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5001 Palavras
Hoje bateu saudade. Hoje bateu a p**a de uma saudade e eu quis correr até você, eu quis gritar pelo seu nome, eu quis brigar com você, eu quis abraçar você, eu quis te beijar e eu quis te amar. Eu quis várias coisas ao teu lado, eu quis um futuro, uma família, eu quis filhos... E antes de você, eu não tinha nem expectativa de vida. Hoje bateu saudades. Eu não soube lidar com ela, então eu me senti um dependente químico. Eu olhei para as paredes do meu quarto, caminhei em círculos diversas vezes e sempre que eu olhava para minha cama me via olhando para tela do celular sorrindo por que tava falando contigo. Eu via meus sorrisos mais sinceros, aqueles que você só da para a pessoa que você quer que tava parte da tua vida, que você quer que permaneça ali pra sempre. Eu sorri para o meu celular sempre que fala contigo e ao menos tinha noção disso. Hoje eu senti saudades de você e meu peito apertou, eu puxei o ar com força por que não queria derramar nenhuma lágrima... Eu sempre me sinto um pouco i****a por que não deveria, até Deus sabe que eu não deveria. Então, bateu saudades de você. Mas eu não senti saudades da agonia que você me causava, da aflição que você deixava no meu coração ou da angústia que era ter notícias suas. Eu senti saudades do teu sorriso, do teu riso solto, da tua voz que era meu som favorito, eu senti saudades das coisas boas, eu senti saudades do sentimento, da forma que você me fazia sentir, eu senti saudades de ter você do meu lado. Sinceramente? Você não deveria ter ido embora, não quando você me fez aceitar que estaria sempre aqui. Você me jurou isso diversas vezes por que eu era sempre a pessoa que desconfiava de tudo. Mas você resolveu ir embora e me deixar com um sentimento que era de mão dupla, você achou que eu seria forte o suficiente para lidar com isso e... Você se foi. Eu demorei pra entender isso. Você bloqueou meu número, me excluiu da sua agenda, mas infelizmente eu não consegui fazer o mesmo... Eu nunca desisti de você por que sempre houve uma esperança aqui dentro que talvez, você voltaria... mas infelizmente, você nunca voltou. Embora seja a hora de seguir em frente, eu sei que ainda vou voltar... independente do tempo, eu vou voltar. Os dias pareciam amigáveis para as duas mulheres, todos os instantes elas se olhavam e sorriam, coisa boba e elas se sentiam adolescentes novamente. O clima havia melhorado bastante, inclusive, para todos dentro daquela casa, mas embora tudo estivessem na mais perfeita paz todos sabiam que ainda existiam pontos em que não deveriam ser mencionados, ou lembrados. - Eu poderia muito bem morar aqui! - Sofi disse olhando para o lado de fora e observando atentamente o sol forte naquela manhã de inverno, a grama que parecia ganhar um brilho especial e as enormes árvores ao fundo, tornando o ar mais saudável para os seus pulmões. - Não iria reclamar nenhum pouco, olha esse silêncio! Sem buzinas, sem toda aquela gritaria e correria... - Aparentemente isso aqui só é lindo no inverno e primavera. — Morgan deu uma mordida na maçã. — Miley e Liam vieram no verão e a mesma mencionou muitas vezes que haviam tantos insetos que ela sentiu a alma ser puxada para fora do corpo. – Morgan deu de ombros enquanto continuou a comer sua maçã, Sofia acabou gargalhando pela forma descontraída que a arquiteta respondeu. - Eu a vi tem poucos meses, foi pessoalmente deixar o convite de casamento em Nova Iorque e após alguns meses me levou outro convite de uma festa de solteira. Acho que até ficou chateada por eu não ter tempo de ir e fiquei totalmente sem entender quando mais uma vez recebi um convite de casamento dela e Liam. – Sofia riu quando mencionou isso. — Pelo o que ouvi de Gabriel, ela finalmente está deixando de ser a garota problemática para os pais e tomou algumas responsabilidades para si, então acho que seja por isso que optou pelas férias com o namorado. — Ela não ficou chateada pela sua ausência, ou deve ter ficado com absoluta todas. — Explicou. — Não tivemos tempo, por ser em cima da hora e a única quem apareceu na festa de solteira foi Ashley e a equipe por estar em um show na mesma cidade. Após o retorno deles e ela perceber que todos em sua volta estavam seguindo as nossas vidas e ela não... Bom, a questão é que o trauma fez ela procurar ajuda psicológica e ela entendeu que a relação de um casal sempre fica meio estranha com o tempo. – Morgan rebateu e isso despertou a curiosidade em Sofia. — Você parece sempre saber da vida de todo mundo e é mais ausente do que eu mesma nesse grupo. — Riu. — Você está me escondendo alguma coisa? — A maçã deixou de ser mastigada e a mulher de longos cabelos negros parou com todos os movimentos do seu corpo. — Eu não sei o que você quer dizer! — Tentou tirar o seu da reta e olhou desesperada por todos os lados em busca de uma saída. — Como uma pessoa que nunca namorou alguém sabe sobre os problemas de casais passam? — Sofia estava se divertindo com o embaraço causado na arquiteta. — Caso não se lembra, eu sou a conselheira amorosa nesse grupo. Embora nunca tenha estado em um relacionamento, tenho uma visão diferenciada que vocês, meros mortais, têm. Então é bem comum que eu saiba sobre a vida de todo mundo, mas lógico que não tenho o dinheiro de falar abertamente sobre isso, mas Miley falou sobre isso abertamente seja em uma carta aberta nas redes sociais e no nosso grupo. A vida é um pouco estranha, não é? Uma cantora Pop, uma Socialite, médica, arquitetura e empresários. Uma enorme diversidade gay muito bem sucedida, um t**a na cara da sociedade machista que acha que as gays não tem vez... — Morgan relaxou quando ouviu a gargalhada de Sofia. — Mas voltando ao clima, eu gosto bastante de estar rodeados de prédios, sons de buzinas e a agitação de uma happy hour todas as sextas. — Eu amo essa tranquilidade que esse lugar me passa, estou tão acostumada com a caótica Nova Iorque que qualquer chance de ficar isolada me agrada bastante. — Sofia suspirou. — Você iria odiar a Índia. – Karen entrou na cozinha e rapidamente entrou na conversa. — Meu chefe me mandou para aquele inferno onde vacas e macacos andam livremente pela sociedade e aqueles carros desgovernados e... — Ok, ou você vai surtar. — Morgan disse e Sofia riu mais ainda. —Sofi, quando iremos poder visitar você? Ao que eu saiba, Nova Iorque é o único lugar que ainda não fomos. Até mesmo Gabriel nos recepcionou no Canadá! — Sofia pensou. - Vocês quem sabe, mas precisam me avisar com no mínimo três meses antes para me organizar bem. Meu apartamento é pequeno, mas a gente pode encontrar um lugar enorme que possamos aproveitar bastante! — ficou animada ao pensar na possibilidade. - Quando é que você vai deixar esse lado organizado no fundo do armário? Na hora que essas mulheres decidirem o que quer, nós iremos providenciar e pronto. - Karen a encarou por alguns segundos. - Se jogue mulher, deixe as precauções para outro dia e... — Quando Sofia iria debater, Gabriel foi até elas com o celular da própria tocando. - Desculpe interromper as moças, mas teu telefone tá quase explodindo de tanto tocar e pelo o que vi, há 45 chamadas não atendidas de Luna. - Sofia se assustou e Karen soube que aquilo não era um bom sinal. Sofia agradeceu e logo atendeu a chama antes que a chamada caísse. - Ei, o que está acontecendo? - Sofia foi direta. - Graças a Deus, eu já estava ficando desesperada! Margareth teve complicações e o tumor piorou gradativamente, estamos tentando evitar o pior, só que ela insiste em te querer por perto. Sofia engoliu em seco e olhou para Karen, a mesma logo entendeu que as férias haviam chegado ao fim e que a hora de ir pra casa seria muito em breve. - Espere um segundo, Lulu. - Gabriel ainda permanecia ali observando tudo com bastante atenção. - Se não for um incomo, você poderia arrumar minhas coisas, eu preciso voltar com urgência, aconteceu uma emergência e eu... Céus, eu tenho que voltar. Todos notaram as mãos tremendo de Sofia e o nervosismo que ela apresentou ao fazer a pedido, mas ninguém ousou perguntar os motivos e Karen apenas saiu correndo indo em direção do quarto delas para preparar tudo. - Luna, talvez eu demore um pouco, coisas de horas não sei se conseguirei encontrar passagens tão em cima da hora assim e... - Sofia respondeu ainda desesperada. - A Família dela disponibilizou o jato deles para ir buscar você, tenho certeza de que em meia hora ele estará no aeroporto particular à sua espera, tem um tempo que recebi a notificação de que o avião havia ido até você. - Luna dizia em um tom sério, sabia que aquela paciente era especial demais para sua irmã mais velha.. - Vai dar tudo certo, você só precisa voltar pra casa! Não fique preocupada e nem assustada, tudo está sob controle e você sabe que somos capazes de evitar qualquer coisa que possa vir acontecer. - Obrigada, Lu. — Sofia suspirou. — Eu só estou... Eu confio na minha equipe, sei que dará tudo certo e... Eu estou a caminho, me mande o endereço do aeroporto por mensagem. Tchau! - E desligou. - O que houve? - Morgan foi a primeira a falar. - O trabalho me chama, tenho uma paciente em tratamento e antes de vir apresentou uma grande melhora e foi liberada, alguma coisa deu errado nesse tempo e aparentemente precisará de uma atenção redobrada e como sou a responsável pela mesma, preciso estar presente. - Sofia piscou algumas vezes e lágrimas queriam se formar em seus olhos. - Sinto muito por isso, mas eu não posso permitir que ela se vá, ela... Essa paciente é especial pra mim, eu não posso ficar aqui sabendo que... - Então Sofia chorou. Morgan a abraçou apertado e Gabriel as deixou ali enquanto ele corria até Ashley que estava no jardim, aproveitando o sol enquanto planejando o almoço de todos, do seu lado estava Melissa, Ariana e Yoko conversando as mesma besteira de sempre, como sempre. — Eu sinto saudades dos shows, eu vivo reclamando pedindo por férias, mas só ficar uma semana em casa, me bate um enorme desespero e... — Ash comentava com as mulheres quando um Gabriel vermelho surgiu: - Ash, eu posso falar com você um instante? - Gabriel puxava o ar com força para seus pulmões deixando claro que era um sedentário. - O que aconteceu? - Ela viu o desespero no olhar dele. — Estou ficando assustada, menino! - Eu amo você, mas você ficaria chateada se eu fosse embora com Sofia? — Todas pararam o que estava fazendo para encarar o único homem daquele lugar. - Sofia vai embora? - Melissa parou de sorrir. - Ela está bem? - Yoko pegou a primeira coisa que encontrou e limpou suas mãos; era uma camisa de Gabriel. — Aconteceu alguma coisa? - Uma paciente dela que está em fase terminal teve complicações, ao que entendi. - Ele explicou, uma vez que ele era o mais próximo e foi capaz de ouvir toda a chamada. - Sofi vai precisar retornar ainda hoje para Nova Iorque para vê o que pode ser feito! - p**a m***a! - Ash disse. - Sofi precisa de alguma coisa? - Eu não sei K está organizando as coisas e Sofi está com as meninas na cozinha. – Yoko se levantou e foi em direção ao lugar onde Sofia estava. - Eu vou com vocês! - Ashley disse sem pensar duas vezes. - Vamos para o quarto arrumar nossas coisas, menino. Não iremos deixar Sofi sozinha. - E assim, eles também saíram sem nem ao menos pedir licença e não é como se elas se importasse com isso. Melissa e Ariana continuaram ali. - Eu vou também... - Foi o que Melissa disse. — Eu vou ir com eles! - O que pretende? - Melissa olhou para ela. - Mel, veja bem... Eu não tenho nada contra você ou contra o relacionamento que tiveram, acho até bonito que mesmo depois de tantos anos você esteja arrependida e queira voltar a fazer parte da vida dela, mas por quê agora? — Melissa não sabia o que Ariana pretendia com aquilo, mas mesmo assim resolveu ficar ali e ouvir. — Vejo você falar por anos que sente saudades de uma pessoa do passado, que nunca conseguiu se entregar de corpo e alma a alguém e que nenhuma pessoa é o suficiente pra você. - Por que eu a amo, nunca deixei de amá-la! - Foi o que Melissa respondeu. - Olhe não me entenda m*l, mas isso é o suficiente pra você? Se você diz tanto que a ama por que não a procurou antes? Por que foi embora e deixou-a sozinha? Por que agora? - Mel ficou pensativa. - Quer dizer, eu adoro esse drama lésbico que ronda vocês, mas você acha que Sofia está disposta a passar por tudo novamente? Ela pode muito bem ter outra pessoa e estar feliz, por que você quer tocar nessas coisas do passado que trouxeram tanto sofrimento para vocês duas? Pela forma que ela ficou ao nos ver juntas, ela provavelmente deve ter levado meses pra te superar e agora, após você me contar toda a história, por que justo agora você quer arrastar a mulher para esse passado sombrio e assustador? - Por que você está me perguntando essa coisa? - Melissa parecia perdida demais para saber responder de forma coerente, quando pediu que Ariana entrasse naquela história com ela nunca pensou que a ruiva deixaria ser levada pelas emoções pesadas que lhes rondassem. Então, ouvir aquelas dúvidas de alguém que não presenciou todo aquele drama no mínimo era alarmante demais para si. - Eu só preciso saber que você não vai abandoná-la novamente quando os problemas vierem. - Ariane estava bastante séria. - Só isso, por que eu juro pra você que por mais amiga sua que eu seja, eu irei quebrar toda a tua cara se fizer isso, eu sei que Karen pode não ser muito minha fã, mas tenho certeza que irá fazer um altar com uma estátua minha por que eu terei feito o que ela nunca pode fazer! — Melissa franziu o cenho confusa com aquela confissão, por mais tosca que parecesse ser. - Como assim? — Ariane riu ao ver o desconhecido nos olhos verdes da outra. — Ari, o que você sabe que eu não? - Eu não deveria falar sobre isso, porque não é assunto meu, mas eu estava presente quando Morgan mencionou: Quando você foi embora e deixou Sofi sofrendo... Ela precisou explicar para todas nós o motivo para o teu desaparecimento, foi à primeira vez que eu a vi chorar e foi também à primeira vez que vi um coração se quebrar diante dos meus olhos e mesmo sofrendo, ela nos fez prometer que não iríamos ir até você e te bater até ter noção da burrada que estava fazendo. Mesmo você indo embora e desistindo de tudo, ela continuou te protegendo com tudo o que tinha e podia! - E-eu não sabia disso! - Melissa explicou. — Meu Deus, Sofia é inacreditável. - Normal, você não sabe várias coisas. – Ariana confessou. – Você deveria valorizar o teu grupo de amigos, por mais diversificado que seja... Apesar de tudo, nenhum deles te virou as costas e soube lidar perfeitamente com um término de duas pessoas queridas mesmo sabendo que jamais seria fácil, eu no lugar de Sofia e terminando da forma que tudo ocorreu jamais olharia para você novamente. Então por favor, não quebra o coração dela, mesmo não a conhecendo direito... Eu gostaria de ter uma pessoa como ela e tenho certeza de que muitas pessoas pensam da mesma forma que eu. – Ela se colocou em pé e suspirou antes de sumir pelas escadas, disse: – Vou ir arrumar minhas coisas, minha missão aqui foi cumprida. 「...」 Horas mais tarde a chuva forte havia acompanhado o clima emocional que as mulheres daquele local se encontravam, Sofia colocava o casaco preto sobre seu corpo. Havia luvas em suas mãos e um gorro em sua cabeça. Ela respirava fundo por que sabia que à partir dali as coisas se tornariam complicadas e ela não poderia mais demonstrar ser frágil, precisaria colocar mais uma vez sua máscara de onipotente e inabalável por que o mundo havia conhecido ela daquela forma, mas aquelas pessoas que a observavam de longe conheciam seus mais sombrios medos. Mesmo depois de toda a terapia, Sofia jamais conseguiu superar sua fobia por portas abertas e muito menos o medo da despedida. Embora soubesse que sempre seria necessário, dizer adeus nunca estava em seus planos. Não é irônico? Já que a mesma havia se tornando uma médica que vivia lidando com perdas atrás de perdas e que carregava nas costas um peso que ela mesma havia colocado. Sofia prometeu que jamais desistiria e promessas para ela eram sagradas. Principalmente para a mulher que estava precisando de sua ajuda. Por anos, Sofia foi até ela para conversar, desabafar e se abrir... Por anos a mesma mulher ouvia todas as semanas os lamentos de Sofia e suas conquistas, havia vezes em que acabava irritada, outras orgulhosas e haviam também os dias frios onde Sofia não queria dizer absolutamente nada, porém ela entendia... Sofia só precisava saber que não estaria sozinha. E ela não estava não dessa vez. - Eu ainda não acredito que vocês estão fazendo isso. - Ela observou Gabriel colocar as malas dele e Ashley dentro do carro alugado. Karen estava olhando para Yoko, elas pareciam tensas e Sofi não quis questionar. - Já disse, não iremos te deixar sozinha! - Ashley sorriu. - Você sabe que teus fãs irão surtar e tudo irá ser um caos! - Sofia lembrou. — Sorte que o aeroporto é privado. - Estou de férias e todos acham que estou em algum SPA no Pacífico. - Deu de ombros. - Falta apenas você se despedir, vamos logo antes que fique tarde. Sofia não respondeu nada, apenas observou os três entrarem no carro e ela respirou fundo mais uma vez enquanto caminhava em direção às suas outras amigas. - Mais uma vez, peço desculpas. - Ela sorriu amarelo. - Margareth foi minha terapeuta e quando me formei, ela descobriu que tinha diagnóstico de câncer no cérebro, eu venho cuidando do caso desde então, porém... - Sofia respirou por uns instantes e Morgan sabendo a amiga que tinha foi até ela para abraçá-la. - E-eu só preciso fazer alguma coisa pra remediar mais um pouco... - Você sabe que não precisa se desculpar, nunca precisou. - Yoko disse. - Nós entendemos e sabemos que faríamos o mesmo se estivesse em teu lugar. - Espero de todo o coração que tudo fique bem e que em breve você poderá voltar. – Ariana disse um pouco mais afastada. – Foi muito bom conhecer a pessoa maravilhosa que você é. – Sofia corou com o elogio. — Tenho certeza que levarei em meu coração as coisas que aprendi com você! - Qualquer coisa estaremos aqui, basta mandar uma mensagem no grupo e nós entraremos no primeiro voo direto à New York, babe. - Yoko brincou causando risos em todas. - Muito obrigada, mesmo. - Sofia limpou as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. - Mellz, você pode conversar alguns minutinhos em particular comigo? – Aquilo pegou Melissa de surpresa. Na verdade, a última frase pegou todas de surpresa, talvez algumas mentes pensavam que Sofia partiria sem se despedir de Melissa. - C-claro. - Foi tudo o que a americana disse antes de seguir a latina em um cantinho próximo a uma árvore. Quando ambas estavam próximas uma da outra, foi impossível conter o suspiro. Um casaco preto com uma calça jeans colada que realçava todo o seu corpo. Melissa segurou o riso quando percebeu que Sofia ainda não havia perdido a mania de suspirar mesmo que sem perceber por ela. Talvez aquilo fosse bom, foi por isso que Melissa acabou criando expectativas sobre aquele futuro relacionamento. - Desculpe por ter dito aquelas coisas. – Sofia disse ficando vermelha. - Embora estivesse bêbada, não tinha o direito de falar tudo àquilo daquela forma... Quer dizer, eu não tinha o direito de fazer o que eu fiz e peço desculpas por... – ficou sem jeito quando apontou para o lugar onde Ariana estava. - Por ter sido na frente dela, não queria causar nenhum tipo de transtorno e muito menos te prejudicar. — Aquilo acabou causando uma enorme dúvida na mente da loira, Sofia estava se desculpando por...? - Ariana e eu não namoramos... – Melissa assumiu. - Quer dizer, nós... Ham... - Fez uma careta. - Eu não preciso saber! -Sofia foi categórica. - Certo, eu só a trouxe por que não estava preparada para lidar com tudo isso, novamente. – foi à vez de Sofia ficar confusa. — Eu senti medo de enfrentar você e todas as coisas que acompanham nós duas, então ela veio me acompanhar. - E ainda sim, você quis um relacionamento comigo. - Aquilo não havia sido uma pergunta, nem uma afirmação. - Você fingiu que namorava ela e embora Karen tivesse dado a entender o mesmo, eu só... Melissa, eu não sei como me sentir nesse exato momento. Eu não tenho nem noção do que estou fazendo, mas eu quero que saiba que és importante pra mim... - Então ela puxou do bolso um pequeno anel e mostrou para Melissa que já tinha algumas lágrimas nos olhos. - Eu não sou mais a mesma pessoa de antes, da mesma forma que você também não, mas há certas coisas que acabam me fazendo lembrar o que éramos no passado e até mesmo pensar no que poderíamos ter sido se tivesse continuado daquela forma. Eu provavelmente esteja cometendo um erro ou afirmando o que todo mundo já sabe; que você é o amor da minha vida e não importa o tempo que passe, nunca irei superar você. Embora tenha dito diversas vezes para mim mesma que eu havia superado você, tivesse dito, inclusive para você, que eu não te amo... Acabou se tornando a minha única verdade por que eu não podia me prender a alguém que não me correspondia de alguma forma. Quero que você guarde esse anel por vários motivos, eu me lembro de que você não gostava por ser extravagante e eu achei que seria seu favorito só por causa do símbolo ser do seu seriado preferido. Eu gostaria que você ficasse com ele, mas não pelo o que sente hoje por mim, mas sim pelo o que éramos no passado. Eu amava aquela Melissa boba, de cabelos loiros sempre bagunçados e olhinhos verdes brilhantes com todas as forças que habitava em mim e eu queria que você guardasse como uma lembrança e... - Você não ama quem eu me tornei hoje? – Melissa m*l respirava direito depois daquela pergunta. Com os olhos vermelhos, Sofia lhe respondeu: - Eu não posso amar algo que eu desconheço. - Foi doloroso ouvir aquilo, mas ela sabia que Sofia tinha razão. - Eu não sei como vai ser nossas vidas daqui pra frente, não sei quais seus planos e nem como ficaremos... Ou se ficaremos. Não quero te dar expectativas ou criar por que a única coisa que eu não preciso é dessa desestabilidade emocional que você me causava. Somos mulheres adultas com inúmeras responsabilidades e eu não posso permitir me distrair das minhas obrigações. Eu não posso me arriscar dessa forma novamente e sair ferida, não podemos mais nos machucar daquele jeito. — Melissa concordou com absolutamente cada palavra mencionada pela boca de Sofi, mesmo que não soubesse o que dizer. - E-eu posso procurar você? - Uma lágrima escorreu pelo seus olhos. — Melissa sentiu seu corpo tremer e se arrepiar com a sinceridade que Sofia demonstrou, mas ambas pareciam tão empenhadas em continuar com aquilo mesmo que as circunstâncias se mostrassem sempre o contrário de suas reais vontades. Elas queriam serem livres para viver o que a vida lhes guardavam. - Claro, mas... - Então ela se lembrou das palavras de Morgan. - Você pode me procurar sim, minhas férias serão adiadas por algum tempo e se você quiser, pode ir até NY para que eu possa te apresentar direito a cidade que nunca dorme. - Ela sorriu. Melissa também sorriu e seu coração disparou com a ideia de poder ir até Sofia. Elas iriam continuar com a conversa até que Karen apitou o carro chamando a atenção de Sofia. - Eu preciso ir. - Sofia mordeu o lábio encarando Melissa. - Mantenha contato! Por favor... — Melissa corou. - Você também. - Continuaram se encarando. - Eu quero muito beijar você. - Por favor, não o faça! - Sofia respondeu rapidamente. - Com sua presença, eu sei lidar... Mas eu não conseguiria parar de pensar em um beijo seu e isso não é bom quando eu sei que terei de operar pessoas. - Sofia tentou aliviar o clima. Melissa riu ao concordar e puxou Sofia para um abraço apertado. Ambas ficaram ali até Karen quase estourar a buzina do carro, Sofia se afastou e Melissa sentiu seu coração se afastar dela. Não houve um beijo, mas elas sabiam que seus corações estavam batendo no mesmo ritmo por causa do mínimo contato. Quando Sofia entrou no carro, ao lado de Karen, Ashley foi a primeira que puxou assunto. - Eu quero ser madrinha desse casamento! - Tentou brincar e Gabriel bufou. - Você fez bem ao não beijar ela! - Ele resmungou e Sofia permaneceu em silêncio. - Algum problema, Sofi? - Karen perguntou enquanto dirigia o carro com cuidado. - Melissa disse que mudou, mas fingiu um relacionamento por que estava com medo do que minha presença no sítio causaria. - Ela encarou Karen. - O que tem de mais nisso? - Ashley quem perguntou. - Uma atitude infantil demais para lidar com sentimentos. - Sofia respondeu colocando o cinto e olhando pelo retrovisor para encarar Ashley. - Não estou julgando suas reações, mas como eu posso confiar em alguém que tem uma atitude dessas? Todos aqui sabem que eu vim com a cara e a coragem que eu não tinha só por que ela estava aqui? Meu Deus, eu fiz s**o o**l nela na frente de todo mundo!! - O desespero bateu. - Onde eu estava com a cabeça? - Entre as pernas dela! - Karen respondeu gargalhando. - Surtar agora não vai fazer você voltar no tempo, mas nem tente dizer que não gostou por que todos aqui sabem que você amou. Sofia corou olhando para frente. - Eu gostei muito. - Confessou. - Mas Melissa é um caminho que eu não sei se aguentaria me perder novamente. - Ela pensou. - Ela me destruiu tanto que eu preciso ser muito masoquista pra querer ter ela de volta na minha vida. - E você a quer? - Gabriel perguntou refletindo sobre aquilo. Sofia pensou em tudo, tudo que Melissa lhe causava e sabia que não poderia continuar vivendo longe dela. - Como jamais quis alguém antes! Eu não esperava que fosse me apaixonar por você. Eu nunca quis isso. Quando você sorriu para mim pela primeira vez eu pensei: ‘não, isso não vai acontecer de novo’ e então eu fiquei imune aos seus encantos. Por um tempo. Com delicadeza e cuidado, você se aproximou de mim. Não me importei, afinal eu estava imune. Todas as minhas muralhas impenetráveis estavam erguidas contra você então tudo bem, que se aproxime! Eu nunca imaginei que você fosse ser capaz de ultrapassá-las, até porque, você não fazia o meu tipo. Você é delicada, alegre, sociável, gentil, o tipinho de pessoa que, por ser totalmente o oposto de mim, eu prefiro evitar. Eu subestimei você e, sem que eu me desse conta disso, você removeu paulatinamente cada pedra das minhas muralhas. Quando percebi, eu já estava completamente apaixonada por você. Você é a luz do meu dia, a parte mais bonita da minha realidade mórbida e sem sentido. Sempre que eu te vejo sinto o meu coração aquecer dentro do peito. Mas, você não faz ideia de nada disso. Não tem a menor noção de que eu sonho com você a noite, que eu te desejo e que passo o dia inteiro esperando por uma mensagem sua. Porque, apesar de estar apaixonada, eu ainda continuo escondendo a todo custo os meus sentimentos. Não quero e não posso ceder a essa paixão. Não posso alimentá-la, muito menos expressá-la. Preciso destruí-la. Matá-la. Porque eu me conheço bem e sei que, se eu me permitisse vivê-la, quando tudo acabasse (porque sempre acaba) eu sairia devastada. Quanto tempo eu levaria para superar você? Quanto isso me custaria? Da última vez, me custou tudo. Tudo. Então, por favor, entenda: eu não posso permitir que essa paixão me incendeie porque, quando tudo acabar, eu não sei se irei sobreviver (e não, não estou sendo dramática, nem exagerando. É a mais pura verdade). Não tenho mais estrutura emocional para passar novamente pelo processo de desapegar de uma pessoa, de aceitar que ela nunca mais fará parte da minha vida. Você me disse, certa vez, que eu sou a pessoa mais fria que você já conheceu. Você não faz ideia, meu bem. Espero que nunca faça.
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