O Passado Cobra

1042 Palavras
O passado não bate à porta. Ele retorna pelos cantos. Não avisa. Não pede licença. Apenas começa a aparecer onde antes havia silêncio. Foi assim que percebi que algo tinha mudado de forma definitiva. Não em Arthur. No mundo ao redor dele. A primeira rachadura veio de fora. Arthur chegou em casa mais cedo do que o normal, o rosto tenso, os movimentos duros demais para quem tentava parecer tranquilo. Jogou o celular sobre a mesa e passou a mão pelos cabelos, inquieto. — Estão me pressionando — disse, sem rodeios. — Quem? — perguntei. — Pessoas antigas. — Antigas como o quê? — insisti. Ele me encarou por um instante longo demais. — Antigas como o passado — respondeu. Não disse mais nada. Não precisava. O tom bastava. Naquela mesma noite, recebi uma ligação inesperada. Número desconhecido. Atendi. — Damiana Alencar? — a voz masculina perguntou. — Sim. — Meu nome é Raul Menezes. Trabalhei com o pai do Arthur. Meu corpo ficou alerta, mas mantive a voz firme. — Em que posso ajudar? — Talvez seja eu quem precise — respondeu. — Ou talvez seja a senhora. — Por quê? — Porque o tempo passou — ele disse —, e algumas dívidas não foram pagas. Desliguei com o coração acelerado, não de medo, mas de confirmação. O passado tinha começado a falar. Arthur percebeu meu silêncio diferente. — Aconteceu alguma coisa? — perguntou. — Aconteceu — respondi. — O que vocês enterraram começou a se mexer. Ele fechou a expressão. — Quem te ligou? — Alguém que vocês esqueceram de apagar — falei. Arthur se levantou. — Não atenda números desconhecidos. — Agora você quer controlar até quem liga? — Isso é sério. — Sempre foi — respondi. Nos dias seguintes, as pressões aumentaram. Arthur passou a receber visitas inesperadas no escritório. Conversas longas, portas fechadas, advogados indo e vindo com frequência exagerada. A tranquilidade artificial tinha acabado. Helena ligava todos os dias. — Você perdeu o pulso — dizia, sem rodeios. — Eles estão sentindo fraqueza. — Não é fraqueza — Arthur retrucava. — É contenção. — Contenção não funciona quando o passado encontra voz. Arthur desligava sempre mais irritado. Uma tarde, ele chegou transtornado. — Estão ameaçando expor coisas — disse. — Coisas que não existem mais. — Não existem nos papéis — respondi. — Mas existiram na vida de alguém. — Você não entende como isso funciona. — Eu entendo que quem cala compra tempo — falei. — Mas o tempo cobra juros. Arthur respirou fundo. — Isso não pode virar escândalo. — Escândalos nascem quando se tenta esconder demais — respondi. Ele me encarou, exausto. — Você parece calma demais para alguém no meio disso. — Porque eu não sou o alvo — respondi. — Nunca fui. — Você está dentro disso. — Não — falei. — Eu estou do lado de fora olhando. Arthur se afastou. Bianca ligou naquela noite. — Eles estão falando com pessoas antigas — disse, apavorada. — Pessoas que odiavam a família. — Pessoas que foram prejudicadas — corrigi. — Eles querem dinheiro. — Eles querem justiça — respondi. — Arthur vai pagar para calar. — Pagar não apaga — falei. — Só adia. Bianca respirou fundo. — Helena está furiosa. — Helena sempre fica quando perde o controle — respondi. No dia seguinte, o primeiro sinal público apareceu. Uma matéria pequena, quase invisível, em um portal econômico secundário. Nada explícito. Apenas uma nota curta sobre “reavaliações internas” e “questionamentos antigos” envolvendo empresas que tinham ligação com o grupo Alencar. Arthur viu a matéria no café da manhã. — Isso é plantado — disse, irritado. — Nada é plantado sem solo — respondi. Ele jogou o jornal sobre a mesa. — Você está gostando disso? — Não — respondi. — Estou entendendo. — Entendendo o quê? — Que o passado não cobra vingança — falei. — Cobra reconhecimento. Arthur passou o dia inteiro fora. Quando voltou, estava diferente. Menos arrogante. Mais tenso. — Eles querem acordo — disse. — Quem? — Gente que perdeu tudo — respondeu. — Querem dinheiro. Silêncio. — E você vai dar? — Se for preciso. — E depois? — perguntei. — Vai pagar quantas vezes? Arthur ficou em silêncio. — Você não pode consertar o passado com cheques — falei. — Eu posso evitar que isso destrua o futuro. — Futuro construído sobre mentira não se sustenta — respondi. Ele se levantou bruscamente. — Você fala como se estivesse torcendo para tudo ruir. — Eu falo como alguém que cansou de sustentar fachada — retruquei. Arthur parou, respirando com dificuldade. — Você não faz ideia do que isso pode causar. — Eu faço — respondi. — Porque estou grávida e não vou criar um filho dentro de um castelo de areia. A frase o atingiu em cheio. Naquela noite, Helena veio. Entrou como uma tempestade silenciosa. — Você deixou isso sair do controle — disse a Arthur. — Não deixei — ele respondeu. — Está sendo administrado. — Administrado m*l — ela rebateu. — Já estão farejando. — Quem? — Gente que foi esmagada — Helena disse. — E gente que odeia essa família. — Vocês criaram inimigos — falei. — Não foi azar. Helena me encarou com desprezo. — Você está se aproveitando. — Eu estou sobrevivendo — respondi. — Se isso vier à tona, você cai junto — ela alertou. — Eu já caí — falei. — A diferença é que levantei sem mentir para mim. Helena respirou fundo. — Arthur, você precisa decidir — disse. — Ou controla isso agora, ou perde tudo. — Controlar não é mais opção — respondi. — Agora é lidar. Arthur fechou os olhos. — O passado está cobrando — disse, finalmente. — E não aceita parcelamento. Naquela madrugada, acordei com o bebê se mexendo forte. Não de dor. De vida. Coloquei a mão sobre a barriga e respirei fundo. — Eles sentiram — sussurrei. — Você também sente. Arthur dormia m*l, murmurando palavras desconexas. O império que ele acreditava inabalável estava tremendo por algo que sempre esteve ali. O passado não esquece. Não perdoa. Não negocia com aparência. Ele cobra. E quando começa a cobrar… ninguém mais consegue fingir que não ouviu.
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