De volta ao passado - Parte III (Continuação)

3212 Palavras
Justin Bieber   Antigamente eu pensava que as melhores coisas da vida eram sexo, música e comida. Mas tem algo que supera tudo isso… a liberdade.   De manhã, quando coloquei meu pé fora desse lugar — mesmo estando com um rastreador grudado no tornozelo —, não deixei transparecer minha satisfação.   Foi graças à Sarah que eu consegui sair desse lugar pra ver minha família depois de quase cinco anos naquele c*****o de cela. p***a… respirar o ar da minha Stratford é demais. Sentir o cheiro familiar da cidade, ouvir risadas e vozes pelo caminho até a casa do meu pai foi… único. Eu nunca pensei que sentiria isso de novo.   Assim que eu pisei no quintal, não pude segurar minhas lágrimas. Jazzy e Jaxon estavam sentados na frente da casa, brincando. Eu os vi muito pequenos, tenho certeza que eles não se lembram de mim.   Cobri o rastreador do tornozelo com a calça e saí do carro com meu pai, que a propósito havia me buscado.   — Jazzy? Jax? — Jeremy chamou os dois, que ergueram o olhar e deram um sorriso para o meu pai, me olhando curiosos — venham aqui, venham ver o irmão de vocês.   Quando os dois pares de olhos castanhos ficaram bem na minha frente, parecia que um balde de água fria foi derrubado na minha cabeça. Eu preciso sair da prisão o mais rápido possível, estou perdendo o mundo.   Eu poderia estar casado, ter filhos, estar seguindo minha carreira com a música e… merda.   Ajoelhei-me devagar, olhando os dois, que me surpreenderam com um abraço gostoso. Tenho certeza que o meu sorriso agora é o mais sincero que já dei em toda a minha vida.   — Vocês são lindos… — falei baixo, dando um beijo em cada um.   Apesar de estar passando o feriado com meu pai e a família dele, eu só pensava em fazer uma coisa antes do meu tempo livre acabar. E não, não era f***r a Liv.   Erin fez todos os pratos que eu mais gosto, sobremesas incríveis e nós assistimos um programa inglês chato, mas ver a adaptação dos meus irmãos com a minha presença e sentir o cheiro de casa me deixou extasiado.   Pela tarde, chamei meu pai até a varanda, olhando pro céu.   — O que foi, filho? Não está gostando?   — Eu adorei, pai, de verdade. Só… sabe onde a Sarah mora?   (...)   A casa da minha psicóloga não era longe do centro de Stratford. Fui andando até lá, tudo o que eu queria era sentir um pingo de liberdade, poder observar tudo, pois eu não sei quando vou sair de lá, na verdade, estou pensativo.   Para sair daquele inferno eu tenho que falar toda verdade…, mas não é tão simples de se explicar e por ser tão complicado, pode ser que eu não consiga contar tudo.   Olhei o número da casa no papel que meu pai anotou e comparei com o da casa à minha frente.   Se colocassem mil casas na minha frente eu saberia qual é a dela. Sarah tem seu jeito totalmente sofisticado, que vem com uma carga enorme de simplicidade.   Portão baixo, jardim com poucas flores, canteiros, casa de cor marrom clara… a cara dela.   O cheiro de comida estava exalando de lá de dentro, deixando o clima ainda mais tenso pra mim.   A pergunta é: Por que eu quis vir aqui?   A resposta é simples: quero saber tudo sobre ela.   Toquei a campainha, trêmulo. Ouvi passos apressados pela casa, até que alguém abriu a porta. Fiquei olhando pasmo para o rapaz na minha frente.   Que seja a casa errada, por favor, só de imaginar a Sarah com esse cara já me dá vontade de soca-lo.   — Você é…? — perguntou ele e eu rezei para que ele lembrasse das notícias de cinco anos atrás, para saber bem que eu sei fazer um assassinato, babaca.   — Justin — ouvi a risada da Sarah e meu coração gelou — posso ver a Sarah?   — Só um minuto — disse ele, fechando a porta na minha cara, mas em uns segundos, a porta abriu, com a minha linda psicóloga me olhando, fechando a porta atrás de si.   — Não vai me chamar para entrar? — perguntei.   — Casa cheia, minha amiga sabe que você me deu um soco, Andrik citou seu nome e agora ela quer seu corpo morto.   — Entendi…   — Fiquei feliz por você ter saído no Dia de Ação de Graças, como é estar livre temporariamente?   — Não ia ter graça nenhuma se eu não viesse aqui, para agradecer…   — Essa parte teve uma pontinha do dedo do Trevor.   Foda-se o Trevor! Meu Deus, minha mão está tremendo, Trevor é o c*****o, quero esmurrar esse mauricinho que está aí dentro.   — Quem é o cara?! — tentei parecer tranquilo ao perguntar, mas só tentei mesmo.   — É o namorado da minha amiga — ela também parecia estar lutando com algo.   Na verdade, eu tenho notado algo estranho nela. Sarah parece sempre querer me falar algo, mas muda o assunto ou simplesmente engole o que vai dizer.   Nós ficamos por um tempo sem dizer nada um para o outro, ela me pediu para aguardar um pouco e entrou na casa, demorando no máximo uns cinco minutos, o que foi mais que necessário para eu entrar em desespero e achar que ela me deixou plantado.   É, eu estou perdendo o jeito. Me julguem, p***a, mas essa mulher está me desequilibrando.   — Desculpa a demora — ela disse em voz baixa, assim que saiu e eu notei uma coloração leve de batom em seus lábios.   — Esse batom é para mim tirar? — olhei sua boca sem um pingo de vergonha. Ela molhou os lábios e riu baixo.   — Vem, vamos dar uma volta — Sarah disse e me puxou para fora do quintal, notei sua mão mais gelada do que de costume e sorri.   Eu a deixo nervosa.   — Vai me levar para onde? — falei, enquanto caminhávamos pelo quarteirão.   — Nós vamos só andar por aqui, dispensei a babá e a Sun está dormindo.   — Vista panorâmica da rua, uau — zombei.   — Diga um lugar melhor — ela fingiu me desafiar.   — Para dentro de você seria uma boa — desci minha mão até sua cintura, parando no meio da calçada.   Sarah ficou sem cor, mesmo com a minha cantada super de m*l gosto e cheia de malícia ela ficou sem graça.   — Você está me obrigando, tá me deixando louco, Sarah. Eu não consigo dormir direito, só penso em você, escuto você gemer enquanto eu me imagino te fodendo com vontade… p***a, gata, eu não quero te assustar, mas o que eu quero dizer é…   — Eu estou apaixonada por você, Justin.   O que?   Fiquei petrificado, olhando para ela, sem falar nada pelos próximos minutos.   — Você sabe que não tem como nós ficarmos juntos, não sabe? Você é uma gostosa inteligente do c*****o, sabe de tudo um pouco, é formada… eu não sou ninguém, Sarah, não sou ninguém perto de você. Eu queria ouvir isso, mas… mas é grave porque nós não vamos conseguir ficar juntos.   — Nem se… deixa — ela engoliu em seco, negando com a cabeça — vai embora… a gente se vê outro dia, acho que você tem que voltar para o presídio.   — Sarah… — a puxei pelo braço — Você quer ficar comigo? Digo… você não vai esperar vinte anos por mim.   — Você não vai ficar vinte anos lá, eu disse que vou te tirar da cadeia e eu vou, Justin. Eu só preciso que você me conte o que aconteceu de verdade. Só isso.   Passei meu polegar pelo seu rosto e grudei nossos lábios, com ela dando início a um beijo. O qual eu retribuo com toda calma do mundo.   — Vem — Sarah cortou o beijo, caminhando em direção à entrada de sua casa e eu dei uma corridinha para acompanha-la — Madeline só ia colocar a Sun na cama e ir embora, o carro dela não está, pode entrar.   Assenti e entrei logo atrás, olhando em volta.   — Você está bem? — perguntei, enquanto ela subia um lance de escadas, dando a entender que queria que eu fosse atrás — quero dizer… — comecei a subir também — você disse que estava apaixonada por mim e age como se fosse normal.   — Por que não seria? — ela abriu uma porta e me puxou para dentro do cômodo, me fazendo rir.   — Que pressa é essa? — perguntei, rindo.   — Vou fazer você se lembrar — ela sussurrou e me puxou para perto, atacando-me com os lábios — Deus sabe quando vamos ter outra chance dessas.   Me fazer lembrar? Isso está estranho demais. Ela não vai simplesmente liberar assim.   — Isso é sério? — olhei ela tirar a roupa, começando a negar com a cabeça — Sarah, tem cinco anos que eu não faço nada… p***a… por que isso agora? Em?   — Eu preciso — em um pulo, ela estava nua na minha frente, mas eu não quis tirar minha roupa. Eu não posso.   — Tá fazendo isso para que eu te conte a verdade, não é? — cruzei meus braços, ficando sério.   É a maior tentação da minha vida, mas eu não sou i****a. Estamos esquecendo com quem ela está lidando.   Eu sou irredutível, ela quer a verdade. Quem garante que ela tenha falado a verdade quando disse que estava apaixonada por mim? Quem garante que ela sente as mesmas borboletas no estômago que eu sinto?   — Justin, eu quero você, pelo menos essa noite, para depois que você sair da cadeia nós…   Neguei com a cabeça e ela se auto interrompeu.   — A Liv tava certa. Você é uma psicóloga, vai fazer de tudo para conseguir o que quer. Tá mentindo. Olha a que ponto você chegou, Sarah, está se humilhando na minha frente, tudo isso para que eu diga o que aconteceu, não é?   Ela negou, vindo para perto de mim.   — Vai para o inferno, Montserrat.   — Você está ouvindo a Liv — ela disse com repúdio — olha para mim, p***a — Sarah segurou meu rosto — você já me viu nua antes! Já me tocou antes, que droga! Eu não estou te manipulando! O que te faz achar isso? A p***a das suas conclusões?!   — Do que você está falando? Enlouqueceu? Eu nunca toquei em você e espero continuar assim, Sarah! Eu nunca fiz nada com você, e mesmo querendo te comer agora, eu não vou, não vou fazer isso comigo, porque eu sei que você está usando isso ao seu favor. Você está aproveitando que eu estou na sua pra me tirar toda verdade e quer saber qual é?! — apertei seu rosto entre as minhas mãos, encostando-a na parede com força — Nicholas me estuprou, Sarah, não foi uma vez, foram muitas! Está feliz agora?! Eu sofria abuso, Sarah! — esmurrei a parede, ofegante.   — O que? — uma lágrima caiu de seu olho, desencadeando uma crise de choro em mim, eu ao menos me dei conta do que eu disse — Justin…   — Não fica perto de mim! — afastei seu corpo para o lado com brutalidade, tentando sair do quarto, mas ela se pôs na minha frente e me abraçou, chorando comigo.   — Eu… você… vai ficar tudo bem, eu juro.   — Não me faz lembrar daquilo, Sarah — eu estava implorando — por favor, não faz…   — Me desculpa…   — Não quero falar do que acontecia, não quero lembrar, por favor — eu disse tudo entre soluços, sentindo meu corpo fraquejar e meu coração quase parar de funcionar. O ar que estava em meus pulmões sumiu, tudo o que se ouvia no quarto eram os meus soluços, misturado com os dela.   — Não precisa lembrar, só me abraça, me abraça e vai tudo se acertar — mas eu já havia lembrado.   Eu não queria sair de casa naquela noite. Eu já não estava mais vendo esperança da porta para fora. As coisas estavam acontecendo debaixo do nariz da minha mãe e eu não sabia se ela fingia não perceber ou se não notava. Eu já não ia mais para a faculdade, a última festa que eu fui foi há uma semana, eu só me lembro de ter traído a Olívia com alguma p**a morena. Falando na Liv, eu ao menos dei uma satisfação para ela do meu sumiço. Eu não aguentava mais mentir para ela. Não aguentava mais falar que as marcas de surra no meu corpo eram má circulação ou brigas na faculdade.   Meu quarto estava trancado, as janelas fechadas, a televisão desligada. Eu precisava sumir daqui. Mas eu estava com medo de encontrar com ele no caminho.   Enfiei meu caderninho maldito embaixo do travesseiro, ouvindo a porta do quarto da minha mãe ranger.   — Tá acordado? Tô precisando da sua ajuda… — quando ouvi essa voz, apertei o lençol da cama e busquei meu celular com o olhar, eu precisava ligar para a polícia — abre a porta, Bieber — Nicholas socou a mesma com força, rindo alto — abre a porta, ou você quer que eu abra?!   Meu estômago estava revirando, há essa altura eu não conseguiria nem fugir pela janela. Meu corpo não estava funcionando desde a segunda vez em que ele… em que ele me violou nesse mês.   Assisti com medo e repúdio a porta se partir ao meio quando ele a atacou com um taco de baseball.   — Mãe! — gritei alto, me levantando com dores por todo meu corpo — Mãe! Mãe por favor, me ajuda!!   Eu sabia que ela estava ouvindo e não queria fazer nada.   Nicholas entrou no meu quarto e pegou meu violão, o jogando no chão.   Corri para pegá-lo, ele não podia simplesmente quebrar o que era o mais importante para mim naquela casa.   — Não é que ele vem… — debochou, segurando meu cabelo com força. Gritei alto pedindo ajuda, tentei pegar meu celular para ligar para os meus avós. Era vergonhoso para mim. Eu era magro, Nicholas parecia um lutador de UFC.   — Me solta, filho da p**a! — o empurrei, mas não adiantou muita coisa. Nicholas quebrou o violão nas minhas costas, eu não conseguia ao menos sair do chão.   Ele se aproximava de mim cada vez mais repugnante. Tentei rastejar para fora do quarto, mas eu já estava mais do que machucado. Os outros dias ele me deixou desacordado de tanta pancada. Eu só estava em casa aquela tarde para fazer o que eu devia ter feito há meses.   — Mãe! — insisti, chutando o cara que me olhava como se eu fosse uma criança indefesa jogada no chão — Não faça, por favor…   — Fazer o que? — então, ele me levantou do chão, enfiando a mão dentro das minhas calças e apertou ali com tanta força, que meu suor começou a escorrer e a dor entre minhas pernas paralisaram as mesmas — você não gosta? — Meu padrasto cuspiu no meu rosto, espalmando minha b***a — tem certeza? Eu posso te fazer gostar.   Eu tinha nojo do meu próprio quarto, do jeito que ele afundava minha cabeça no colchão, quase quebrando meu pescoço, me assistindo morrer de dor totalmente nu.   Todas as vezes que isso acontecia, ele não tentava entrar em mim, mas eu o ouvia do meu lado se masturbando, gemendo meu nome como se fosse o ato mais prazeroso do mundo. Nicholas se excitava ao ver meu corpo surrado, ao me ouvir gritando. Muitas vezes ele fazia questão de tentar enfiar o genital na minha boca, mas ele nunca conseguiu.   Mas da última vez que ele quis me tocar foi diferente.   Ouvi ele rasgar uma camisinha e aí sim me desesperei como nunca. Eu estava farto, não sei como essa força surgiu. Com certeza Deus me mandou ela e me fez lembrar que eu escondi uma faca embaixo do meu colchão há anos, quando eu morria de medo de monstros dos filmes que eu assistia e a escondi ali para me proteger. O verdadeiro monstro chegou aqui há um ano.   Antes eu tivesse sido morto por um demônio.   Eu não pensei em mais nada, eu já havia sofrido demais. Passei a duvidar da existência de um deus quando isso começou a acontecer comigo. Estiquei meu braço, rezei para alguma força que eu conseguisse me defender. Minhas pernas estavam mantendo Hank longe, apanhei a faca e me virei bruscamente na cama, acertando sua virilha de forma certeira. Quando ele gritou de dor, foi como um estímulo para mim, comecei a socá-lo com tanta força, fazendo-o cair no chão com a faca grudada na virilha. Minha mãe apareceu na porta, eu a odiei naquele momento. Meus gritos não a chamaram, os dele sim.   Eu juro que afundei o nariz dele para dentro quando pisei em sua cara. Ele gritava tão alto que meu ouvido doía.   Apanhei a faca mais uma vez e olhei minha mãe, começando a esfaqueá-lo com ira. Era novo para eu assassinar alguém, mas aquilo estava sendo bom demais. Eu estava me vingando.   Abri a barriga dele a facadas, minha mãe lutava para me tirar de cima dele.   Eu só parei de cortar o corpo, quando ouvi minha mãe correr para sala e chamar a polícia.   Não tenho ideia de quanto tempo eu fiquei fazendo aquilo, mas eu consegui arrancar os genitais e depois disso, vesti minha calça, saindo pelos fundos.   A imagem do corpo ensanguentado no chão ficou gravada em minha mente. Eu estava feliz. Eu tinha me libertado.   Em quarenta minutos, me tiraram da cama da minha namorada e eu fui preso. Não consigo pensar em detalhes, pois eles me trariam ainda mais loucura. Mas eu lembro o suficiente para ter nojo de mim mesmo.   Lembro da voz dele, das surras, de cada palavra imunda, das mentiras que eu contava para a minha namorada, das vezes que a minha mãe não fez nada. Eu lembro de muita coisa que me traz dor.   Eu ainda estou apoiado nela, soluçando sem parar, Sarah parece ter me segurado com a força de um urso.   — Vai ficar tudo bem, vamos resolver…   — Você não entende… vai ser vergonhoso eu assumir o que aconteceu, Sarah… não dá. Não dá para lembrar do que aconteceu, ainda tem coisas que eu nunca vou querer recordar.   — Eu sei, eu sei…, mas eu vou…   — Você vai ficar longe de mim — saí de seu quarto, vendo a filha dela caminhar pelo corredor, me olhando fixamente — Adeus, Sun.   — Justin! — Sarah saiu do quarto, num roupão — a gente precisa conversar.   — Vá para o inferno, Sarah.   — Você tem que me ouvir, você é o…   — Eu não quero saber de você nunca mais, não quero assumir o que eu passei, não quero m torturar, não vou. Eu gosto de você, Sarah, mas eu não quero estar com mais ninguém, nunca mais.   E foi assim que eu saí da vida dela. Foi assim que eu pensei em tirar a minha vida.  
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