Minha mãe tinha saído antes que eu podesse conversar com ela, e infelizmente, Santiago ficou aqui comigo. Estava no escritório trabalhando.
Entrei no quarto deles, e era duas vezes mais grande que o meu. Tinha uma King Size de madeira cinza, e mesas de cabeceira da mesma cor.
Fui até o closet. Ele era grande, muito grande. Vi uma caixa cinza, grande e abri. Lá tinha o vestido de noiva da minha mãe.
Ele era lindo. Muito lindo. Tirei da caixa e olhei para ele em mim no espelho.
Rodopiei e quando voltei a olhar no espelho, vi Santiago na minha trás. Que vergonha!
Coloquei o vestido dentro da caixa numa questão de segundos, e encarei Sebastian.
- O que te deu para entrar aqui? - Perguntou. Eu nem conseguia olhar nos olhos dele.
Olhava em sua boca.
- Eu não sei. Eu não quero... - Não sabia o que dizer, por isso, tentei fugir, mas ele não deixou.
- Nem pensar! Você não vai sair daqui!
- Eu só queria saber como era o quarto. - Respondi.
- Dançando com o vestido da sua mãe? Pensei que não fosse daquelas que sonham em casar algum dia.
- E não sou! - Ele não me deixava passar.
- Porquê gosta de fugir sempre? Você sofre de Síndrome da ansiedade social?
- Não! Eu só... - Ele segurou meu braço.
- Você sabe que eu serei seu padrasto não sabe? - Olhei para sua mão me tocando. Era um grande incómodo.
- Por favor, me solta! - Eu comecei a chorar.
Ele olhou para mim surpreendido, e chocado também.
- Tudo bem. - Ele me largou.
- Você é muito estranha. - Limpei minhas lágrimas.
- Eu... só não gosto que esteja perto de mim. - Disse gaguejando.
- Eu?
- Não! Vocês!
- Nós quem?
- Não importa. Me deixa sair, por favor! - Minhas lágrimas ainda corriam.
- Está bem. - Ele me deixou passar.
Eu corri até o meu quarto, e sentei na minha cama. Abracei as minhas pernas, e balançava para frente e para trás.
Eu precisava sair daquela casa o quanto antes. Precisava de outro lugar para ficar, mas eu não tinha emprego, como iria me sustentar?
Fechei os olhos e continuei os meus movimentos.
- Posso entrar? - Vi Santiago entrando com um sorriso de desculpas, e uma bandeja com duas fatias de bolo nela.
Eu acenei afirmativamente, sentei por cima dos meus pés e ele se aproximou. Sentou na minha frente e colocou a bandeja entre a gente.
- Dilce me disse que você adora bolo de chocolate. - Ele falou sorrindo.
- Porquê você não me avisou apenas que havia? Não precisava vir para cá.
- Eu só quero que a gente se dê bem. Você é filha da minha futura esposa, e temos que nos dar bem.
- Tudo isso porque eu chorei na sua frente?
- Não! Eu nem entendi bem essa parte. Eu apenas quero que a nossa relação mude. Você foge de mim, não entende quando estou brincando, fica pálida e estranha quando toco em você. Temos que mudar isso.
Tirei a minha fatia de bolo e dei uma garfada. Estava delicioso.
- Você acredita que eu fiz esse bolo?
- Não! Não acredito.
- Mas eu fiz. Se quiser, um dia desses eu provo. - Ele também come.
- O problema não é você!
- Não?
- O problema sou eu. Isso tudo é novo para mim.
- O quê? Uma figura paternal?
- Você tem vinte e muitos anos de idade.
- Tenho 35 anos. Completei no mês passado.
- Você tem 35? - Fiquei chocada.
- Sim. E eu prometo ser o padrasto mais divertido do mundo!
- Está bem. - Sorri. Ele também sorriu.
- É a primeira vez que vejo você sorrindo!
- Eu sei. - Dou uma garfada enorme no bolo.
- Isso está muito delicioso, você tem que me dar a receita!
- Tenho mesmo? Um chefe de cozinha nunca revela os seus segredos. - Ri.
- Esses não são os mágicos?
- Não!
- Posso chamar você de papai? - Brinquei.
- Definitivamente não! Nunca! Eu não tenho idade para ser seu pai! Quando você nasceu eu só tinha dez anos! Nem sabia o que era sexo. - Rimos, mas de repente ele ficou muito sério.
- Me chama de Santiago ! - Falou num tom muito sério e sexy.
- Está bem, Santiago ! - Falei sorrindo para ele.
- Ótimo!
Silêncio.
Já tínhamos terminado o bolo, apenas olhavamos um para o outro de uma forma estranha. Então ele se levantou e pegou na bandeja.
- Foi muito bom conversar com você Gabriela ,sem você estar na defensiva ou chorando.
- Digo o mesmo. - Sorri.
- Obrigada.
- Obrigado!
Então ele saiu e fechou a porta.
Santiago p.o.v
Finalmente chegou o dia. Eu ia me casar com a mulher da minha vida, e íamos adotar os nossos meninos com o tempo, visto que Celina já não podia engravidar.
Também havia Gabriel. Ela não tinha estofo para ser minha filha, e ainda assim tinha que a tratar como tal, e isso não ia ser coisa fácil, porque ela não era fácil. Ela era uma menina bastante estranha.
Ela parecia ter medo de mim, das vezes que eu estive por perto. Reparei muito bem. Já para não falar que nunca me chamou pelo nome. Ontem foi a primeira vez.
E aquilo soou estranho.
Fui para a sala e vi Celina lendo um livro distraída. Ela notou a minha presença e sorriu. Sentei ao seu lado.
O que eu gostava nela? O seu rosto lindo, sua competência, sua independência, e sua habilidade de resolver qualquer problema. Sempre gostei de mulheres únicas, e Cecília era inigualável. A mulher mais perfeita para mim.
- Você está nervosa? - Perguntei passando a mão pelo cabelo loiro dela. Ela me encantava por completo.
- Um pouquinho e você? - Sorriu ainda mais.
- Só quero que o tempo passe para eu poder dizer "aceito", e passar para o "pode beijar a noiva". - Ela riu e me deu um beijo.
- Eu também quero. Quero muito ser sua esposa!
- Eu sei, amor. - Baixei para beijá-la, mas quando ouvimos passos nas escadas, ela se afastou.
Virei e vi Gabriela descendo com o rosto triste como sempre. Usava um vestido preto e branco, e sandálias rasas. Ela se aproximou da gente e sentou no sofá.
- Querida, algum problema? - Celina perguntou sorrindo para ela.
- Não! Nada não. - Me perguntava porquê ela era assim tão estranha?
Devia perguntar isso a Celina , um dia desses.
- Você já sabe que vestido vai usar? - Perguntei para entrar na conversa.
Ela olhou para mim, olhou para cima, depois para as escadas antes de responder.
- Sim. Eu já sei. - Deve ter feito um esforço para não sair correndo.
- Bem, eu tenho muitas coisas para fazer, por isso, vou indo! - Celina levantou e me deu um beijo nos lábios e um na testa de Gabriela antes de sair de casa.
Olhei para Gabriela , e ela se levantou para fugir de mim, mas eu fui até ela e impedi que fugisse.
- Hey! Eu pensei que a gente ia ser amigos. - Disse sorrindo para deixá-la mais à vontade, mas acontece que ela era a pessoa mais complicada do mundo.
Ela olhou para baixo, obviamente desconfortável.
- Eu estou tentando!
Minhas mãos foram para o seu queixo, e eu levantei seu rosto. Seus olhos verdes se cruzaram com os meus.
Ela era como Celina, mas mais bonita. Celina tinha cabelos longos e lisos, Gabriela tinha cabelos ondulados até aos ombros, Celina tinha 1m e 60, e Gabriela tinha 1m e 69, Celina sorria o tempo todo, mas Gabriela ficava sempre triste.
- Então que tal fazermos alguma coisa antes de eu me casar?
- Eu não quero fazer nada obrigada. - Ela estava prestes a se afastar, mas eu a impedi outra vez.
- Você tem medo de mim?
- O que quer comigo? Eu preciso preparar a roupa que vou usar no casamento de vocês. Não tenho muito tempo.
- Está bem. Então vá. - Ela correu para as escadas como se tivesse visto um assassino em série.
Nunca ia entender aquela garota, decidi. Ninguém devia ser assim tão triste e afastado. Ela podia não ser filha de Celina se a semelhança não fosse incrível.
Também decidi subir pra o quarto. Peguei no meu telefone e liguei para Garrett. Ele demorou talvez uns três minutos para atender o telefone.
- Você é tão chato sabia? - Ele disse com a voz de quem tinha acabado de f********o.
Comecei a rir. - Você está com alguém? A essa hora você está transando?
- Olha Santiago, nem tudo você tem de saber! - Bufou repentinamente irritado.
- Tenho consciência disso caro amigo! - Olhei para a janela do quarto.
- Está nervoso?
- Claro que não. Estou pronto. Não sei o que é o nervosismo. Você alguma vez me viu nervoso?
- Tenho a certeza que você não quer que eu responda essa pergunta. - O i****a começou a gargalhar.
- Eu estou feliz que vou me casar com Celina, mas a filha dela é... - Procurei a palavra certa. - sociopata. Eu não sei se vou aguentar aquela menina.
- Não sei se você reparou, mas ela não é uma menina. - Entendi o sentido. Claro que eu tinha reparado naqueles s***s, naquelas curvas, naquelas pernas, e naquela b***a. Não reparei maliciosamente, mas porque gostava de reparar nas pessoas.
- Sei disso. Não entendo porquê ela é tão fria e triste. Há pessoas que exalam alegria, mas ela é o oposto. Já para não falar que ela tem medo de mim.
- Nenhuma mulher tem medo de você. Você sabe disso.
- Celina não tem. A Gabriela é outra coisa.
- O que importa? Ela é sua enteada e não a sua noiva. Sua noiva é Celina .
- Tem razão. Mas eu ainda vou me dar bem com ela. Por Celina .
- Não duvido.
- Eu tenho coisas relacionadas com o casamento para fazer, por isso ligo depois.
- Adeus. - Desligou.
[...]
Gabriela p.o.v
Segurei aquele vestido, e aquele e todos. Havia um vestido vermelho comprido muito sexy, por isso o descartei. Um branco, mas não queria parecer a noiva. Se fosse vestida de preto, não seria bom.
Me deitei na cama e fechei os olhos. Não podia imaginar como seria minha vida daqui em diante. Viver com Santiago que não larga do meu pé, sei que está fazendo isso pela minha mãe, mas eu só quero que me deixe em paz.
A porta do quarto abriu e sentei na cama para ver quem era. A empregada entrou sorrindo, e eu levantei.
- Quer ajuda, minha querida?
- Sim! Eu preciso mesmo de ajuda. Parece que nenhum dos meus vestidos servem para o casamento.
A mesma olhou para os vestidos, e começou a vasculhar. Eu fiquei olhando para ela sem saber o que fazer. Ela pegou num vestido azul escuro com um decote ligeiro, sem alças, e justo.
- Você não acha que isso é demais? Todos vão olhar para mím, e não para minha mãe!
- Não se preocupe. Celina vai ser o centro das atenções, você tem de usar esse! Ele é perfeito.
Olhei para ele nas mãos dela. Talvez ela tivesse razão. Aquele podia ser o vestido mais bonito que eu tinha. Decidi que ia usar aquele mesmo.
- Você me convenceu! Eu vou esse. - Agarrei no vestido. - Obrigada pela ajuda querida.
- Não precisa agradecer! Qualquer coisa é só chamar. - Ela saiu do quarto e fechou a porta.
[...]
Já eram quatro da tarde, quando minha mãe se preparava para o casamento. Eu também já estava pronta, mas precisava ajudar Celina com os últimos retoques. Ela nem estava nervosa, parecia que estava se preparando para enfrentar um dia como qualquer outro.
Seu vestido era branco justo, até ao joelho. Era de renda e brilhava com as pequenas imitações de diamantes que estavam em todo o vestido. Seus sapatos eram prateados, e não usava véu. Seu cabelo estava preso por uma presilha de flor branca. Sua maquiagem também era um espanto.
- Meu Deus! Você está linda Celina! - Verónica sorriu e pousou as mãos nos ombros de Celina .
- Santiago não perde por esperar!
- Onde vai ser a lua de mel? - Lia perguntou de um jeito meio safado.
- A gente vai ficar apenas um fim de semana de lua de mel. Vocês sabem que eu sou uma mulher muito ocupada!
- Sério, Cece! Pelo menos uma semana. O cara merece!
você tem 39 e não 50!
- Ambos concordamos com isso. Num momento mais propício iremos realizar a nossa lua de mel. Tenho muitas viagens para fazer!
- Leva ele junto! - Lia retrucou.
- Não quero que seja entediante para ele. Eu vou ficar saindo sempre. Não vai resultar.
- Você que sabe! - Verónica segurou meu braço. - Vamos embora, que você precisa casar ainda hoje.
- Tchau mãe!
- Adeus filha! - Saímos do quarto e fomos para fora para entrar no carro que ia nos levar para onde o casamento seria realizado.
[...]
O local estava cheio de amigos de Celina, alguns eu conhecia e outros não. E também muitas pessoas que eu não conhecia, que provavelmente eram amigos de Sebastian.
Ele estava no altar com um smoking preto, não parecendo nada nervoso. A decoração do local era prateado e roxo.
Eu andei até na frente e me sentei. Verónica e Lia ficaram junto de Santiago. Ele sorriu para mim, depois olhou para o meu vestido. Desviei o olhar procurando pessoas que eu conhecia.
Me deparei com um par de olhos azuis escuros e cabelos castanhos. Ele sorriu para mim e o reconheci. Carlos. O homem que trabalha para minha mãe.
Acenei para ele, e sorri de volta. Voltei a olhar para frente e Santiago continuava a olhar para mim. Aquilo me deixou desconfortável. Seus olhos azuis pálidos pareciam que conseguiam ver todos meus medos e todos meus segredos.
Quando a tradicional música de casamento começou a tocar e Santiago desviou o olhar, me senti como se tivesse saído da prisão. Olhei para trás e vi Celina entrando com um ramo de flores brancas, sorrindo em direção ao noivo.
Olhei novamente para Santiago e seu sorriso era tão largo que ocupou todo seu rosto. Ele era lindo e Celina tinha muita sorte em tê-lo. Não era igual ao meu pai.
Celina finalmente chegou até ele e olharam para o padre.
[...]
Foi o momento mais longo da minha vida. Aquele discurso foi o mais longo que já tinha ouvido, mas felizmente já tinha acabado.
-... eu os declaro marido e mulher! Pode beijar a noiva. - Santiago nem esperou que o padre terminasse e agarrou Celina.
Depois saíram de mãos dadas, enquanto jogavam arroz neles. Celina estava muito feliz. Por momentos, pensei que Ray ia aparecer e estragar a festa, mas não. Nem teve chance.
[...]
A festa estava muito boa e muito animada, mas eu não sabia qual era o meu lugar. Sem Michelle eu era uma garota perdida.
Olhei para cima e vi Carlos se aproximando de mim sorrindo.
- Oi Gabriela! Eu não sabia que estava aqui . Quando você chegou?
Levantei. - Eu cheguei há alguns dias.
- Você se divertiu em Madrid?
- Mucho! - Rimos. Ele segurou a minha mão e eu a afastei, fingindo pegar a minha bebida na mesa.
- Você vai continuar morando com Celina ?
- Parece que sim! E você como está? Finalmente arranjou uma namorada?
- Não! Eu não estou interessado em outras. Há apenas uma na minha mira!
- Sério? Ela deve ser uma sortuda. Eu a conheço? - Perguntei. Michelle disse muitas vezes que ele era apaixonado por mim, mas eu tinha dúvidas.
- Sim. - Ele desviou o olhar. - Quer dançar?
- Não. Estou muito cansada para dançar. Lamento.
- Tudo bem. - Ele se afastou.
Celina surgiu com o buquê sorrindo. - Meninas façam uma roda! Vou jogar o buquê!
As mulheres correram até ela malucas todas querendo agarrar o buquê. Eu fiquei no meu lugar. Talvez fosse a única. Santiago se juntou a mim com um sorriso irónico.
- Você não quer pegar o buquê?
- Não!
-... um... dois... - Celina contava. -...três! - Ela se preparou para jogar e as mulheres gritavam. Quando ela jogou, caiu nos meus braços. Santiago riu maliciosamente.
- Uau! Isso é tão estranho! - Ele disse e se afastou.
Fiquei encarando o buquê nas minhas mãos e não sabia o que pensar, nem o que fazer. Suspirei e olhei para Santiago que por algum motivo olhava para mim. De uma forma estranha