A manhã de sábado chegou rapidamente, e com ela o toque incessante do telefone.
- Alô – disse com uma voz sonolenta.
- Ainda está na cama?! – Kori berrava do outro lado da linha.
- Sim. E é aqui que vou ficar!
Sem mais delongas desliguei o telefone. Peguei o celular e vi que já passava das 10h00min horas da manhã. Caixa postal estava cheia, havia quase oito mensagens de texto, e todas da Kori. Infelizmente ela não estava muito preocupada em ter faltado á academia, mas sim por não ter apresentado um velho amigo, que corria sempre no parque no mesmo dia e horário que nós. O conhecia da escola e o tinha reencontrado há alguns meses Hell’s. Kori quando soube que eu conhecia um homem que fosse bonito e aparentemente solteiro, ela não pensou duas vezes em rastejar aos meus pés, para que eu os apresentasse. Tínhamos marcado para este sábado fatídico, do qual eu apenas queria seu agradável silêncio e calmaria.
Felizmente, Kori desistiu e não apareceu na minha casa. Pude aproveitar para simplesmente descansar e tentar esquecer ao máximo o que tinha ocorrido na noite passada.
Com a mesma rapidez com que o sábado chegou, ele foi embora; dando brecha para um ensolarado domingo da linda Manhattan.
Morava naquele bairro e na mesma casa, havia sete anos e nãotinha a menor vontade de sair dali.
Morava num bairro bem central; meu trabalho ficava á apenas cinco quadras dali; e tinha um emprego ótimo, onde recebia muito bem. Conheci o The New York Times, pelos jornais; sempre amei leitura e jornais sempre foram os meus preferidos. Quando completei 19 anos, sai da casa da minha tia, que me criara desde os cinco anos. Estava a procura de algo para fazer, um emprego ou estágio, qualquer coisa serviria. Passava sempre pelo mesmo caminho, quando um determinado dia, decidi passar na minha livraria preferida, que viera á fechar dois anos mais tarde. Estava com um exemplar de O Pequeno Príncipe quando levanto os olhos e dou de cara com uma plaquinha branca, com letras pretas bem marcadas “Precisa-se de ajudante de escritório – The New York Times”; naquele mesmo dia fui contratada e a partir de então, só aprimorei meus conhecimentos. Mark vendo que sempre tivesse jeito para o negocio, resolveu me dar uma chance, me fez secretaria particular dele; ele me ensinou tudo o que eu precisava saber, para conseguir a vaga que muitos se matariam para conseguir; relações públicas e internacionais. Ganhava mais do que bem, sempre tinha dinheiro o suficiente para manter a casa; que já era própria e pequenos luxos, mas como passava maior parte do tempo fora e não tinha muitos gastos, então tinha uma conta bem gorda, que daria para passar cincos anos despreocupada sem trabalhar.
Todas essas lembranças me fizeram pensar o quanto Mark havia sido generoso em me dar uma oportunidade, mas também me fez refletir, se tudo o que ele fez, não era um principio do acontecimento da noite de sexta. Será que ele fez tudo isso por mim, para receber algo em troca?! Preferi não pensar.
Fui ate a cozinha, o relógio marcava 13h40min da tarde, e havia duas mensagens. A primeira era de Jerry, pedindo noticias, já que passei o sábado; totalmente desconectada, respondi rapidamente, dizendo que estava tudo bem e que nos encontraríamos amanhã no trabalho.
Já a segunda mensagem, me deixou trêmula, era de Mark. Hesitei por um breve momento antes de ler.
“Gostaria... de vê-la na casa dos Prince’s. Será um jantar e estou sem acompanhante. Até mais tarde.”
Quão i****a aquele homem poderia ser. Não bastava o que ele tinha feito naquela maldita festa, ele tinha que continuar com esse joguinho i****a.
Decidi ir pra cama, antes mesmo do sol desaparecer. Felizmente não recebi mais nenhuma mensagem; logo adormeci.
Chegando ao escritório, pontualmente ás 08h15min da manhã, fui recebida por uma protuberância de indagações.
- O que houve na festa de sexta?! – exclamou Kori m*l deixando chegar á minha mesa.
- Do que esta falando? – tentei parecer neutra.
- Mark está louco atrás de você, e ouvi uns comentários bem estranhos sobre vocês dois...
Kori se calou ao uma porta bater atrás de si. Mark vinha em passos largos em nossa direção.
- Na minha sala, já! – referiu-se á mim e deu as costas.
- O que aconteceu? – perguntou Jerry, pegando no meu braço quando passei por sua mesa. Respondi com a cabeça que nada; dei-lhe um sorriso forçado e fui para sala dele.
Ele estava em pé, de frente para sua enorme janela de vidro; observando o trânsito caótico da manhã.
- Por que não foi ao jantar? – indagou ainda de costas para mim.
- Não estava me sentindo muito bem…
- Mentira – disse ele.
Permaneci calada diante de seu comentário.
- Diga a verdade. Por que não foi ao jantar?! – estava de frente para mim, sua expressão era de pura raiva – onde esteve a noite passada?!
- Não lhe devo satisfações da minha vida pessoal!
- Deve sim. Eu que lhe dei esse status de garota sucedida que você tem hoje.
- Tudo que tenho, consegui por merecimento, por meu esforço.
- Vai negar na minha cara, que eu a ajudei?!
- Não foi o que quis dizer. Você me deu a oportunidade e eu a aproveitei dei o melhor de mim durante todos esses anos.
- Não. Você não deu o melhor de si – ele falava com um sorriso enorme nos lábios, um sorriso cafajeste e nojento – ainda não.
- Não ouse repetir o que fez naquela maldita festa! – ameacei.
- O que você vai fazer?! – retrucou aproximando-se de mim, não temi, as paredes da sala eram de vidro, caso ele tentasse algo, todos veriam – Savana... Você depende de mim para bancar essa vida que leva o mínimo que podia fazer, era me recompensar um pouquinho.
Estava com os nervos a flor da pele. Sentia nojo. A ânsia de vomito era forte.
- Não ouse encostar, em mim – disse trêmula.
Sem se importar com o que os outros pensariam, ele puxou-me contra si e beijou minha boca. Desvencilhei-me dele, e dei-lhe uma t**a na cara.
- Sua v*******a – disse com ódio – está demitida!
- Não! Eu me demito! Faço questão de dizer isso. Agora sei o real motivo por insistir tanto para que eu fizesse horas extras; eu queria não acreditar que isso era verdade, mas agora... Vejo que estava certa.
Sai de sua sala com todos boquiabertos. Jerry me seguiu ate o elevador e desceu comigo.
- Vai ficar tudo bem – disse ele abraçando-me.
Saímos do prédio e fomos tomar um café, no quarteirão de trás.
Contei o que tinha acontecido na sexta, sobre a mensagem e sobre as invertidas dele nos últimos meses.
- O que você vai fazer agora? – indagou.
- Não sei...
Fitei as pessoas andando e me perdi nos meus pensamentos; quando fui acordada pelo celular tocando.
Era um numero diferente.
- Alô – disse.
- Alô – respondeu a voz masculina do outro lado da linha – é a senhorita Gurney? Savana Gurney?
- Sim, é ela. Quem fala?
- Aqui e o delegado de Roseburg.
- Oregon?
- Isso mesmo. Senhorita, é que... Aconteceu uma coisa á duas noites atrás. Seu pai, Clarck Gurney, foi encontrado morto.
- O que?! – retruquei incrédula – como foi isso?
- Não podemos dar muitas informações por telefone. Por isso gostaria de saber, se a senhorita poderia vir até aqui, para ajeitar tudo. Precisa assinar alguns papeis, e como é o único parente dele viva...
Fitei Jerry por um breve momento, que me olhava aflito.
- Tudo bem. Irei até ai sim.
- Ótimo. Quando chegar, procure por mim, Filiph Queent.
Desligando o telefone, parei por um momento.
Não podia acreditar que a única pessoa que me restava de parente, acabara de morrer.
- Vai para o Oregon?! – indagou Jerry.
- Sim – respondi sem forças.
- Mas o que houve?
- Meu pai... Morreu.
Não precisei dizer mais nada, Jerry apenas me tomou em seus braços e fez o que eu realmente precisava; deu um longo e apertado abraçado.
Jerry não voltou para o escritório, temia que Mark o demitisse, mas ele não se importou. Na hora do almoço, Kori foi nos encontrar em minha casa.
- Amiga – disse abraçando-me – sinto muito.
Tentava conter as lagrimas, mas era impossível.
Por mais que estivesse longe de meu pai, criamos um vinculo muito forte após a morte de mamãe. Ligava todo final de semana para ele. Lembrando-me disso, percebi que não havia ligado nesse ultimo final de semana, e que no mesmo dia da festa, no dia que eu sentira algo estranho, ele morreu; pelo menos era o que parecia.
- Quando você vai? – perguntou Jerry sentado á minha frente, fitando-me apreensivo.
- Ás 22h00min. Quero chegar o mais rápido possível.
- Irei com você – disse ele.
- De forma alguma – retruquei – irei sozinha.
Jerry apenas ouviu e não insistiu.
Nas horas seguintes, Kori me ajudou a arrumar as malas. Ela ate tentou me animar um pouco, falando sobre o que eu deveria levar. Indicou alguns casacos, afirmando que nessa época, o Oregon era muito frio, não só em Portland, mas em todos os estados.
Ao termino da hora do almoço, Kori se despediu, insisti para que Jerry fosse com ela, mas ele se recusou. Kori disse que iria me deixar no aeroporto, e que eu nem pensasse em ir sem falar com ela.
Após a saída de Kori, passei a arrumar alguns documentos.
Jerry apenas observava meus movimentos.
- O que foi? – perguntei parando o que estava fazendo.
- Quero ir com você.
Puxei uma cadeira e sentei á sua frente. Ele havia tirado o terno e gravata, e enrolou as mangas das blusas até os cotovelos.
- Seu lugar é aqui.
- Meu lugar, é aonde você for – respondeu relutante.
- Jerry, por favor; facilite as coisas pra mim...
- Não posso simplesmente deixar que vá sozinha lá, sem apoio.
- Ficarei bem – disse dando-lhe um tapinha no braço e levantando.
Ele puxou minha mão, fazendo cair levemente com o rosto perto do seu.
- Deixe-me ir com você. Por favor!
Seus olhos suplicavam, mas eu não podia ceder. Sabia o que ele queria comigo, e um relacionamento era a ultima coisa que queria no momento.
- Não. – respondi duramente.
- Por quê?
- Porque não quero.
- Sabe que posso fazê-la...
- Jerry; pare, ou vá embora.
Ele soltou minha mão e permaneceu calado o resto da tarde.
Quando deu exatamente 20h00min, fui tomar banho.
Terminado o banho e quando estava pronta, fui ate a sala, mas Jerry não estava lá.
Ia dá 21h20min da noite e nada da Kori aparecer. Decidi pegar um taxi e ir sem eles.
Cheguei ao aeroporto, faltando 15 minutos para o voou sair.
Fiz o chequin no guichê e acomodei-me em um dos bancos duros e desconfortáveis do aeroporto.
Quando anunciaram que o voou partiria em breve, ajeitei minha bagagem de mãe e me dirigi ao portão de embarque.
- Savana – ouvi gritos ecoando pelo aeroporto – eu disse pra você me esperar.
Kori estava eufórica. Jerry vinha logo atrás dela do mesmo modo. Sai por um instante da fila, para falar com eles.
- Fui tomar banho e quando saí não vi Jerry... E vocês demoraram pra chegar, fiquei com medo de perder o voou e decidi vir.
- Culpa dessa aqui – disse Jerry – me mandou uma mensagem, pedindo para ir buscá-la mais cedo, porque Mark tinha cancelado a reunião das 18h00min. Mas, quando cheguei lá, estavam em reunião; tive de esperar a reunião acabar.
Olhei para os dois, ainda cansados por conta da correria.
- Vou sentir muitas saudades de vocês – disse abraçando Kori e depois Jerry.
- Quando volta? – indagou Jerry.
- Não sei. Com o pedido da demissão, talvez fosse melhor passar um bom tempo longe. Com toda essa historia de demissão e toda essa confusão, não estou com cabeça pra nada.
O comentário deixou Jerry triste e apreensível.
- Ei, não façam essas cara. Prometo que ligarei toda semana.
Fui interrompida pela ultima chamada de embarque.
- Tenho que ir. Se cuidem e juízo viu dona Kori. Cuide dela Jerry.
Kori riu, enquanto Jerry assentiu decepcionado.
Voltei para a fila, mostrei meu passaporte e sumi da vista dos dois, entrando no túnel de acesso para o avião.
Por sorte peguei uma poltrona na janela e ninguém ocupara o lugar ao meu lado. Prevendo o silêncio que seria, já que não tinha crianças no voou e havia poucos passageiros, pensei comigo mesma – 6 horas de puro silencio e sossego.
Logo o avião decolou. Sentia que deixava dois pequenos pedaços de mim naquela terra. Jerry e Kori eram mais que amigos, tinham feito coisas por mim que ninguém jamais fizera, eu os amava.
Após a estabilização do avião no ar, peguei meu Ipod. Dentre as opções da playlist, escolhi Wild Horses dos The Sundays, ela sempre conseguia me acalmar.
Observando aquele céu escuro, e aos poucos a linda; e cobiçada Nova York foi desaparecendo de minha vista.
Ajustei melhor à poltrona, aumentei um pouco mais o volume e deixei-me fluir pela sonoridade musical calma e fleuma. Acabei adormecendo.