John olhava disfarçadamente para Megan sentada ao seu lado dentro da Mercedes luxuosa - se estava nervosa, não deixava transparecer. Sentada ali com toda a elegância, os cabelos loiros presos em um coque frouxo, o perfil nobre e ao mesmo tempo muito atraente, iluminado pelas luzes da cidade que entravam pela janela do carro, o colar de pérolas que dava voltas e mais voltas pelo corpo esguio - deve ter custado uma fortuna - refletia John.
Mas não tinha problema. Tudo que era de Megan sempre voltava pras mãos dele, e ele se certificava pessoalmente disso. Olhava para as mãos da moça, com apenas um anel, muito discreto, também de pérolas, a pulseira, e o seu cheiro suave de lavanda - Megan detestava perfumes fortes.
Ela se parecia tão pouco com a mãe, pensava John, mas era tola e inconsequente igual a mãe, e também iria pagar, como a mãe, mas neste caso John teria o prazer de cuidar de tudo ele mesmo, não seria o destino que cuidaria de Megan, como cuidou de Ashley.
Ele puxaria as cordas no instante certo e veria Megan se despedaçar diante de seus olhos, seria uma recompensa muito merecida depois de todo o sofrimento que ele carregou em sua alma durante todos esses anos. Mas ainda não era o momento.
Ninguém no mundo jamais poderia prever que Megan se tornaria a supermodelo que se tornou, que alcançaria a fama que alcançou, que ganharia o dinheiro que ganhou - e somente isso tornava sua presença suportável aos olhos de John Roth.
Não deixava de ser irônico que a filha iria ficar noiva de um músico, afinal, como a mãe tinha se perdido com um músico, vinte anos antes - a história se repetindo mais uma vez, pensava John com amargura.
Mas então, tudo ia ser diferente porque ele estava no comando agora. Ele mandava, e Megan obedecia. Nada acontecia na vida de Megan sem ele saber. Por mais que tia Rachel a defendesse e a estimasse, isso não atrapalharia seu plano. Aliás, Megan só estava ali viva e ao lado dele sentada naquela Mercedes caríssima hoje por culpa dela, Rachel.
Rachel tinha visto, antes de todo mundo, o potencial de Megan para ser modelo, e graças aos seus contatos do tempo em que era governanta dos filhos da rainha, abriu muitas portas. John que de bobo não tinha absolutamente nada, percebeu logo a oportunidade de ouro que se abria diante dele e tomou a chance para si.
Fez-se empresário e agente de Megan, alugou um ou dois ternos para se apresentar como um homem de negócios, e saiu com o book da menina pelas agências. Farejou as melhores oportunidades e assim ambos foram subindo cada vez mais, ele e Megan.
E estavam ali, no final de tudo, ele ao lado da pessoa que mais odiava, a pessoa que era uma recordação viva da humilhação do seu passado, em uma espécie de piada sem graça, refazendo os passos da mãe, indo se encontrar com um roqueiro pra jogar fora, pelo ralo, toda a sua vida que tinha acabado de começar.
Não, pensou John com um sorriso, quem manda aqui agora sou eu, e tudo vai acontecer do jeito que eu quiser; Megan irá sofrer muito sim, mas é pelas minhas mãos. Dessa vez não ficarei parado assistindo a minha desgraça. Farei acontecer. Ela vai pagar. Vai pagar caro, e muito caro.
E foi também por esse motivo, que John não contou a Megan que o noivado era combinado, "deixa a tontinha pensando que a coisa é de verdade". E já antecipava a alegria em ver Megan sofrendo a cada pulada de cerca de Ian, que com certeza iria acontecer, pois John sabia que o rapaz não gostava de deixar a cama esfriar. Melhor ainda: iria vê-la se desesperar com o noivo rejeitando-a, não querendo sequer tocar nela, ignorando-a completamente, sem sequer poder imaginar o motivo dessa rejeição.
Não tinha como ficar melhor do que isso, pensou John. Iria ser maravilhoso. Esfregou as mãos. Olhou pela janela. Estavam quase chegando.
A primeira coisa que Megan viu ao entrar na casa enorme foram os gatos, na verdade eram só dois e não quatro como falava a entrevista que ela tinha lido, mas não tinha problema algum, ela mesma só tinha uma única gata, mas também era só porque John não deixava.
No que dependesse dela, encheria o apartamento de animaizinhos. Talvez Ian tivesse o mesmo problema: Jim Collins, seu empresário, que Megan também já conhecia também através das revistas, provavelmente não deixava que ele tivesse mais. Ah sim, Megan entendia isso perfeitamente.
Por um instante Megan esqueceu de onde estava e se pôs a agradar os bichinhos, no que foi interrompida por uma voz grossa, rude, mas ao mesmo tempo amigável e gentil:
- Então gostou dos gatinhos, dona? Pois fique sabendo que eles são melhores que muita gente, e tem melhor caráter - ela ergueu os olhos surpreendida, mas logo sorriu, ela também já sabia quem era aquele homem; era Bob, o assistente de Ian.
Megan se levantou ainda sorrindo, limpando as mãos no vestido - John arregalou os olhos ao ver a menina enchendo de pelo de gato o vestido caríssimo - e estendeu a mão para Bob:
- Como vai, Mr. Bob? Sou Megan Lily, mas por favor, não me chame de miss Lily, somente de Megan, está bem?
Bob realmente não sabia o que responder; estava acostumado a ser tratado como ninguém pelas mulheres, amigos e pelas visitas de Ian, ele sabia bem o que ele era na casa - um simples empregado - e vem aquela moça, muito mais linda do que nas revistas, tão rica e famosa quanto o patrão dele, e mais do que ninguém teria todo o direito de trata-lo feito um nada - se por um capricho dela, quisesse fazer de Bob um tapete, ele simplesmente iria se deitar no chão e se deixar ser pisado - e essa mulher sabia o seu nome, o tratou por Mr, apertou suas mãos e sorriu pra ele!
Aquilo era demais para a pobre cabecinha oca de Bob, deveria ser muito uísque no cérebro. "É isso", concluiu ele, "estou bebendo demais, de hoje em diante vou parar de beber".
Megan olhava o homem na sua frente um pouco divertida, era sempre assim que eles, os empregados, ficavam, não estavam acostumados a ser tratados com gentileza.
Mas o que ela não sabia é que tinha desarmado o cabeludo enorme e ameaçador de jaqueta de couro parado na sua frente; daquele dia em diante ela tinha conquistado um admirador pelo resto da sua vida, que faria de tudo para defende-la. Ela e o patrãozinho. "Sim", concluiu Bob muito satisfeito, "os dois se merecem de verdade".
- Entre por aqui, Megan, Mr. John, o patrão está esperando por vocês.
Megan olhou em volta, numa parede estavam pendurados os discos de ouro, diamante e platina, eram tantos! Naturalmente deviam ser uma réplica, e os originais guardados na gravadora.
Andou nervosa pela sala. John já tinha se acomodado no enorme sofá de couro e deixava Bob servi-lo de uísque - ela estava tão nervosa que não iria conseguir nem tomar água.
Parou numa estante, onde estava o toca-discos. Tinham ali muitos discos de rock, Megan olhava distraidamente as capas, David Bowie, Ramones, Joy Division, Queen, Rolling Stones, na verdade ela não ligava muito pra isso. Ela era admiradora de uma banda só. E não era nem da música que eles tocavam. Era da voz grave e profunda do vocalista em um sussurro no microfone, como se aqueles lábios estivessem contando um segredo que só ela conhecia, um segredo quente e perturbador que dizia...
- Também gosta de Rolling Stones, miss Lily?
O susto foi tão grande que lá se foi o disco no chão, com Mick Jagger e tudo o mais. Megan se pudesse, abriria um buraco no chão e entraria dentro, mas como não podia, só lhe restou gaguejar, como uma adolescente:
- Me... Me desculpe, me desculpe por estar mexendo nas suas coisas, Ian - sentiu os olhos castanhos e frios de John Roth nas suas costas - Mr. Smith.
Ian se abaixou pra pegar o disco no chão.
- Não tem problema, Miss Lily. Fico feliz em saber que temos algo em comum - e sorriu seu melhor sorriso. Mas que d***o, aquele capeta do John Roth não tirava os olhos deles. Jim Collins sentado do lado dele, tinha um ar meio desesperado, com certeza já deveria ter tomado uns três uísques, e telegrafava pra Ian através de olhares suplicantes: "não se esqueça do combinado".
Megan estava se sentindo a pessoa mais feliz da Inglaterra, Ian era tão mais lindo de perto, era tão educado, tão doce, tão amável, ela não poderia sonhar com mais. Ela queria falar com ele, queria conversar um pouco, mas ele a convidou:
- Vamos sentar um pouquinho no sofá, ali com eles? - apontava pra John. Tudo que Megan não queria. Mas também não queria dizer não pra Ian, de forma alguma. Concordou e se sentaram. Bob veio trazer um uísque pra Ian, que se recusou - "Traga só um guaraná, Bob, e veja se miss Lily quer também".
Megan resolveu aceitar com o melhor dos sorrisos, sabendo que em casa iria ouvir um belo sermão de John, "você sabe quanto açúcar tem nessa porcaria? E o gás? Vai ficar cheia de celulite! Justo esse mês que você tem as fotos de praia pra fazer! Bla bla bla..." É. Megan não podia tomar nem um refrigerante em paz. Mas isso ia mudar.
Entrou um homem na sala, Megan reconheceu o uniforme, devia ser o chofer, falou em voz baixa com Bob, que veio falar com Ian:
- Chefe, a limousine está lá embaixo. Na hora que o senhor quiser.
Megan, tentando puxar assunto, perguntou:
- Mas vamos de limousine? E os seus carros? Eu li que você tem um Jaguar e um Porsche.
- Tenho, Miss Lily, esses que a senhorita citou e mais alguns. Gosto muito de carros, mas sinto que hoje é uma ocasião especial, por isso chamei a limousine. Em outra ocasião certamente convidarei a senhorita pra dar uma volta em qualquer um dos carros que escolher. - e calou-se.
Megan estava um pouco confusa. Por que Ian estava tão formal, a tratando por senhorita? Ela já estava chamando ele de "Ian" e "você" e, apesar disso, ele não correspondia ao tratamento. Sempre formal, sempre distante.
Muito gentil e muito educado, sem dúvida, mas Megan se sentia muito desapontada. Não era esse tipo de atitude que ela esperava de um noivo. Mais ainda: de um noivo apaixonado.
Mas tudo bem, a noite estava só começando, ele ainda não a conhecia direito, podia ser só nervosismo, como ela mesma estava super nervosa. Podia ser que ele se soltasse mais com o passar do tempo, aí ia ser tudo tão lindo e tão perfeito. Ela não ia estragar tudo agora. "Deixa o barco correr, Megan Lily", pensou. "Vai dar tudo certo".