CAPÍTULO 13

802 Palavras
Isadora entrou na pequena cafeteria da cidade antes do almoço, tentando encontrar algum momento de normalidade. Mas Santa Marina não conhecia a palavra “normal” quando se tratava de Caio Moretti. E, naquele dia, ele estava lá. Sentado à mesa do canto, a postura rígida, o olhar perdido nos próprios pensamentos, mas sempre atento a tudo ao redor. Ele parecia maior, mais perigoso, e de um jeito que fazia o coração dela acelerar sem explicação. — Ele mudou. — sussurrou para si mesma. Caio a viu entrar. Levantou a cabeça e o mundo pareceu parar por um segundo. O ar ficou denso, pesado, carregado de algo que não se podia nomear. Não havia mais o garoto doce que ela lembrava. Havia um homem com feridas abertas, cicatrizes que não se curaram e olhos que revelavam decisões duras, possivelmente cruéis. Ele se levantou lentamente, cada gesto calculado, e caminhou até ela. — Posso me sentar? — perguntou, a voz baixa e firme. Isadora assentiu, incapaz de falar. Cada passo dele carregava autoridade, perigo e promessa. Quando ele se aproximou, a distância entre eles parecia diminuir naturalmente, como se o tempo tivesse decidido que, dali em diante, cada centímetro importaria. — Você está diferente também. — ele disse, quebrando o silêncio, e não era apenas observação. Era análise. Certeira, profunda. — Eu sempre mudo, Caio. — respondeu, tentando disfarçar a i********e que sentia. — Mas você — parou, sem saber como colocar em palavras o que sentia quando o olhava você parece, mais intenso. Ele se sentou, e o olhar dele a perfurou, tão carregado de intenções que Isadora sentiu a respiração falhar. — Mais intenso não é sempre bom. — disse, baixinho. — Às vezes significa que a pessoa está prestes a quebrar tudo ao redor. Ela engoliu em seco. — E você? Está prestes a quebrar tudo ao redor? Um sorriso lento surgiu no canto da boca dele. Um sorriso que não era convidativo, mas ameaçador, Possessivo. — Só o que for necessário. — ele respondeu. — Para te proteger e para que ninguém mais ouse tocar em você. Ela sentiu o calor daquelas palavras percorrer cada nervo do corpo, misturando medo e desejo, raiva e submissão. Era o mesmo homem que conhecera, mas diferente. Mais escuro. Mais perigoso. Mais dele. O movimento dele para perto, um simples gesto de tocar sua mão sobre a mesa, foi suficiente para enviar faíscas invisíveis entre os dois. Isadora segurou a mão dele por um instante, sentindo o aperto firme, a promessa silenciosa e a possessividade que não precisava de palavras para se declarar. — Está me assustando. — ela sussurrou. — Boa. — ele respondeu com um meio sorriso. — Preciso que você sinta. Preciso entender que o mundo lá fora não é seguro. E que você, Isa ele pronunciou o apelido com peso, carregando anos de lembranças e segredos você não está sozinha. Ela respirou fundo, tentando processar cada detalhe: o olhar intenso, a postura controlada, o cheiro, o toque, o silêncio entre cada palavra dele. — E Henrique? — ela perguntou, a voz firme apesar do nervosismo. — Você acha que ele vai tentar alguma coisa depois da festa? O maxilar dele se contraiu. Um instante de raiva contida passou pelo rosto dele. — Ele está se movendo. — respondeu, a voz baixa e perigosa. — Mas se ele vier, vai encontrar algo que não esperava. Ela notou que Caio não falava apenas com autoridade — falava com conhecimento de causa. Ele tinha mudado. O menino doce que ela amava desaparecera sob camadas de dor, obsessão e poder. E agora estava ali, à sua frente, capaz de qualquer coisa para protegê-la. Ela sentiu um misto de fascínio e medo. O desejo não era mais apenas atração física. Era algo mais profundo, perigoso. Algo que a prendia e a libertava ao mesmo tempo. — Ele não é mais o mesmo. — ela murmurou, quase para si mesma. — Eu sei. — Caio respondeu, os olhos fixos nos dela, a intensidade quase tangível. — E você vai ter que decidir se consegue lidar com isso. Ela engoliu, incapaz de desviar o olhar. Havia algo naquele olhar que não podia ser ignorado. Uma promessa e uma ameaça, ao mesmo tempo. — Então estou avisada. — ela disse, tentando soar firme. — Mas não vou fugir de você. O sorriso dele se abriu levemente, quase sem alegria. — Que bom. Porque eu nunca mais deixarei você ir. E naquela cafeteria, entre o cheiro de café fresco e a chuva que começava a bater nas janelas, Isadora percebeu que o Caio que conhecera nunca voltaria. O homem à sua frente era mais escuro, mais intenso, mais possuído por ela do que jamais imaginara. E isso, de alguma forma, a assustava e a atraía na mesma medida.
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