O verão da minha vida!

1206 Palavras
Quando eu cheguei à casa da minha avó, um sentimento de nostalgia e melancolia tomou, instantaneamente conta do meu corpo. Mas antes que eu pudesse derramar alguma lagrima, ou manifestar algum sinal de tristeza, meus tios me introduziram ao resto do pessoal que eu não conhecia. A única coisa que pedi depois de bem apresentada e instalada, foi que me deixassem ver a vovó e falar com ela. — Oi vó, — Sentei-me perto dela na beira da cama, apesar de abatida ela mantinha o olhar confiante em algo que sinceramente, eu não conseguia enxergar. — Sou eu, a Mari. — Decidi recordar-lhe a memória. — Mariana? — Quando ela fixou seus olhos no meu rosto sua pupila dilatou e eu sorri. — Você faltou aula? — Só hoje, não se preocupa. Ela assentiu com a cabeça. A sua presença transmitia uma paz que só a presença de uma avó transmite. Então deitei minha cabeça em seu peito, respirando fundo enquanto ouvia as pulsações fraquinhas do seu coração. Ela permaneceu quietinha. Eu queria ter palavras que dissesse a ela tudo o que eu estava sentindo e tudo o que eu queria que ela soubesse, e enquanto estava no avião ensaiei o que a diria quando nos víssemos, só que tudo desapareceu a partir do momento em que a vi. — Seu pai amava você, você sabe disso, né?! — A voz trêmula fazia com que as palavras saíssem com dificuldade, me afastei do seu peito e a olhei nos olhos. — Sim, sei disso... Nosso momento foi interrompido por uma enfermeira que entrou no quarto para medicá-la. Lá fora, meu tio viu mais uma oportunidade para me apresentar a algumas pessoas que não estavam lá quando eu cheguei. A casa era bem grande então fazia com que todo mundo se sentisse confortável o bastante para ir e vir. Eu lembro de encontrar a casa cheia quase todos os dias quando passava as férias aqui. Meu tio Carlos puxou um garoto, moreno com marra de cowboy, o deixou na minha frente e sorriu de lado. Ergui as sobrancelhas já sabendo do que se tratava. — Você quem é? — Perguntei, ríspida. — Sou só o vizinho. — Pude perceber que ele já estava acostumado com as peripécias do meu tio. — Não qualquer vizinho — Completou meu tio — Victor nos ajuda muito na oficina e com tudo o que precisamos. É o que a sua tia chama de 'p*u para toda obra'. Dei um sorriso disfarçado. ∞∞ Não sabia bem o que pensar sobre os meus parentes que moram aqui; conversar com eles, vê-los empolgados explicando alguma história - mesmo que o momento seja triste, eles sempre carregavam muito amor dentro deles, a alegria que eu estava acostumada a ver nos olhos do meu pai. Meu tio principalmente, mesmo prestes a perder sua própria mãe, servia de apoio para o resto dos familiares. Enquanto eu comia sentada no sofá, já que muita gente da vizinhança resolveu visitar a vovó hoje, Victor se aproximou de mim, e envergonhada cedi espaço. Eu conseguia sentir seus olhos me encarando. Pigarreei, pousei o prato no meu colo, olhei-o e disse: — Então, como conheceu minha avó? — Somos vizinhos, — O garoto moreno e alto lembrou. Foi uma pergunta estúpida, mas acho que já disse que tendo a falar besteira quando nervosa. — Seu tio disse que eu os ajudo, mas para falar a verdade, eles são como família para mim, desde que me mudei sozinho por conta da faculdade. Eu assenti com a cabeça. — Eles são mesmo pessoas maravilhosas. — Concordei. — Bom, acho que é de família. Quando o meu tio disse que ele era 'p*u para toda obra" também incluía a sua imensa cara de p*u? — Desculpa, o que disse? — Ergui a sobrancelha e esperei a resposta, mas foi em vão, ele só sorriu de canto e voltou a comer. — Eu tenho namorado. Ele fingiu engasgo para demonstrar surpresa, e perguntou: — É? — U-hum. — Qual o nome dele? — A pergunta dele me fez viajar alguns quilômetros. Será que eu ainda tinha namorado? — Christian. — Respondi, finalmente. Coincidência ou não, meu telefone começa a vibrar no meu bolso. — Falando no diabo... — Pensei alto demais. "Oi, Chris." "Mari? Cadê você? Fui à sua casa, mas você não estava." "É, minha avó está muito doente. Desculpa não ter ligado, é que faz uns dias que a gente não se vê..." "Não achou nem por um instante que isso era importante que eu soubesse?" Um silêncio se instalou na ligação. Eu não sabia o que mais me chocava: o fato dele falar comigo como se nada tivesse acontecido, ou o fato dele não dar a mínima com o fato da minha avó estar morrendo, d***a! "Você está tentando se vingar de mim, Mariana? Está tentando me fazer sofrer como eu te fiz?" "Nem se eu quisesse, conseguiria. Você perdeu qualquer moral comigo quando me traiu." — Nesse momento, meus olhos já marejavam. Como alguém consegue fingir por tanto tempo ser alguém que não é? Como pode uma mentira perdurar por tanto tempo? Costumava ver o Christian como alguém que eu casaria porque ele sempre foi tudo o que toda garota procura em um homem, mas agora me pergunto quem o iria querer por perto assim. Me levantei do sofá para evitar chorar na frente de uma plateia, entrei no quarto e voltei a falar com o Chris. "Eu juro que falando assim, parece que você quer motivos para terminar comigo." — concluí, deixando as lágrimas caíssem sem que ele percebesse do outro lado da linha. "Eu não sei se quero mais continuar." — A voz dele que costumava ser doce, soou um pouco mais agressiva do que eu jamais havia escutado. "Está terminando comigo?" "Você mudou muito, Mari." — Christian disse isso, e desligou. Continuei imóvel sentada na beira da cama, quando alguém empurrou a porta entreaberta. — Perdeu alguma coisa? — Perguntei quando percebi que foi o Victor. — Só vim checar como você está. Saiu correndo da sala. — Me desculpa, ok? Não estou nos meus melhores dias. Ele fez que sim com a cabeça e se sentou do meu lado na cama. — Problemas com o namorado? — Não tenho mais um. — Suspirei. Quando ele permaneceu calado, eu voltei a dizer: — Não fique aí todo com pena de mim. — Estou com muito mais pena dele. Sorri, sem graça. Desviei meu olhar duas vezes dele, que por sua vez, continuou com ele fixado em mim. — Eu posso beijar você? — Eu juro que teria rido se a pergunta tivesse sido feita em qualquer outra situação, mas alguma coisa no tom da sua voz me fez levar a sério. — Não estou de férias aqui. — Falei, encarando-o dessa vez. — Isso é um sim? — Brincou. — Isso não é um não. E então ele me beijou. De forma técnica, ele beijava muito bem, mas meu coração estava longe demais para sentir alguma coisa. Continuei porque também estava muito machucada para parar. Na manhã que sucedeu, Susana deixou uma mensagem de voz, dizendo: "Estou na casa do Lucas. Ligue quando chegar. Já estou sentindo saudades!". 
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