Capítulo 05

1423 Palavras
--- Capítulo – TH na Boca TH acordava cedo, mas não porque precisava. Quem manda não tem hora, quem manda é respeitado em qualquer instante. Ainda assim, ele curtia levantar antes de todo mundo, abrir a janela e sentir o morro respirando. A Rocinha era dele, cada viela, cada beco, cada barraco. Tudo passava pelo crivo de TH. Naquela manhã, ele desceu pra boca. O movimento já tava frenético. Os “vapor” correndo de um lado pro outro, cliente subindo e descendo com a cara de perdido, e o caixa cheio de nota. O som do funk rolava baixinho, só pra dar clima, porque no meio do expediente não tinha espaço pra distração. Assim que ele apareceu, os moleques pararam. O respeito era imediato. — Salve, TH — disse um dos vapores, meio nervoso, ajeitando o boné. — Salve, cria… segue o bonde. — respondeu ele, firme, voz calma, mas que fazia qualquer um tremer. ND já tava lá, sentado numa cadeira de plástico, fumando e rindo com uns moleques. Braço direito não à toa, ele era os olhos e ouvidos de TH. Se TH era a mente fria, ND era a ação rápida. Os dois se completavam. — Chefe, ontem o bagulho rendeu bonito. — falou ND, mostrando uma sacola de dinheiro. — A boca da laje estourou, o pessoal de lá não tá dando conta sozinho. TH olhou pros moleques, depois pra sacola. Contar dinheiro não era mais a parada dele, mas cada nota representava controle, poder. Ele não sorria, não comemorava. Só acenou com a cabeça. — Bom. Quem trabalha certo, continua. Quem vacilar, tá ligado o que acontece. O clima ficou pesado na hora. Todo mundo sabia o que aquilo significava. Vacilo não tinha perdão. TH nunca precisou gritar. Nunca. A forma dele falar já dizia tudo. Ele andou pelo beco, observando os movimentos, os carros subindo, gente descendo. Reparava em tudo. Nenhum detalhe escapava. O que mantinha ele no topo não era só a frieza, era a visão. Ele pensava três passos à frente, sempre. Um moleque novo, magro, devia ter uns 14 anos, veio correndo entregar um recado. — TH, polícia tá descendo lá pelo outro lado, mas tão devagar, acho que tão só fazendo pressão. TH parou, ficou em silêncio por uns segundos. O moleque tremia. — Fica de olho. Manda dois lá pra vigiar. Se entrar, avisa na hora. — respondeu. O garoto saiu voado. ND riu: — Esses cana tão achando que metem medo ainda… não sabem que aqui é tudo no rádio. TH só olhou de canto, sério: — O erro deles é achar. O nosso é esquecer. Nunca esquece que eles querem derrubar nóis. Essa era a diferença dele pros outros donos que já passaram. TH não se cegava com o poder. Sabia que um vacilo, um cochilo, e tudo ia pro chão. De repente, um usuário apareceu causando, gritando que tava sem dinheiro mas queria fiado. Dois vapores tentaram acalmar, mas o cara tava alterado. TH se aproximou devagar, a mão no bolso, o olhar gelado. — Aqui não tem fiado, maluco. Tá pensando que isso aqui é o quê? O cara gaguejou, recuou, mas ainda quis falar mais alguma coisa. Foi ND que levantou na hora, dedo na cara dele: — Some daqui antes que tu desapareça de vez. O silêncio voltou, e o cliente saiu tropeçando morro abaixo. TH só balançou a cabeça, voltou a andar, como se nada tivesse acontecido. A presença dele bastava pra ninguém testar de novo. Lá no fim da rua, uma criançada jogava bola, rindo alto. TH parou pra olhar. O contraste era estranho: de um lado, a boca fervendo; do outro, moleques só querendo brincar. Ele não se deixou emocionar, não deixava o coração falar mais alto. Mas, lá no fundo, sabia que aquele ciclo não ia acabar nunca. Quem não crescia jogando bola, crescia correndo pros vapores. ND chegou perto, batendo no ombro dele: — Chefe, cê pensa demais. — É por pensar que eu tô aqui até hoje. — respondeu TH, seco. O dia foi seguindo, dinheiro entrando, rádio chiando com informação de tudo que acontecia na favela. TH sabia de cada passo, cada esquina. A boca não era só droga. Era o centro de poder, onde se decidia quem subia, quem caía, quem vivia e quem morria. E ele? Ele era o rei daquele tabuleiro. Um rei frio, calculista, que nunca deixava ninguém chegar perto demais. No morro, amizade de verdade ele só tinha uma: ND. O resto, era só respeito e medo. Quando a noite caiu, os bailes começaram a estourar. A boca continuava rodando, sem parar. E TH, no meio daquele caos organizado, só observava. Porque quem manda de verdade não precisa gritar, nem aparecer muito. Basta estar ali, que todo mundo já sabe: o morro tem dono.. A boca não parava, mas TH não precisava ficar a noite inteira ali. O bonde já sabia como tocar o barco, cada vapor no seu canto, cada segurança na sua função. Ele e ND subiram juntos pro baile. No caminho, o morro já pulsava diferente. O som grave do funk ecoava nos becos, luzes piscando, criançada correndo, mulherada descendo arrumada. O baile da Rocinha não era só festa, era vitrine, era ponto de encontro, era onde se via quem tinha moral de verdade. Assim que TH chegou, o clima mudou. Não precisou abrir caminho, o caminho se abriu sozinho. Todo mundo respeitava. Uns abaixavam a cabeça, outros cumprimentavam com a mão no peito. O olhar dele era firme, nunca de cima pra baixo, mas de igual pra igual — só que pesado, daquele que ninguém sustentava por muito tempo. — Salve, chefe — gritou um cria, entregando um copo de whisky. TH pegou, deu só um gole, deixou o resto na mão de ND. Ele não curtia ficar bêbado, sempre preferia estar sóbrio. Quem manda não pode se perder. O DJ mandava as mais estouradas do momento, e o público vibrava. Molecada de boné, camisa de time, correntes pesadas, rebolando com as minas que desciam até o chão. A fumaça no ar, cheiro de maconha e perfume barato se misturando. ND já tava no meio da resenha, rindo alto, dançando, cumprimentando os moleques. Ele era comunicativo, sempre mais “caloroso” que TH. — Vem, chefe, se solta um pouco! — disse ND, já cercado de duas minas. TH só riu de canto, aquele riso curto que pouca gente via. — Cada um no seu corre, parceiro. Tu anima, eu observo. E era isso que ele fazia: observava. Cada detalhe. Quem se aproximava de quem, quem olhava torto, quem parecia desconfortável. O baile era diversão, mas também era campo de guerra silenciosa. Ali dava pra saber quem tava crescendo, quem tava com inveja, quem tava planejando alguma coisa. As minas passavam, olhavam de lado, algumas encaravam direto, mordendo o lábio. TH sabia do efeito que tinha. A figura do chefe atraía, era poder, era status. Mas ele não deixava ninguém se aproximar demais. Uma morena alta, corpo escultural, chegou perto, dançando colada, tentando chamar a atenção. — Oi, TH… nunca te vejo curtindo. Tá muito sério, chefe. — falou, encostando no braço dele. Ele desviou devagar, sem grosseria, mas deixando claro. — Seriedade mantém a vida. Curte lá. Ela riu sem graça e se afastou. Todo mundo via que TH não era de se envolver. Não dava brecha, não se apaixonava. Pra ele, sentimento era fraqueza, e fraqueza custava caro no morro. Enquanto isso, ND já tava no auge da curtição, levantando o copo, cantando junto as rimas do funk, cercado de respeito. Era o braço direito, e todo mundo sabia. Quem mexia com ND, mexia com TH. No meio do baile, um cria chegou perto: — Chefe, ouvi que uns cara lá do outro lado tão querendo testar o bonde, falaram em expandir a boca deles… TH ficou calado alguns segundos, só olhando a multidão dançando. Depois respondeu: — Então eles vão aprender que aqui não tem espaço pra dois donos. Mas não é hoje que a gente resolve isso. Hoje é baile, amanhã é guerra. O recado foi passado, simples e direto. ND ouviu e completou, batendo no peito: — Deixa com nóis, chefe. Quem tentar subir vai descer de caixão. E o baile continuou. Fogos estouravam no céu, o som aumentava, a favela parecia vibrar junto com o grave. TH, no meio de tudo, permanecia frio, calculista, controlando sem precisar levantar a voz. Porque a Rocinha tinha dono, e o baile inteiro sabia quem era. ---
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