Isadora entrou na pequena cafeteria da cidade antes do almoço, tentando encontrar algum momento de normalidade.
Mas Santa Marina não conhecia a palavra “normal” quando se tratava de Caio Moretti.
E, naquele dia, ele estava lá.
Sentado à mesa do canto, a postura rígida, o olhar perdido nos próprios pensamentos, mas sempre atento a tudo ao redor.
Ele parecia maior, mais perigoso, e de um jeito que fazia o coração dela acelerar sem explicação.
— Ele mudou. — sussurrou para si mesma.
Caio a viu entrar. Levantou a cabeça e o mundo pareceu parar por um segundo. O ar ficou denso, pesado, carregado de algo que não se podia nomear. Não havia mais o garoto doce que ela lembrava.
Havia um homem com feridas abertas, cicatrizes que não se curaram e olhos que revelavam decisões duras, possivelmente cruéis.
Ele se levantou lentamente, cada gesto calculado, e caminhou até ela.
— Posso me sentar? — perguntou, a voz baixa e firme.
Isadora assentiu, incapaz de falar.
Cada passo dele carregava autoridade, perigo e promessa.
Quando ele se aproximou, a distância entre eles parecia diminuir naturalmente, como se o tempo tivesse decidido que, dali em diante, cada centímetro importaria.
— Você está diferente também. — ele disse, quebrando o silêncio, e não era apenas observação. Era análise. Certeira, profunda.
— Eu sempre mudo, Caio. — respondeu, tentando disfarçar a i********e que sentia.
— Mas você — parou, sem saber como colocar em palavras o que sentia quando o olhava você parece, mais intenso.
Ele se sentou, e o olhar dele a perfurou, tão carregado de intenções que Isadora sentiu a respiração falhar.
— Mais intenso não é sempre bom. — disse, baixinho.
— Às vezes significa que a pessoa está prestes a quebrar tudo ao redor.
Ela engoliu em seco.
— E você? Está prestes a quebrar tudo ao redor?
Um sorriso lento surgiu no canto da boca dele.
Um sorriso que não era convidativo, mas ameaçador, Possessivo.
— Só o que for necessário. — ele respondeu.
— Para te proteger e para que ninguém mais ouse tocar em você.
Ela sentiu o calor daquelas palavras percorrer cada nervo do corpo, misturando medo e desejo, raiva e submissão.
Era o mesmo homem que conhecera, mas diferente. Mais escuro. Mais perigoso. Mais dele.
O movimento dele para perto, um simples gesto de tocar sua mão sobre a mesa, foi suficiente para enviar faíscas invisíveis entre os dois.
Isadora segurou a mão dele por um instante, sentindo o aperto firme, a promessa silenciosa e a possessividade que não precisava de palavras para se declarar.
— Está me assustando. — ela sussurrou.
— Boa. — ele respondeu com um meio sorriso.
— Preciso que você sinta. Preciso entender que o mundo lá fora não é seguro.
E que você, Isa ele pronunciou o apelido com peso, carregando anos de lembranças e segredos você não está sozinha.
Ela respirou fundo, tentando processar cada detalhe: o olhar intenso, a postura controlada, o cheiro, o toque, o silêncio entre cada palavra dele.
— E Henrique? — ela perguntou, a voz firme apesar do nervosismo.
— Você acha que ele vai tentar alguma coisa depois da festa?
O maxilar dele se contraiu. Um instante de raiva contida passou pelo rosto dele.
— Ele está se movendo. — respondeu, a voz baixa e perigosa.
— Mas se ele vier, vai encontrar algo que não esperava.
Ela notou que Caio não falava apenas com autoridade — falava com conhecimento de causa.
Ele tinha mudado.
O menino doce que ela amava desaparecera sob camadas de dor, obsessão e poder.
E agora estava ali, à sua frente, capaz de qualquer coisa para protegê-la.
Ela sentiu um misto de fascínio e medo.
O desejo não era mais apenas atração física.
Era algo mais profundo, perigoso.
Algo que a prendia e a libertava ao mesmo tempo.
— Ele não é mais o mesmo. — ela murmurou, quase para si mesma.
— Eu sei. — Caio respondeu, os olhos fixos nos dela, a intensidade quase tangível.
— E você vai ter que decidir se consegue lidar com isso.
Ela engoliu, incapaz de desviar o olhar. Havia algo naquele olhar que não podia ser ignorado. Uma promessa e uma ameaça, ao mesmo tempo.
— Então estou avisada. — ela disse, tentando soar firme.
— Mas não vou fugir de você.
O sorriso dele se abriu levemente, quase sem alegria.
— Que bom. Porque eu nunca mais deixarei você ir.
E naquela cafeteria, entre o cheiro de café fresco e a chuva que começava a bater nas janelas, Isadora percebeu que o Caio que conhecera nunca voltaria.
O homem à sua frente era mais escuro, mais intenso, mais possuído por ela do que jamais imaginara.
E isso, de alguma forma, a assustava e a atraía na mesma medida.