Helena passou o dia inteiro tentando convencer a si mesma de que estava exagerando.
Que homens estranhos não surgiam do nada, sabiam seu nome, seus horários, seus medos. Que bilhetes anônimos não apareciam sobre mesas no trabalho sem explicação. Que aquela sensação constante de estar sendo observada não era real.
Mas cada vez que seus olhos se desviavam para a porta,
cada vez que seu coração acelerava sem motivo,
ela sabia.
Rafael não tinha ido embora.
— Você está péssima hoje — Clara comentou, sentando-se ao lado dela no intervalo. — Olheiras, silêncio… aconteceu alguma coisa?
Helena forçou um sorriso.
— Só noites m*l dormidas.
— Por causa do trabalho?
Ela hesitou.
— Por causa de… pensamentos.
Clara arqueou a sobrancelha.
— Pensamentos não deixam alguém assim. Pessoas deixam.
Helena engoliu em seco.
— Não começa.
— Eu só estou dizendo — Clara baixou a voz — você anda diferente desde ontem.
Helena não respondeu. Porque qualquer resposta seria perigosa demais.
Quando o expediente terminou, ela respirou fundo antes de sair. O céu estava escuro outra vez, como se o dia tivesse sido apenas um intervalo entre duas noites.
Ela caminhou rápido.
— Você devia desacelerar.
A voz veio de trás.
O mundo parou.
Helena virou-se devagar, o coração batendo tão forte que chegava a doer.
Rafael estava ali. Encostado no mesmo poste da noite anterior. Como se nunca tivesse saído.
— Você me segue? — ela perguntou, a voz trêmula de raiva.
Ele se aproximou um passo.
— Eu cuido.
— Isso não é cuidado. É perseguição.
Rafael sorriu de leve, mas não havia humor algum ali.
— Você confunde as coisas porque ainda não entende.
— Entender o quê?
— Que nem todo perigo vem para machucar.
Ela riu, nervosa.
— Essa é a frase mais absurda que eu já ouvi.
— Mesmo assim, você continua aqui — ele observou. — Não gritou. Não correu. Não chamou ninguém.
— Porque estou tentando agir como uma pessoa racional.
— Não — Rafael disse, a voz baixa, quase íntima. — Porque uma parte sua quer respostas.
Helena sentiu um arrepio percorrer a espinha.
— O que você quer de mim?
Ele a encarou longamente. Demorou a responder.
— No começo… entender você.
— E agora?
— Agora… — ele deu mais um passo, diminuindo o espaço entre eles — eu quero que você pare de mentir para si mesma.
— Eu não estou mentindo.
— Está sim — ele murmurou. — Você sente algo quando me vê. Medo, curiosidade, raiva… tudo misturado. É por isso que seus olhos não desviam.
Ela respirou fundo, tentando manter o controle.
— Você não tem o direito de analisar minhas emoções.
— Tenho quando elas gritam — ele respondeu. — E as suas gritam alto.
Helena cerrou os punhos.
— Me diz quem você é de verdade.
Rafael hesitou pela primeira vez.
O silêncio entre eles mudou.
— Eu sou alguém que aprendeu cedo demais que pessoas quebradas se reconhecem — ele disse. — E você… é muito mais quebrada do que imagina.
— Você não sabe nada sobre mim.
— Sei que você evita olhar para espelhos por muito tempo — ele disse calmamente. — Sei que odeia domingos à noite. Sei que acorda assustada quando alguém levanta a voz perto de você.
Helena empalideceu.
— Para.
— Sei que você se culpa por coisas que nunca foram sua culpa — ele continuou. — E sei que ninguém nunca ficou quando você mais precisou.
— Para! — ela gritou.
Algumas pessoas olharam.
Rafael deu um passo para trás.
— Viu? — ele disse, baixo. — Eu não preciso tocar para te desestabilizar.
Helena sentiu os olhos arderem.
— Por que está fazendo isso comigo?
Ele a encarou como se a resposta fosse óbvia.
— Porque eu sei exatamente como é viver com monstros invisíveis — disse. — E porque o meu… nunca foi invisível.
Ela engoliu em seco.
— Que monstro?
Rafael sorriu. Mas dessa vez, havia algo quebrado ali.
— O tipo que nasce dentro da gente.
Ele se afastou, caminhando lentamente para a escuridão.
— Fique longe de mim — Helena disse, a voz fraca.
Ele parou, sem virar.
— Você vai dizer isso mais vezes — respondeu. — E mesmo assim… vai pensar em mim todas as noites.
E então ele desapareceu.
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Helena chegou em casa tremendo.
Trancou a porta. Conferiu as janelas. Sentou no chão com as costas na parede.
— Isso não é real… — sussurrou.
Mas quando pegou o celular, havia uma nova mensagem.
Rafael: “Eu avisei. Agora você já sente.”
Ela fechou os olhos.
Do outro lado da cidade, Rafael observava a chuva pela janela de um apartamento escuro. Fotos antigas espalhadas sobre a mesa. Um passado que ele jamais permitiria que Helena conhecesse — ainda.
Ele tocou a tatuagem no pescoço, os dedos tremendo levemente.
— Eu vou te destruir… — murmurou.
— Ou vou te salvar. Ainda não decidi.
E isso o assustava mais do que qualquer coisa.