ELIANA
O fluido gelado explodiu pelo meu ventre, amortecendo as áreas que o ultrassom tocou. Eu podia ouvir o barulho ecoar na sala silenciosa. Os meus olhos nunca deixaram o rosto da doutora Giselle.
Eu sabia que seria capaz de dizer, mesmo antes de ela abrir os lábios, se eu estava grávida ou não. Nenhuma quantidade de palavras poderia descrever o quão tenso estava o ambiente. Eu apertei o coração com os dentes, era como se toda a minha existência levasse a este momento.
A verdade final, se eu estava grávida de Denver.
Eu acho que é isso que acontece quando você infelizmente se apaixona por alguém que você sabe que nunca deveria. Denver não poderia ser mais diferente de mim, eu era uma escrava ômega, ele era um Alfa.
Eu também era uma Cão de Caça enquanto ele pertencia à matilha Lua n***a, rivais desde o começo dos tempos. Estávamos condenados desde o começo.
Nunca parecia ser um pensamento para ele que nós pudéssemos ser algo a mais. Quando eu olhava nos seus olhos, era bem claro que ele só me veria como a sua esposa contratada, incapaz de amar. Mas eu tinha a sensação de que tudo ia mudar quando ele descobrisse que eu estava grávida.
Imediatamente, vi nos olhos da médica, um pesado suspiro deixou os meus lábios. Virei-me para encarar a máquina, mas mesmo que eu não conseguisse distinguir uma única parte do feto, eu podia muito bem ouvir o seu batimento cardíaco.
— Parabéns! — exclamou a doutora Giselle e minhas mãos cobriram os meus lábios.
— Oh! — Foi um momento surreal, um que os últimos dois anos levaram até agora. — Estou grávida. — Minha voz tremia enquanto eu sussurrava. — Sim, você está. — Ela passou as mãos pelos meus cabelos, me abraçando e sobre os ombros dela, eu chorei.
Não sabia o quanto eu queria isso até que acontecesse.
— m*l posso esperar para contar para o Denver! Ele vai enlouquecer! — Eu me afastei rapidamente, os olhos brilhando com uma ideia. Eu sabia o quanto ele queria essa criança e era ilusão pensar que isso finalmente poderia mudar tudo. Que eu poderia conquistar o coração frio e impiedoso do Alfa, meu marido.
— Eu preciso ir. — Eu desci da cama, procurando imediatamente pela minha bolsa. Eu não podia esperar mais um segundo para vê-lo. “Eu preciso conversar com você.” Eu enviei uma mensagem, sorrindo como uma i****a. Eu sentia um milhão de coisas ao mesmo tempo, mas, acima de tudo, eu estava verdadeiramente feliz. m*l sabia eu que essa seria a última vez, por um bom tempo, que eu me sentiria assim.
Cheguei na Villa da Matilha e, ao avistar o carro de Denver estacionado na entrada, respirei fundo antes de subir a escada da frente.
O ar estava quente e aquele sorriso não saiu dos meus lábios até que o vi. Denver estava sentado no escuro, como se já estivesse me esperando. — Oh... — exclamei. — Não sabia que você estaria aqui tão rápido. — Bem, tenho algo para te contar, mas só depois de preparar a sua refeição favorita. — Eu estava prestes a tirar o meu casaco, quando Denver se levantou. — Eliana. — Havia algo angustiante na maneira como ele chamou o meu nome, que fez o meu coração desabar até o meu estômago.
Eu me virei para olhá-lo e quase não havia nenhuma emoção nos seus olhos.
— Você já comeu algo? — perguntei suavemente. — Não, uh, sim. — Ele engoliu em seco. — Eu recebi sua mensagem e também tenho algo para te contar. — Denver acrescentou. Minhas sobrancelhas se arquearam imediatamente.
Ele já sabia antes que eu pudesse contar a ele?
Não, não podia ser isso. Havia algo nele que eu não conseguia decifrar. Maldito seja aquele que um dia achou que conhecia o verdadeiro Alfa, mas pelo menos nos últimos dois anos eu fui casada com ele. Conscientemente, eu percebi todas as mudanças de humor dele e o que elas significavam, e eu sabia o suficiente para saber que isso não era algo bom.
— Oh! — Desta vez, minha voz estava baixa e quase inaudível. — O que é?
— É sobre nós. — Denver deu a notícia. — Temo que não consigo mais continuar com isso, não está funcionando, Eliana. — Ele engasgou e parecia que uma faca tinha sido cravada no meu peito. Eu quase caí para trás, mas tive que me segurar. O tempo e tudo mais estava congelado.
— Mas... — Houve um barulho alto que ecoou nos meus ouvidos tanto que m*l pude me ouvir. — Já se passaram dois anos e quase acabou o contrato, ainda assim você não conseguiu me dar um filho... — Mas... — ecoei.
Nenhuma palavra saiu.
Apenas lágrimas incessantes dos meus olhos enquanto eu o assistia jogar um monte de papéis na mesa. Eu me aproximei para ter certeza de que tudo aquilo era real, que estava realmente acontecendo. Justo quando eu estava prestes a contar a ele a boa notícia, Denver já havia assinado o seu nome para encerrar esse casamento.
Olhei para ele em descrença, mas seus olhos estavam vazios. Eu não conseguia acreditar que eu me tornei vítima de Malik Denver. Que tola de pensar que eu realmente poderia mudá-lo. Que tola de me apaixonar por ele, afinal.
— Acabou. — Ele pressionou os lábios um contra o outro. Havia uma dor profunda em meu peito e um trinco na minha voz. — Eu... eu não entendo. — Gaguejei. — O que tem para entender?! Eu quero um maldito divórcio!
— Dois anos, só isso. Esse era todo o plano, eu dei dois anos da minha vida para você e você não me deu nada, Eliana. Você sabe que isso não está funcionando, a verdade é que você já sabe disso há muito tempo. Não adianta mais esperar. Isso tem que acabar agora. — Denver elevou a voz.
— Mas eu te amo. — Escapou dos meus lábios. Eu não sabia como nem por quê, mas eu disse. E acho que alguma parte de mim estava esperando uma grande confissão em seguida, mas, ao invés disso, tudo o que recebi foi um riso rouco. — Você não pode me amar. — O Alfa deu de ombros.
— Isso foi apenas um acordo, deixei isso bem claro desde o começo. — Mas eu amo. — Eu o interrompi e, abruptamente, ele recuou com os nós dos dedos contra os dentes. — Bem, eu não te amo! — Denver gritou. — Eu não te amo, Eliana. Eu nunca amei, isso nunca foi o que eu quis. — Ele disse, e suas palavras ecoaram na minha cabeça.
Eu não te amo, nunca amei.
— Mas você é meu... companheiro. — Eu solucei desesperadamente querendo me segurar nele enquanto chorava. — Então eu te rejeito. — Ele refutou friamente.
— Eu, Alfa Malik Denver, rejeito você, Eliana Jacobs, como minha companheira, encerrando esta união. — Sua voz parecia uma espada atravessando meu peito, cortando meu coração em um milhão de pedaços. Ele olhou para mim com um olhar autoritário e eu sabia que não tinha muita opção.
— Eu, Eliana Jacobs, aceito sua rejeição. — eu sussurrei.
Não havia conserto para um coração que tinha sido tão quebrado como o meu. Este era o homem que me salvou há dois anos, mas Denver em pé na minha frente era diferente. Ou talvez, essas eram suas verdadeiras cores. E pela primeira vez, meus olhos não estavam nublados por ilusões.
Eu caí em lágrimas, mas tudo o que importava para ele era assinar os papéis. Ele bateu na folha e uma lágrima minha a molhou. — Você tem até amanhã para assinar. E decida para onde você irá a partir de agora. Eu lhe concederei uma licença, se for isso que você quer.
— Mas além disso, eu não tenho mais nada para te dar, Eliana. — Denver esbarrou nos meus ombros enquanto saía pela porta. Ela se fechou atrás dele, mas, em sua maior parte, suas palavras ainda estavam no ar. Assim como seu perfume e sua presença. Ouvi sua voz ecoar através da porta e quase de repente outra, era uma voz efeminada rindo junto com a dele.
Minha curiosidade foi o que me fez estilhaçar enquanto me aproximava a passos largos da porta. Eu a abri um pouco para espiar e Denver já estava nos braços de outra mulher. Ela tinha cabelos loiros longos e pele branca como leite, sem imperfeições. Suas roupas m*l cobriam as partes certas do corpo, mas as mãos dele o faziam.
Ela era realmente bonita e tinha tudo o que eu não tinha.
— Vamos, subamos. — Sua voz era toda animada enquanto ela envolvia os braços em volta dele. Denver colou os lábios nos dela, a guiando para as escadas, mas antes de sair, ele lançou um último olhar de desprezo para mim. Como se soubesse que eu estava olhando, como se soubesse que eu estava arrasada, mas ele simplesmente não se importava.
Aquele foi o momento de ruptura para mim, e pensar que eu já estava vislumbrando um futuro onde poderíamos ser uma família feliz, ele e eu, e a criança em meu ventre que ele ainda não sabia. E nunca saberia. Denver era uma pessoa horrível e eu só percebi isso hoje.
Eu não queria um pai assim para o meu filho, nem queria que ele ficasse comigo apenas porque eu estava grávida. Estava claro que ele nunca sentiu nada por mim nos últimos dois anos, então era quase um medo genuíno que ele pudesse tentar tirar o bebê de mim.
Ele não merecia a criança, ele não me merecia.
Eu me lancei sobre a mesa, onde estavam os papéis do divórcio, e com as mãos trêmulas, peguei a caneta, assinando ao lado dele. Lutei para segurar as lágrimas nos meus olhos, mas falhei miseravelmente. Eu não podia acreditar que isso era o fim. Eu não queria nada mais do que ir embora.
Aqui não era meu lugar, nunca tinha sido nos últimos dois anos. Mesmo enquanto vasculhava meu guarda-roupa, percebi que nenhuma das coisas realmente me pertencia. Eu poderia atear fogo a todo esse lugar de raiva, mas, ao invés disso, escolhi ir embora, deixando o anel dele na mesa.
Eu estava completamente derrotada e desanimada enquanto saía por aquelas portas, tudo o que eu sabia era que nunca mais queria ver Denver novamente. Eu queria um novo começo, em um lugar fora de Oakland ou Tombsdale, um lugar bem longe daqui.
Eu tinha entrado com os sorrisos mais brilhantes, mas aqui estava eu, saindo com um rio de lágrimas. O vento soprou em meus cabelos enquanto dei um passo corajoso para a frente. A intenção era deixar tudo para trás, um novo começo.
Uma nova vida, apenas eu. Minhas mãos caíram para cruzar meu abdômen quase mostrando, e meu filho.
Aquele foi o dia em que eu deixei verdadeiramente o meu passado terrível para trás, indo em direção a um futuro ainda mais incerto, mas se havia uma coisa que eu sabia, era que ninguém jamais poderia descobrir sobre o bebê secreto do Alfa. Ninguém.