ELIANA
Já era bem tarde da noite. A escuridão me cercava enquanto eu continuava pelas ruas de Oakland.
Meus pés estavam sangrando e dormentes, meu corpo inteiro doía. Não havia parada até que eu saísse daqui completamente. Mesmo tendo certeza de que tinha perdido Jaxon, ainda subconscientemente jogava a minha cabeça sobre os ombros. Estava sem fôlego e finalmente parei embaixo de uma árvore sombreada.
Do outro lado estavam as placas de fronteira de Oakland e Tombsdale. Eu não conseguia acreditar o quão longe cheguei a pé. Mas sabia muito bem que não deveria cruzar para aquela cidade. O vento vindo de Tombsdale era frio e assustadoramente silencioso, enviando um arrepio pela minha espinha.
Eu podia ouvir o uivo de lobos famintos à distância, que com certeza m*l podiam esperar para me devorar. Ao contrário dos outros, meu lobo ainda não tinha se manifestado, então eu não tinha chance de ser uma renegada. Virar de costas foi uma ideia que passou pela minha cabeça, mas, infelizmente, continuei em frente.
Preferia morrer nessa floresta fria do que pelas mãos de Jaxon.
No entanto, quando meus pés cruzaram para Tombsdale, percebi uma presença sombria repentinamente me cercar. Eu tinha ouvido muito sobre essa cidade sombria, tantas coisas que as pessoas tinham a dizer, precedendo um aviso para nunca pisar lá. Era governada impiedosamente por um dos Alfas mais cruéis, Denver, que também era inimigo declarado meu pai.
Parei bruscamente, vendo uma sombra se formar bem atrás de mim. Um pânico percorreu todo meu corpo e houve um leve estrondo nos céus. Eu podia sentir que um lobo estava perto, mas isso era diferente de tudo o que já tinha cheirado antes.
Será que era isso?
Será que era o fim da minha vida?
A primeira coisa que notei na escuridão foi um par de olhos prateados brilhando de volta para mim antes que uma criatura enorme saísse de trás das árvores. Meu coração subiu à boca enquanto eu o encarava. Cabelos escuros e longos presos em um coque. Traços afiados e esculpidos como seu maxilar. Músculos duros como pedras e ombros enigmáticos.
O Alfa Denver era tudo o que descreviam e sua imponente presença me enchia de medo e apreensão. — O que você está fazendo aqui, pequena? — Sua voz era profunda e decadente, cortando-me com um olhar intenso, mas eu não ousava falar.
Detrás dele, avançou um exército inteiro de lobos rosnando impacientemente para dilacerar meu corpo. Sem pensar muito, acelerei o passo para longe deles. Talvez isso tenha sido uma ideia horrível.
Ofegante, corri enquanto me forçava pelas folhas. Não me importava que estava ferida, simplesmente continuei correndo com o desejo primal de sobreviver.
Seria essa minha vida agora, sempre correndo de algo?
Joguei-me na direção oposta, mas não estava tão longe, porque ouvi a voz do Alfa retumbando atrás de mim. — Tragam ela para mim! — Ordenou sua guarda de betas. Meu coração batia fortemente no peito enquanto corria em direção ao lugar de segurança mais próximo.
Tudo à minha frente estava escuro, só enxergava quando um raio cortava o céu, mas com o raio vinha a chuva que imediatamente começava a encharcar todo o meu corpo. Não parei de correr até ser forçada a isso. Uma ramificação se prendeu nas minhas pernas e caí com um baque no chão.
Quando olhei para cima, vi-o por um instante antes do meu mundo ficar escuro.
Na próxima vez que abri os olhos, estava em algum lugar mais quente, com uma vela que ardia à distância de mim. Saltei do que parecia uma cama, mas não fazia ideia a quem pertencia. Achei que estava sozinha no quarto até ouvir a voz dele novamente.
— Achou que poderia fugir de mim? — As palavras de Denver foram proferidas em um tom ameaçador, enquanto ele se aproximava da luz. Suas mãos estavam amarradas atrás dele e havia um olhar sombrio envolvendo seus lábios. Sua mera presença me preenchia de tanta ansiedade que eu me encolhi no canto.
Segurando meus joelhos junto ao peito, abaixei o olhar. Por mais que tivesse ouvido histórias sobre Tombsdale, tinha ouvido coisas ainda piores sobre o seu Alfa. Um Alfa sanguinário e sedento de guerra, liderando um exército das tropas mais perigosas. Denver matava qualquer um que cruzasse seu caminho sem hesitar por um segundo, mas ele tinha sido relativamente paciente comigo.
— Não vou te machucar. — Ele sussurrou, mas recuei quando seus braços se estenderam. — Eu consigo ler seus pensamentos, você está com medo. Também não tem para onde ir. — Ele disse. Engoli um bolo duro na garganta quando ele tocou meus tornozelos doloridos.
Suas mãos eram rudes, porém, quentes. Eu podia senti-lo dentro do meu peito, um calor irradiando das câmaras do meu coração. Minha pele arrepiou onde ele tocou e houve um arrepio que subiu pela minha espinha.
O que era esse sentimento avassalador cada vez que eu encarava seus olhos?
Era como se meu coração parasse de bater e de repente estivesse em paz. Como se eu confiasse nele ou devesse, mesmo não querendo. Como se ele fosse meu companheiro... não, sacudi a cabeça para afastar esses pensamentos repulsivos. Denver era tão monstruoso quanto podia ser.
Puxei bruscamente as minhas pernas para longe dele e um desdenho profundo escapou de seus lábios.
— Eu poderia ter te machucado agora se quisesse, sabe? — Ele se afastou para a única mesa no quarto inteiro e serviu-se um copo de vinho. Imediatamente, voltei para Jaxon assim que ele deu um gole nele.
— Você está gravemente ferida, por isso desmaiou na floresta. Seu corpo inteiro está cheio de tanto acônito que me pergunto como você ainda está viva. — Denver acrescentou, lançando-me um olhar gélido.
Ah, o acônito que Jaxon vinha me envenenando a cada noite nos últimos sete anos. Às vezes, até penso que esse foi o motivo de minha loba nunca se manifestar.
Ela havia sido subjugada e faminta a vida inteira.
Eu era fraca, inofensiva, e a dor dilacerando meu corpo agora era ainda mais intensa. Ele abandonou a bebida, caminhando de volta para perto de mim. As mãos de Denver percorreram meu cabelo e depois meu rosto.
— O que aconteceu? — Seu olhar me avaliou minuciosamente como se eu não fosse nada mais do que uma folha de papel para ele. — Me deixe ir. — Finalmente consegui dizer quando reuni coragem, mas minha voz foi apenas um sussurro fraco. — Um obrigado seria o suficiente. — Ele debochou.
— Eu não sou tão complacente com intrusos. — Seus olhos escureceram. — Eu sei que você é uma Cão de Caça e sei que é filha de Gerald. Você não pode esconder nada de mim, pode? — Denver rangeu os dentes.
— No entanto, o que eu não sei é o que você estava fazendo na floresta àquela hora da noite, gravemente ferida e prestes a morrer. Eu poderia contar a ele a verdade? Poderia realmente confiar nele?
Talvez Denver pudesse me salvar da ira do meu meio-irmão?
— Fale agora, pequena! — Ele comandou num tom que me deu arrepios e tanto medo que eu não conseguia mentir. Os olhos de Denver eram perturbadores e assombrosos, ele era tão poderoso que ninguém ousava dizer não a ele. Aqueles que ousaram estavam apodrecendo debaixo da terra.
— Eu estava perdida. — Eu queria dizer a ele a verdade, mas por algum motivo, uma mentira escapou. — Não minta para mim! — Denver explodiu de raiva. — Eu sei quando você está falando a verdade, pequena. — Ele avisou, perdendo a paciência.
— Eu fugi! — Eu disse abruptamente. — Eu fugi da minha família, já não pertenço mais a eles! — Acabei por adicionar e os meus olhos brilharam com lágrimas. Suas mãos suavemente passaram sobre minha pele ferida. — Eles fizeram isso com você? — Ele perguntou, e foi a expressão mais emotiva que vi em seu rosto.
Balancei a cabeça levemente.
— Quem? — Como eu poderia dizer a ele que era todo mundo?
— Não importa! Desde que eu não volte lá, estarei segura. — Sussurrei. — Eliana. — Meu nome escapou de seus lábios e todo o meu corpo reverberou. — Você é Eliana, a garota cuja mãe morreu quando nasceu. — Eu sabia que a notícia se espalhava como fogo, mas nunca imaginei que chegaria a Tombsdale.
Nunca esperava que o Alfa realmente soubesse quem eu era.
— Eu não matei minha mãe, juro. — Eu tremer repentinamente de medo, agora que ele sabia quem eu era, meu destino não seria diferente do que eu tinha que suportar nos Cães de Caça. Mas então, o Alfa Denver apoiou a mão em meu ombro. — Eu sei. — Ele murmurou.
Assim que ergui meu olhar para ele, nossos olhares se encontraram.
— Por favor, não me machuque. — Implorei e uma dor latejante se instalou atrás das minhas têmporas. Mas Denver alcançou minhas mãos pequenas, que não eram nem de perto do tamanho das dele. De repente, meu coração começou a bater com força contra minhas costelas e meu estômago começou a se agitar.
Eu podia sentir o vínculo de companheiros, algo inexplicável e opressor que não sabia por quanto mais tempo poderia negar a verdade. Foi o momento que eu soube que Denver era meu companheiro, mostrava que minha loba não estava tão longe, mas, infelizmente, acho que ele mesmo não percebeu isso.
Alguns Alfas poderiam passar a vida inteira procurando uma companheira, apenas para encontrá-la quando não estavam mais procurando. Mas alguém como Denver, era claro que ele não tinha intenção de pertencer a alguém. Seus olhos não tinham nenhum sinal de emoção, mostrando sua incapacidade de amar.
Então, é claro, ele não sabia. Embora tivesse sido gentil comigo naquele momento, eu tinha que lembrar a mim mesma do monstro que ele ainda era. — Eu não vou te machucar. — Ele sussurrou com a voz rouca. — Na verdade, vou te salvar. Você não precisa voltar para sua alcateia, pequena.
— Se você ficar aqui, eu serei capaz de te proteger do m*l. — Meus olhos se arregalaram para ele. Eu já podia ver que tinha um truque. — Mas você vai me dever. — Ele sussurrou. — O que eu possivelmente teria para oferecer ao Alfa? — Perguntei.
— Logo você vai descobrir. — Ele retirou as mãos ao caminhar para fora do quarto. — Apenas se recupere agora, você está em boas mãos. — A porta se fechou atrás de mim e o quarto ficou escuro e vazio, eu estava realmente em boas mãos?