Os dias que se seguiram àquela noite envolvente na casa de Laura pareciam escoar-se como a areia entre os dedos, rápidos e quase imperceptíveis.
A reconstrução da ilha vizinha, devastada pelas tempestades, estava finalmente a chegar ao fim. A cidade com as suas ruas estreitas e casas coloridas, começava a recuperar o ritmo tranquilo de antes, mas ainda havia trabalho a fazer. Ângelo, com a sua energia incansável de marinheiro, passava grande parte do tempo navegando entre a cidade e a ilha, supervisionando as últimas etapas da reconstrução. Ele levava consigo materiais, coordenava os homens no porto e garantia que cada telhado fosse erguido e que cada parede fosse reforçada. Laura, enquanto isso, ficava na cidade, organizando as cargas finais que seriam enviadas: caixas de pregos, rolos de corda, sacos de cimento, tudo anotado com a precisão que ela normalmente reservava para ajustar o foco da sua câmera.
Era um trabalho que exigia concentração, mas Laura sentia-se à vontade naquele caos organizado. O cheiro de sal impregnava o ar, misturado ao som das gaivotas que sobrevoavam os barcos e ao bater distante de martelos contra madeira. Ela movia-se entre os trabalhadores com um caderno na mão, apontando o que ia em cada embarcação, mas os seus olhos, por vezes, procuravam o horizonte, à espera de ver o barco de Ângelo a regressar. Ele voltava sempre ao cair da noite, exausto, mas com um sorriso que ainda conseguia aquecer o peito dela — pelo menos, era o que ela queria acreditar.
Os encontros noturnos tornaram-se um ritual. Algumas vezes, era na casa dela, na varanda onde o vento trazia o aroma das ondas. Outras, era no cais, sob o céu cravejado de estrelas, com o rumor das águas como pano de fundo. Eram momentos que ainda carregavam ecos daquela noite em que se entregaram um ao outro, quando os corpos falaram o que as palavras não ousaram. Mas, aos poucos, Laura começou a perceber uma mudança, subtil como a maré que recua antes de uma tempestade. Ângelo estava ali, fisicamente presente, mas algo nele parecia escapar, como se uma parte da sua alma tivesse ficado perdida em alto mar.
Ele ainda ria das suas piadas, ainda a puxava para um abraço quando o vento ficava mais frio, mas havia uma sombra nos seus olhos, uma distância que Laura não conseguia atravessar. Quando falava, as suas frases eram mais curtas, quase mecânicas, como se estivesse a responder por hábito e não por vontade.
“Está tudo bem, Laura,” dizia ele, esfregando as mãos calejadas como quem tenta afastar um pensamento incômodo. “É só o trabalho. Quero deixar a ilha impecável antes de descansar.” Ela assentia, tentando convencer-se de que era apenas isso — cansaço, pressão, o peso de tantas semanas sem parar. Mas no fundo, uma inquietação crescia, um pressentimento que a fazia acordar no meio da noite com o coração apertado.
Certa tarde, enquanto organizava uma pilha de caixotes no porto, Laura parou para tirar uma fotografia. O sol estava baixo, tingindo o céu de tons quentes de laranja e rosa, e os barcos balançavam suavemente na água. Ela ajustou a lente, capturando o reflexo da luz nas ondas, mas a sua mente estava em outro lugar. Pensava em Ângelo, na forma como ele desviava o olhar quando ela perguntava sobre o que o preocupava, na maneira como os silêncios entre eles se tornavam mais longos. A câmera clicou, congelando o momento, mas Laura sabia que não podia capturar o que realmente importava: o que se passava na cabeça dele.
Naquela noite, decidiram ficar na casa dela. Laura abriu uma garrafa de vinho, um presente de um comerciante local grato pela ajuda na reconstrução, e os dois sentaram-se na varanda. O ar estava fresco, carregado de sal, e o som das ondas quebrando ao longe enchia o silêncio entre eles. Ângelo segurava o copo com uma mão, girando-o distraidamente, enquanto a outra mão repousava na cadeira. Laura observava-o, os cabelos desalinhados pelo vento, a barba que ele não tivera tempo de aparar, o jeito como os músculos dos braços se tensionavam mesmo em repouso. Ele era o mesmo marinheiro que a encantara no festival, mas algo estava fora do lugar.
- Ângelo - começou ela, a voz baixa mas firme, cortando o silêncio da noite. - Está tudo bem contigo?
Ele parou de girar o copo e olhou para ela, um sorriso pequeno curvando os lábios. Mas o sorriso não chegou aos olhos, que pareciam fixos em algum ponto além dela, talvez além do próprio mar.
- Claro, Laura. Porquê a pergunta? - respondeu, levando o copo à boca para um gole rápido.
Ela hesitou, escolhendo as palavras com cuidado. O vinho no seu próprio copo tremia ligeiramente, refletindo a luz da varanda.
- Não sei... Sinto-te diferente ultimamente. Como se estivesses aqui comigo, mas ao mesmo tempo não estivesses. - Ela pousou o copo na mesinha ao lado e inclinou-se para a frente, buscando os olhos dele. - É só o cansaço da ilha, ou há algo mais?
Por um instante, o rosto de Ângelo mudou. Uma ruga se formou entre as suas sobrancelhas, e ele abriu a boca como se fosse dizer algo. Mas então, respirou fundo, e o sorriso voltou, mais forçado desta vez.
- É imaginação tua, fotógrafa - disse, a voz leve demais para ser convincente. - Anda, mostra-me as tuas últimas fotos. Quero ver como captaste o porto hoje.
Laura sentiu um nó no estômago, mas não insistiu. Levantou-se, foi buscar a câmera e exibiu as imagens no pequeno visor: o pôr do sol, os barcos, os trabalhadores carregando as últimas caixas. Ângelo fez comentários gentis, elogiando os ângulos, mas ela m*l ouvia. A sua mente estava em outro lugar, revisitando cada olhar esquivo, cada pausa longa demais. Ele podia dizer que era imaginação dela, mas Laura sabia o que sentia. Algo estava errado.
Nos dias que se seguiram, enquanto as últimas cargas eram enviadas para a ilha, ela continuou a observá-lo. No porto, ele movia-se com a energia de sempre, gritando ordens aos marinheiros, carregando caixas pesadas como se o cansaço não o tocasse. Mas havia uma tensão nos ombros largos, um peso que ela podia quase ver, como uma âncora invisível puxando-o para baixo. À noite, quando se encontravam, ele ainda a beijava com a mesma intensidade, ainda segurava a mão dela com força, mas Laura não conseguia afastar a sensação de que algo o estava a consumir por dentro.
Enquanto o sol se punha num desses dias, tingindo o céu de vermelho, Laura ficou no cais, a câmera pendurada no pescoço, olhando o barco de Ângelo desaparecer no horizonte. A ilha estava quase pronta, mas a distância entre eles parecia crescer a cada viagem. Ela sabia que não podia ignorar aquilo por muito mais tempo. Fosse o mar, um segredo ou algo que ele próprio não compreendia, Laura precisava de respostas.