ISADORA NOGUEIRA NARRANDO:
— Alô?
Minha voz saiu pastosa, grogue. A cabeça latejava e tudo parecia meio distante, como se eu ainda estivesse flutuando no sono pesado do calmante. Pisquei algumas vezes tentando entender se era sonho ou realidade.
— COMO ASSIM VOCÊ NÃO VAI TRABALHAR AMANHÃ DE MANHÃ?! — o grito do outro lado do telefone me arrancou de vez da confusão mental.
Reconheci a voz na hora. Kristen. Minha chefe.
— Kristen… eu…
— Não! Não me venha com explicações agora! — ela cortou, exaltada.
— Você acha que pode simplesmente mandar uma mensagem no meio da noite dizendo que não vai trabalhar? A loja precisa de você! Você é gerente, Isadora! Isso aqui não é brincadeira!
Sentei na cama, sentindo a tontura pesar. Pressionei os dedos nas têmporas.
— Eu entendo, mas é minha mãe, Kristen. Ela tá doente, eu preciso acompanhá-la ao oncologista hoje de manhã. Ela recebeu um diagnóstico difícil, eu…
— E eu com isso?! — ela gritou novamente.
— Eu não tenho nada a ver com os problemas pessoais dos meus funcionários. Cada um tem que saber separar as coisas! A loja não pode parar por causa da sua vida particular!
Fiquei em silêncio por um segundo. A vontade de gritar era enorme, mas eu me forcei a respirar.
— Ela é minha mãe. E eu vou com ela, Kristen. Não tem outro jeito. Não vou mandar outra pessoa em meu lugar.
— Manda uma tia, uma prima, sei lá! Você é gerente da nossa unidade principal, tem noção da responsabilidade que isso implica? Eu preciso de você lá cedo, como sempre!
— Eu não vou mandar ninguém — disse firme. — Eu vou. Pessoalmente. Porque é a minha mãe, e ela está doente. Eu vou acompanhá-la no médico. Isso não é negociável.
Houve um silêncio pesado do outro lado, seguido por um tom ainda mais frio.
— Acho que você não entendeu, Isadora.
Eu travei o maxilar. Estava com raiva agora.
— Quem não entendeu foi você, Kristen. Amanhã eu vou com a minha mãe ao médico. Ponto. Isso não é uma discussão, está decidido.
Mais alguns segundos de silêncio. E então:
— Se você não for à loja de manhã, estará no olho da rua. Boa sorte com sua mãe.
— Tu-tu-tu.
O som do desligar seco me fez tremer. Fiquei encarando a tela escura do celular por alguns segundos, sentindo o coração disparar. Ela não tinha falado aquilo. Não podia ter falado. Mas tinha. E agora?
Levantei num impulso. Ainda era cedo, mas não conseguiria mais dormir. Fui direto para o chuveiro e deixei a água gelada cair sobre mim, tentando me acordar de verdade. O cansaço no corpo era tanto que parecia que eu tinha apanhado. Vesti uma roupa confortável, jeans, camiseta branca, cabelo preso. Fui até a cozinha e preparei um café forte. Preciso estar inteira. Por ela.
Peguei as chaves, respirei fundo e fui para a garagem. O trajeto até o consultório médico parecia durar uma eternidade. Cada semáforo vermelho, cada pedestre atravessando calmamente, tudo parecia me irritar. Eu só queria chegar logo. Ver a minha mãe. Estar com ela.
Quando estacionei, ela já estava na porta do centro médico. Sozinha. Frágil. Pequena.
Desci do carro e fui direto até ela. Meus braços se fecharam ao redor do seu corpo e, por alguns segundos, nenhuma de nós disse nada.
— Vai ficar tudo bem, mãe — sussurrei, segurando forte.
Ela assentiu, mas os olhos dela estavam cheios. E pela primeira vez, eu vi minha mãe com medo. Um medo real.
Subimos juntas até o andar do oncologista. Sentamos lado a lado, e eu fiquei segurando sua mão, sentindo o frio dos seus dedos nos meus. O ambiente branco, os quadros aleatórios nas paredes, as pessoas ao redor, nada parecia real.
— Amélia Nogueira? — chamou a secretária.
Entramos.
O médico era um homem calmo, de rosto simpático, cabelos grisalhos. Nos cumprimentou com gentileza e pediu que sentássemos.
— Vamos direto ao ponto, dona Amélia. Eu revisei todos os seus exames, inclusive o ecocardiograma e a ressonância. Infelizmente, o doutor Hélio estava certo. A senhora tem um sarcoma cardíaco de alto grau.
— O que exatamente isso significa? — perguntei, antes que minha mãe conseguisse dizer qualquer coisa.
— É um tipo de câncer raro, agressivo. Já está em estágio avançado. Não é operável, mas vamos iniciar um protocolo de tratamento paliativo. Isso quer dizer que não buscamos cura, mas sim qualidade de vida.
Aquelas palavras ficaram pairando no ar. Não buscamos cura. Tudo dentro de mim congelou.
— Quanto tempo… — minha mãe tentou perguntar, mas a voz falhou.
— Não podemos determinar isso com precisão. Depende de como o corpo responde ao tratamento. Alguns pacientes vivem meses, outros mais de um ano. Mas o importante agora é manter o bem-estar, aliviar os sintomas, e dar suporte psicológico e emocional.
Olhei para minha mãe. Ela parecia tão pequena naquela cadeira.
— A gente vai fazer isso juntas, tá? — falei, apertando sua mão.
— Eu tô com você.
Ela assentiu, os olhos marejados. Levantamos e nos despedimos do médico, marcando a primeira sessão para dali a dois dias.
Saímos em silêncio. No carro, minha mãe chorou baixinho. E eu chorei com ela.
Na porta da casa dela, antes de ir embora, segurei seus ombros.
— Qualquer coisa, qualquer coisa mesmo, me liga. A qualquer hora. Tá me ouvindo?
— Tô sim, filha. Não quero que você pare a sua vida por mim.
— Eu não tô parando nada. Eu só estou fazendo o que uma filha que ama a sua mãe tem que fazer. E isso é o que mais importa agora.
— Tá bom — ela sussurrou, me abraçando com força.
— Me avisa assim que marcar os próximos exames. Eu estarei em cada um deles. Sem falta.
— Promete?
— Prometo.
Voltei para o carro com o coração em pedaços. Mas eu precisava ir até a loja. Precisava encarar Kristen. Se ela achava que podia me ameaçar, que podia me demitir por cuidar da minha mãe, ela não me conhecia.
Cheguei no estacionamento da loja e encarei minha imagem no retrovisor. Olhos inchados, olheiras profundas, um cansaço que ia além do físico. Respirei fundo, saí do carro e entrei.
Assim que passei pela porta, vi Kristen. Parada no meio da loja. De braços cruzados, no centro do salão, como se fosse a dona do universo. O salto alto ecoava no piso brilhante.
Assim que me viu, seus olhos faiscaram.
— O que você pensa que está fazendo aqui?