NARRAÇÃO DANIEL
Quando se afasta estou em choque.
- Você gosta de insetos?
- Muito!
- Isso é mentira! Está falando que gosta só pra me deixar mais mole e aceitar seus termos.
- Se quiser posso te mostrar minha coleção. Tenho um enorme quadro para cada espécie de besouro, tenho fascinação por eles.
- Tem fascinação por besouros e me deu esse apelido?
Minha sobrancelha se ergue e tento não sorrir feito um i****a. Melissa revira os olhos e me empurra.
- Vamos descer no próximo.
Passa por mim e anda com agilidade pelo corredor, indo até uma porta para sair. Já eu tento me manter pelo menos reto na caminhada em sua direção. Quando o ônibus para, as portas abrem-se e ela desce. Sigo como se fosse um cão de guarda da sua b***a.
- Agora fiquei curioso! Que tipo de besouro eu seria? Sabe que tem várias espécies.
- Depende!
Olho para Melissa esperando que justifique a resposta.
- Quando sai com sua esposa é da espécie Rola-Bosta.
Minha risada explode e não me importo se estão me olhando. Na verdade a rua toda nos observa e percebo que não é pela minha risada, mas sim por ela, que cumprimenta a todos.
- Chegamos!
Olho para onde aponta e vejo que é uma dessas casas de atividades públicas, abertas a pessoas carentes.
- O que vamos fazer aqui?
- Besourão, abra as asas duras.
- Por que?
- Não sabe o que é isso aqui?
- Acho que sei!
- Isso aqui é um dos projetos que faço parte, sendo voluntária como professora de dança. E graças a sua doação mensal bem generosa, esse local ainda existe.
- Então isso aqui é um dos locais que ajudo com doação?
- Sim!
Olho em volta e vejo que é enorme e bem movimentado.
- Uau!
Digo achando incrível.
- Devia trazer o pessoal de relações públicas aqui e tirar umas fotos, me promover mais.
- Você não quis vir a a******a e nunca se dispôs a conhecer. Como eu havia imaginado, só faz as doações para sua empresa parecer caridosa, doação para aparências.
Diz com um tom de voz irritado e vai andando a passos bravos em direção a entrada.
- Estou doando, mantendo o lugar, não me julgue por me promover com isso.
- Julgo sim!
Para e vira-se e mais uma vez trombamos. Isso acontece muito com a gente.
- A doação não é algo que se faça pensando em reconhecimento. Acho podre da parte de vocês doar com o ego. A doação vem do coração.
Vira rápido e seu cabelo bate em meu rosto.
- Temos visões diferentes.
- Temos corações diferentes, deve ser por isso que meu r**o brilha e suas asas são duras.
Sigo a raivosa e invocada Melissa até uma sala cheia de pequenas menininhas que correm sem rumo, gritando muito e rindo feito hienas.
- Tia Mel!
Uma delas grita e então todas correm em direção a Melissa. Recuo com medo de onde elas vão parar. Parece um ataque de formiguinhas de rosa e isso é engraçado. Todas a abraçam e falam sem parar.
- Tem um homem aqui!
Escuto alguém sussurrar e todas me olham como se eu fosse um intruso no formigueiro.
- É seu namorado?
Melissa começa a rir e me olha.
- Não! Ele é o responsável por tudo isso aqui. O que acham de dar um abração nele para agradecer.
- Não precisa!
Digo rápido, mas minhas pernas não são tão rápidas para fugir. São agarradas pelas meninas pequenas de rosa que sorriem e agradecem. Não sei o que fazer e Melissa está sorrindo, esperando uma reação minha. Bato na cabeça de algumas que reclamam que dói.
- Agora vamos para a aula! Todas se preparem para o aquecimento.
Como se fosse uma ordem dada por um general, as pequenas soldados me soltam e vão para seus lugares e ficam alinhadas. Melissa vai passando o aquecimento, enquanto guarda sua mochila e coloca suas sapatilhas de ballet. Sento em um banco e apenas observo elas fazerem com perfeição o que é pedido. Nem parecem aquelas coisas sem rumo correndo.
- Agora vamos ao ensaio.
- Tia Mel!
Uma garotinha levanta a mão.
- Fala, Diana!
- Lembra que disse uma vez que quando tivesse um homem forte, um amigo, ele nos ajudaria a fazer aquilo?
Todas me olham e sei que algo nada agradável vai acontecer comigo.
- Lembro!
Pelo sorriso perverso de Melissa, vai sobrar merda pra mim.
- Você tem um amigo super forte.
- Daniel!
- Não!
- Ainda nem fiz meu pedido!
- A resposta é não, vaga-lume.
- Vem, besourão!
Bate seus cílios e faz um biquinho.
- Por favor! Eu sei que quer mostrar suas lindas asas frágeis.
- Não quero!
- Quer sim! Meninas me ajudem a pedir.
Todas agora fazem biquinho e batem os cílios como Melissa.
- Não!
- Aceito conversar sobre novos termos.
- Meus termos?
- Nossos termos!
- Não sei!
- Deixo passar o dia comigo hoje, falando das suas coisas e não me irritarei.
- Posso falar tudo que eu quero?
- Sim!
Bufo e levanto.
- Tudo bem, mas não abuse muito.
As coisinhas rosa pulam feito pipoca na panela.
- Ótimo! Agora venha até o meio da sala, mas antes tire os sapatos.
Tiro sem vontade os sapatos, chutando em um canto e vou pro meio da sala.
- Fique aqui!
Me arruma e pisca para as meninas.
- Prontas?
- Sim!
Respondem gritando, fazendo uma fila de frente pra mim.
- O que eu devo fazer?
- Elas vão correr em sua direção, você deve erguê-las com segurança enquanto abrem os braços e depois as desce, sem causar um desastre.
Olho as meninas e conto quantas são. Tem doze no total e duas são gordinhas.
- Coloca aquelas duas na frente.
- Por que?
Viro pra Melissa para elas não nos ouvirem.
- Porque são mais fofinhas e se ficarem no final, tenho medo de não ter forças para erguê-las.
- Certo! Besourão é fraco.
Sussurra e vai até as meninas. Coloca as bolotas na frente e me preparo.
- Quando eu disser vai, vocês correm.
Não tem como não rir da animação delas.
- Corre, Liz!
A primeira gordinha corre e quando pula, seguro-a pela cintura e ergo alto.
- Eu tô voando! Eu sou uma bailarina de verdade!
Assim que a desço ela me abraça e vejo que está com as bochechas coradas e os olhos brilhantes.
- Obrigada!
Me abraça rápido e volta para a fila.
- Agora é você, Tina!
A segunda bolota se prepara e quando tem o sinal de que pode correr, vem com tudo. Essa é mais fortinha e uso mais força para erguê-la, mas sua risada de felicidade é tão contagiante quanto à da primeira bolota.
- Sou uma borboleta!
Grita e quero rir, mas me mantenho firme. Ela está mais para uma lagartinha gorda pronta pra entrar no casulo.
**********
Depois de erguer três vezes todas as meninas e não sentir mais meus braços, desço a ultima coisinha rosa. Não é o cansaço que mais me marca, mas sim o sorriso e a alegrias dessas pequenas bailarinas. Isso foi divertido e estou assustado por achar isso.
- Acabou?
Pergunto relaxando os ombros.
- Não!
Melissa responde e fica me olhando.
- Falta uma!
Sorri pra mim e as meninas ficam empolgadas.
- Vai, tia Mel!
Ela corre em minha direção e quando salta, não tenho mais força para erguê-la e caímos pra trás. Bato as costas com tudo no chão e ela quase esmaga meus órgãos em cima de mim. Nós dois estamos rindo e suas mãos deslizando em meu peito me fazem parar. Nossas respirações se misturam e sua mão vem para o meu rosto. Seus dedos tocam minha barba rala e seus olhos estão em minha boca. Meus braços envolvem seu corpo, apertando-a contra mim ainda mais.
- Sabe a nossa conversa no beco aquela noite, sobre beijar?
Confirmo com a cabeça.
- Consegue sentir a minha vontade de te beijar?
Novamente minha cabeça confirma, porque não consigo dizer nada.
- E você... tem vontade de me beijar?