Todas estavam ali entre brincadeiras e risadas, cada vestida com biquínis que deixariam qualquer pessoa de queixo caído e nenhuma ligava para aquilo. Em sua volta havia apenas a natureza revelando o quão bela é e mais à frente, uma linda cachoeira ao lado do riacho.
Simplesmente um lugar perfeito.
Aquilo tudo passou despercebido para Melissa que apenas respirou fundo e encarou Sofia que estava com uns óculos pretos no rosto, chapéu de sol em sua cabeça, um biquíni preto e branco coberta de protetor solar deitada em uma cadeira. Então ela se aproximou por que em seu ponto de vista, ninguém estava olhando.
- Que sol cheio de raios solares, não é mesmo? - Disse como quem não quer nada se sentando ao lado da cadeira de praia que Sofia estava. – Não obteve resposta. – Um sol cheio de calor, igual a água toda molhada. - tentou mais uma vez, nada.
Intrigada, olhou para o peito de Sofia e sem malícia prestou atenção no leve balançar sob e desce. Quase se socou ao perceber que a garota estava dormindo. Melissa acabou se perguntou se Sofia ainda tinha problemas para dormir como na adolescência. Ela até mesmo se lembrou das vezes em que precisou passar madrugadas em claro em intensas conversas com Sofia apenas para que ela tivesse alguma coisa para fazer e Melissa não se importava... Jamais se importava por que qualquer mísero segundo ao lado de Sofia valia a pena. Era óbvio que ela não se importava de perder sono, mesmo que começasse a outro dia exausta e caísse adormecida em qualquer lugar, ela jamais deixaria que Sofia ficasse sozinha. Até que depois de algumas semanas, a rotina noturna acabou mudando aos poucos por que Sofia pareceu encontrar a cura para sua insônia no conforto que Melissa lhe passava. E Melissa se lembra do quão feliz ficava por perceber que Sofia dormia no meio da conversa.
Melissa se perguntou como pôde deixar aquilo ter chego ao fim? Ela suspirou. Ela sabia que havia ressentimentos.
Ela se perguntou se valia realmente a pena importunar Sofia novamente, logo agora que ela estava com uma vida idealizada e provavelmente nem se importava mais com ela. Melissa se colocou de pé quando uma voz grave foi ouvida um pouco baixo, ela sentiu todos os pelinhos de seu corpo arrepiar e olhou para o lugar da onde ela veio.
- O que está fazendo aqui? - Sofia perguntou baixinho.
- Vim ver como você estava, mas percebi que estava dormindo e não queria incomodar. - Melissa corou.
Ela não sabia o que dizer ou muito menos esperar por que quando Sofia queria, ela sabia ser um cavalinho.
- Ah, acabei pegando no sono depois de uma noite m*l dormida. - Explicou Sofia e Melissa apenas concordou com a cabeça.
- Depois de anos ainda continua sem dormir direito? - Perguntou Melissa voltando a se sentar ao lado de Sofia.
- Depende muito do meu estado. - Começou. - Há dias que eu fico tão exausta que deito em qualquer lugar e é como se eu estivesse em coma. - Melissa riu. - Eu não costumo dormir mais do que 32 horas na semana, principalmente quando tenho plantão, eu sempre acabo passando mais do que o horário estipulado.
Melissa ficou chocada.
- Você só dorme apenas quatro dias na semana? - Sofia concordou. - Se eu não dormir durante os sete, eu sou capaz de ter uma síncope.
Sofia acabou gargalhando.
- Faz parte da minha rotina então eu meio que acostumei. São anos nisso e não reclamo por que estou fazendo uma boa utilidade do meu tempo. – Melissa percebeu que quando Sofia falava havia um brilho em seus olhos, ela queria ver mais daquele brilho.
- Fico feliz por você. - comentou Melissa. - Agora me diga, como anda o serviço nas clínicas?
Sofia suspirou lógico que Melissa sabia sobre as clínicas que a família de Sofia possuía. Não era segredo para ninguém que um dia cada uma delas seria gerenciadas pelas irmãs que Sofia possuía.
- Antes de vir, estavam ótimas. Agora eu não sei dizer exatamente já que minhas irmãs são as responsáveis no momento. – Revirou os olhos com aquela possibilidade de tudo sair do controle.
- Não sabia que Claire e Luna haviam seguido seus passos. - Comentou como quem não quer nada.
- Nós duas, aparentemente, não sabemos muitas coisas a respeito... - Sofia pensou e Melissa ficou sem palavras. - Claire seguiu, mas Luna não. Ela é minha secretaria e quem ajuda no painel de funcionários. Claire é a representante em Cuba e responsável pela clínica de lá. Todos os meses, uma equipe de médicos e eu iremos lá para prestar serviços à comunidade... Eu sempre me lembro dos motivos que me fizeram optar pela profissão e juro, não foi influência dos meus pais...
- Sua avó. - Melissa disse e Sofia olhou para ela.
Mesmo que os óculos pretos escondessem as esferas castanhas que Sofia carregava no rosto, Melissa entendeu que havia deixado à outra mulher surpresa.
- E você, Mickeize? - Sofia quis mudar o foco da conversa, por que para ela poderia ser perigoso.
- Me tornei dona de alguns centros estáticos em Miami. – Sofia sorriu com aquela informação. Ela havia aprendido a controlar a vontade de sempre procurar por Melissa.
- Fico feliz que seus esforços também tenham válido à pena. - Comentou Sofia. Ela realmente se sentia feliz, mesmo que uma pequena parte de si se sentisse incomodada.
Ambas ficaram em silêncio depois de alguns segundos. Havia tantas coisas para serem ditas, mas lhes faltava coragem por que sabiam que sairiam machucadas. Levou tantos anos para que as duas pudessem ouvir seus nomes sem que seus olhos criassem lágrimas, elas não podiam correr o risco de por tudo à perder. Só que Melissa estava cansada de fugir daquilo, ela precisava colocar pra fora tudo aquilo que estava preso em sua garganta.
- Me perdoe... - ela sussurrou.
Sofia quase não conseguiu ouvir, engoliu em seco e permaneceu em silêncio.
- Eu nunca deveria ter abandonado você. - continuou Melissa.
Então ela abaixou seu rosto para encarar um pouco da grama que as cercava.
- Se você não tivesse feito isso, nossas vidas não teriam tomado esses rumos. - Sofia disse tentando não chorar.
Também era difícil pra ela.
- Eu abandonaria tudo pra voltar no tempo e fazer diferente. - Melissa olhou para Sofia, porém não teve o olhar de volta.
- Esse é o problema, Mellz. - Melissa tremeu com o apelido. - Você sempre quis abandonar as coisas, você sempre foi pelo caminho mais fácil por que sempre teve medo de seguir em frente e lutar. Pra você é sempre desistir disso, daquilo e qualquer coisa. Não somos mais adolescentes que se conheceram por uma rede social e que em menos de dois meses já havia trocado "Eu te amo", somos mulheres adultas com responsabilidades que não podem ser abandonadas. Eu não sei o que você pretende quando me pede desculpas, mas eu não posso voltar abrir minha porta, minhas pernas e nem o meu coração para que você volte a me abandonar. Eu não posso admitir que você me machucasse de novo por que levou muito tempo para que eu ficasse bem... Quer-se meu perdão? Tudo bem, eu te perdoo por que jamais teve remorsos para mim. Só que, por favor, jamais diga que se pudesse abandonaria tudo o que têm para voltar no tempo por que eu jamais faria o mesmo. Eu viajei para a África por dois anos para ajudar pessoas, esse era um dos nossos sonhos que gostaríamos de ter vivido juntas, porém o fiz sozinha... Como a maioria deles, viajei para vários lugares do mundo e me perguntava sempre como seria se você estivesse ali comigo, eu conheci muitas pessoas nesse tempo e beijei outras mais... Meus patrimônios se tornaram muito mais do que meros prédios por que eu aprendi que não podia continuar na minha zona de conforto. Quando você decidiu que era hora de seguir em frente sem mim, eu percebi que não existia nada que eu pudesse fazer que não fosse focar em mim mesma e eu o fiz. Eu jamais abandonaria nada que eu lutei tanto para conquistar para consertar erros do passado, eles foram essenciais na construção da pessoa que eu me tornei hoje, eles fazem parte de mim! – Ela dizia com tanta tranquilidade na voz e com um tom calmo por que ambas precisavam daquilo. Daquele diálogo, daquele momento só delas longe dos olhares de terceiros.
- Você não entende! - Foi tudo o que Melissa disse.
Novamente.
- O que eu não entendo Melissa? - Sofia se virou para ela e finalmente aquilo pareceu ser uma conversa real. As meninas que estavam em volta logo se prepararam para separar a provável briga que rolaria. - Me ajude a te entender por que já faz anos e eu nunca consegui compreender os motivos para que você tenha quebrado o meu coração.
Sofia agradeceu por está de óculos, seus olhos estavam vermelhos e ela não queria que ninguém visse aquilo.
- Eu tinha outras prioridades... - Melissa chorava em silêncio. - Eu queria poder ter uma vida melhor com você, estava cansada de ter que te ver uma vez no mês. Estava cansada de sentir saudades e estava cansada de te querer por perto e não poder te tocar, eu não queria ter que lidar com aquelas coisas, eu jamais planejei que você acabasse machucada no final disso tudo..
Sofia riu desacreditada do que estava ouvindo, mas então percebeu que Melissa poderia entender como um deboche do seu desabafo. E ela não era esse tipo de pessoa.
- Mellz, você fez com que eu te amasse... Como queria ir embora e eu não sentir sua falta? - Perguntou baixinho. - Eu falei sobre os desafios que iríamos enfrentar, eu sempre deixei claro que bastava você me enviar uma mensagem que eu entraria no primeiro voo até você, sem pensar duas vezes...
- Eu não queria ser egoísta!
- Mas você foi pior do que isso! - Rebateu para a garota de olhos verdes. - Você foi covarde, por que se você não tinha a intenção de me amar naquela época, por que conquistou meu coração? Ou achou que eu seria mais alguém que gozaria em teus dedos e ficaria por isso? - Sofia disse com amargura, era exaustivo. Toda a situação. - Eu queria que tivesse acontecido dessa forma, não teria gerado esse drama todo.
- Drama? - Melissa perguntou incrédula. - Acha que tudo isso é drama?
- Me responde então o que é Melissa? - Sofia estava começando a perder a paciência. - Olhe em volta, estamos destruindo as férias das meninas por que continuamos com nosso drama da adolescência. Por que é difícil notar que já se passaram muitos anos, por que não consegue compreender que não faz tanta diferença?
- POR QUE PRA MIM NADA ACABOU! – Melissa gritou ficando em pé. A frieza que Sofia expressava estava lhe machucando mais do que a culpa que ela carregava. - Por que eu ainda te amo e sempre amei, não houve um dia que eu não tenha sentido sua falta. Isso foi real pra você ou só apenas eu senti?
Aquilo pegou Sofia de surpresa, seu coração palpitou dentro do peito e ela ficou sem reação. Então se lembrou do anel largado no fundo de sua mala. Um simples objeto que carregava um enorme sentimento.
- Eu nunca consegui ficar um dia sem pensar em você, Sofi... - Melissa abriu seu coração. - E-eu jamais quis superar você por que não faz sentido...
Sofia respirou fundo para disfarçar as lágrimas acumuladas em seus olhos.
- Isso não tem importância agora, Melissa. - Deu pra ver que ela estava afetada.
Melissa se abaixou e ficou cara a cara com Sofia. Suas mãos foram parar em seu rosto e com cuidado removeu os óculos.
- Por favor, não faça isso! - Sofia sussurrou ao perceber que talvez fosse beijada. Melissa olhou bem para aqueles lábios.
- Diga olhando nos meus olhos, mesmo que doa... Diga olhando seriamente para mim que você não me ama mais...
Sofia respirou fundo.
- Desculpe Melissa... Mas eu não posso amar você!
Melissa sentiu seu coração parar de bater e ela, talvez, estivesse apenas provando do seu próprio veneno.