Manual de Como Perder um Dentista e Ganhar um Demônio

1072 Palavras
Abri o envelope hesitante, o coração acelerando em um misto de expectativa e medo. A primeira coisa que capturei foi sua letra horrível, escorrendo como tinta de um caneta falhando. O papel continha poucas palavras, mas suficientes para gelar meu sangue: — Peça à recepcionista para lhe dar o contato da minha família. Abaixo, um número de telefone, como se fosse uma sentença de morte. Num impulso, a vontade de discar e perguntar como ele estava tomou conta de mim. Mas seria irracional, certo? Afinal, como um dentista te receberia depois de arruinar a vida dele? Mas não podia simplesmente ignorar a situação, ao menos teria que tentar, um consolo egoísta meu, talvez? Quando finalmente liguei para aquele número, ainda parada ao lado da recepcionista, a voz forte e familiar de Jamil ressoou do outro lado. — Doutor Jamil? Aqui é Charlotte. Um silêncio pesado se instalou, e então ele respondeu, quase como se estivesse se preparando para a bomba que iria soltar. — Sra. Speredo, como posso ajudá-la? Meu coração despedaçou ao ouvir meu sobrenome pronunciado por ele. Porque eu nunca mencionei que meu sobrenome era uma sombra de um casamento sem amor. Alexander deve ter contado a ele após nosso último encontro. A verdade me atingiu como um soco no estômago, e eu não sabia como reagir. — Você está bem, Dr. Jamil? — perguntei, a voz tremendo como um filamento de luz em uma tempestade. — Estou… O silêncio que se seguiu era pesado, como se ambos soubéssemos que havia muito mais a dizer, mas as palavras eram espinhos que não podíamos arriscar tocar. Ele finalmente quebrou o gelo, e suas palavras cortaram ainda mais fundo. — Foi seu marido quem me pediu para deixar uma mensagem a você com meu número. Ele disse que passei dos limites com aquele telefonema e nosso encontro no café. Nos últimos dias, desejei que você nunca recebesse esse envelope, pois não tenho mais coragem para falar com você. Peço desculpas por ser inconveniente, Sra. Speredo. Cada palavra dele era um punhal que me atingia, não porque eu nutria sentimentos românticos por Jamil, mas porque sua necessidade de se afastar de mim era um reflexo do controle c***l de Alexander. Ele afastou todos que se aproximaram de mim: amigos, família e até mesmo os vizinhos, que pareciam me evitar como se eu fosse uma praga. Fui condenada a uma solidão fria e sufocante por aquele sem coração. Odiava Alexander com uma intensidade que queimava dentro de mim, um fogo que se transformava em cinzas só de lembrar que ele não apenas havia forçado Jamil a se afastar, mas fez o homem perder o emprego, só para provar o quão poderoso e controle tem sobre mim. O homem que deveria cuidar de mim e do meu dente agora estava fugindo de mim por causa dele. Meu orgulho não suportava mais. Com um gesto brusco, cortei a ligação, decidindo preservar o que restava da dignidade de ambos. Amassei o envelope, jogando-o na lixeira, e saí da clínica sem receber o tratamento. Em vez disso, peguei um ônibus para a rádio, onde passei horas tentando pensar em um tema alegre para o programa. Mas, ironicamente, escolhi falar sobre o maior arrependimento da vida. Respirei fundo ao entrar no ar e, em um momento de sinceridade crua, disse aos ouvintes: — Por muito tempo, meu maior arrependimento foi ter me casado com um homem que não amava e que também não me amava. Mas hoje, percebo que meu maior erro foi ter esperanças. Me arrependo de cada momento em que esperei que as coisas se consertassem. Gastei três anos da minha vida vivendo nessa ilusão, e agora me arrependo… — Minhas lágrimas começaram a escorregar, e a voz falhou. Tentei me recompor, mas estava difícil. Tamilian olhou preocupado do outro lado do vidro. — E como eu odeio esse homem! Se você me tem, mesmo que em um espaço frio do seu coração, por favor, me dê o divórcio! — implorei, a voz se quebrando. Alexander Speredo destruiu minha vontade de levar uma vida respeitosa em todos os sentidos. A cada vez que tentava respirar, ele me afundava mais em um abismo profundo, provando que ninguém se atreveria a me salvar, a não ser ele. Para sobreviver, eu teria que me submeter a sua vontade, e isso me deixava enojada. Um sádico. Eu o odiava com tudo o que restava em mim. Chorei desesperadamente no ar, sem me importar em perder meu emprego ou minha dignidade. A dor que sentia era mais do que qualquer um poderia suportar. A emissora recebeu tantas ligações, mas não consegui atender a nenhuma delas. Apenas coloquei uma playlist de músicas tristes, cortei meu microfone e continuei chorando. Enquanto mergulhava nesse mar de emoções, lembrei de um dos últimos dias do meu casamento com Alexander, um momento que me assombra. Fui ao hospital para um check-up, e ao sair, notei que havia alguém sentado no banco de trás do carro que estava esperando por mim. A silhueta refinada era dolorosamente familiar. Quando abri a porta e confirmei que era ele, o ódio me consumiu. Decidi abandonar o carro, pensando que preferiria qualquer coisa a sentar ao lado daquele homem. Mas fui bloqueada por seus seguranças. — Senhora, por favor, entre no carro — ordenou um deles. O “por favor” soava tão vazio quanto eu. Sem opção, fui forçada a me sentar ao lado de Alexander, o carro me levando de volta à prisão que chamávamos de lar. Ele não perguntou como foi meu check-up, nem se importou comigo. O silêncio era ensurdecedor. Assim que entramos no quarto e fechamos a porta, antes que eu pudesse tirar meu casaco, ele me abraçou por trás com uma força que me surpreendeu. A respiração dele era quente e nojenta em meu pescoço e eu não tinha ânimo nem força para afastá-lo. Ele começou a beijar minha nuca e ombro com uma paixão inesperada e um arrepio percorreu meu corpo. Era a primeira vez que ele se comportava assim, era a primeira vez que ele me tocava assim e eu permaneci ali, como um cadáver, sem saber como reagir. Após um tempo, ele parou, a respiração irregular. — O que você quer de mim, Alexander? — sussurrei, tentando entender aquele novo jogo. Ele não respondeu. Fazia tanto tempo que não trocávamos palavras. E então, finalmente, consegui dizer: — Apenas me mate de uma vez.
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