gabriella não conseguiu dormir. O rosto daquela mulher não lhe saía da mente. Havia algo na intensidade do olhar, na voz embargada, na emoção m*l disfarçada.
Escreveu no diário:
“Hoje cruzei-me com uma mulher que me olhou como ninguém nunca olhou. Como se me conhecesse mais do que eu mesma. E, por um instante, senti que não estava só neste mundo. Quem será ela?”
Do outro lado da cidade, Rosa acariciava os recortes antigos de jornais, lágrimas caindo sobre as fotos de Gabriella em festas sociais.
— Meu anjo... finalmente te vi de novo. E juro que desta vez não vou perder-te.
✨ Neste capítulo temos:
O primeiro encontro entre Rosa e Gabriella: breve, intenso, cheio de emoção.
Clara percebe a semelhança física, sem compreender o porquê.
Gabriella sente a familiaridade inexplicável, abrindo espaço para a dúvida.
Rosa dá o primeiro passo para se aproximar, mas segura a revelação, aguardando o momento certo.
📖 Capítulo 11 – Laços Invisíveis
O fim de semana chegou com o céu cinzento. Gabriella caminhava pelo quarto, inquieta. O rosto da mulher que encontrara dias antes não lhe saía da memória.
Clara comentara casualmente: “Vocês pareciam mesmo mãe e filha, até no jeito de sorrir...”
E quanto mais Gabriella tentava esquecer, mais a lembrança se impunha.
Na tarde de domingo, decidiu. Pegou a bolsa e saiu sem avisar ninguém.
O coração batia acelerado quando parou diante da pequena loja de costura na esquina indicada. A vitrina exibia vestidos simples, mas bem trabalhados. O contraste com o luxo das boutiques que frequentava era gritante — e, ainda assim, havia ali uma beleza autêntica.
Entrou. O sininho da porta anunciou sua chegada.
Rosa Helena ergueu os olhos da máquina de costura, e por um instante o tempo parou novamente. Lá estava a filha, em carne e osso, diante dela.
— Boa tarde... — disse Gabriella, meio sem graça. — Desculpe aparecer sem avisar.
Rosa engoliu em seco, tentando disfarçar a emoção.
— Não tens de pedir desculpa. És sempre bem-vinda.
Gabriella percorreu o espaço com o olhar: tecidos coloridos, fotografias antigas na parede, o cheiro de linhas e sabão em pó. Tudo parecia acolhedor, tão diferente da frieza da mansão Portilha.
— Eu... não sei bem por que vim — confessou. — Mas havia algo no seu olhar, aquele dia... parecia que me conhecia.
Rosa sentiu as lágrimas ameaçarem. Virou-se para pegar uma tesoura, fingindo ocupar-se.
— Talvez seja porque me lembrei de alguém que amei muito.
Gabriella a observava em silêncio. Havia uma doçura naquela mulher que nunca conhecera em Eloísa. Um jeito materno em cada gesto simples.
— Posso ver esses vestidos? — perguntou, apontando para algumas peças.
— Claro — respondeu Rosa, mostrando cada um com cuidado. — Faço-os para clientes do bairro. Trabalho desde cedo, sabes?
Gabriella tocava os tecidos, encantada.
— São lindos. A senhora tem talento.
— Obrigada, minha filha — escapou sem querer.
Gabriella a olhou surpresa.
— O que disse?
Rosa corou, sentindo o coração acelerar.
— Perdão... é força de expressão. Costumo tratar todos assim.
Mas a palavra já estava dita. Gabriella sentiu um calor inexplicável. Como se, por um instante, tivesse ouvido aquilo que sempre desejou da boca de Eloísa.
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Ficaram conversando por mais de uma hora. Gabriella contou coisas da sua vida que nunca ousara revelar: a solidão, o silêncio frio da mãe, a preferência descarada por Camilla. Rosa ouvia em silêncio, lutando para não chorar.
— Deve ser difícil — disse apenas. — Viver rodeada de luxo, mas sentir falta do que é mais simples: amor.
Gabriella assentiu, surpresa por ser compreendida.
— Exatamente isso.
Quando percebeu o tempo, levantou-se apressada.
— Preciso ir. Se minha mãe souber que ando por aqui, vai fazer um escândalo.
Rosa respirou fundo, tentando conter o impulso de agarrá-la e não a deixar sair.
— Volta quando quiser. A porta estará sempre aberta.
Gabriella sorriu, e, por um instante, os olhos de ambas se encontraram. Havia algo ali, um laço invisível que nenhuma delas conseguia explicar.
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Naquela noite, Gabriella escreveu no diário:
“Hoje voltei a encontrar aquela mulher. Sinto uma ligação estranha com ela, como se fosse... casa. Não sei explicar. Mas algo me diz que devo voltar.”
E, em outro canto da cidade, Rosa ajoelhava-se em frente à cama, em oração.
— Senhor, dá-me forças. Ela está tão perto. Só preciso do momento certo para lhe dizer toda a verdade.
✨ Neste capítulo temos:
Gabriella visita a loja de Rosa pela primeira vez.
Uma conversa íntima que cria confiança e laços invisíveis.
Rosa quase se trai ao chamar Gabriella de “minha filha”.
Gabriella começa a ver naquela mulher algo que sempre faltou em sua vida: afeto verdadeiro.