O passado não bate à porta.
Ele retorna pelos cantos.
Não avisa. Não pede licença. Apenas começa a aparecer onde antes havia silêncio. Foi assim que percebi que algo tinha mudado de forma definitiva. Não em Arthur. No mundo ao redor dele.
A primeira rachadura veio de fora.
Arthur chegou em casa mais cedo do que o normal, o rosto tenso, os movimentos duros demais para quem tentava parecer tranquilo. Jogou o celular sobre a mesa e passou a mão pelos cabelos, inquieto.
— Estão me pressionando — disse, sem rodeios.
— Quem? — perguntei.
— Pessoas antigas.
— Antigas como o quê? — insisti.
Ele me encarou por um instante longo demais.
— Antigas como o passado — respondeu.
Não disse mais nada. Não precisava. O tom bastava.
Naquela mesma noite, recebi uma ligação inesperada.
Número desconhecido.
Atendi.
— Damiana Alencar? — a voz masculina perguntou.
— Sim.
— Meu nome é Raul Menezes. Trabalhei com o pai do Arthur.
Meu corpo ficou alerta, mas mantive a voz firme.
— Em que posso ajudar?
— Talvez seja eu quem precise — respondeu. — Ou talvez seja a senhora.
— Por quê?
— Porque o tempo passou — ele disse —, e algumas dívidas não foram pagas.
Desliguei com o coração acelerado, não de medo, mas de confirmação. O passado tinha começado a falar.
Arthur percebeu meu silêncio diferente.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou.
— Aconteceu — respondi. — O que vocês enterraram começou a se mexer.
Ele fechou a expressão.
— Quem te ligou?
— Alguém que vocês esqueceram de apagar — falei.
Arthur se levantou.
— Não atenda números desconhecidos.
— Agora você quer controlar até quem liga?
— Isso é sério.
— Sempre foi — respondi.
Nos dias seguintes, as pressões aumentaram. Arthur passou a receber visitas inesperadas no escritório. Conversas longas, portas fechadas, advogados indo e vindo com frequência exagerada. A tranquilidade artificial tinha acabado.
Helena ligava todos os dias.
— Você perdeu o pulso — dizia, sem rodeios. — Eles estão sentindo fraqueza.
— Não é fraqueza — Arthur retrucava. — É contenção.
— Contenção não funciona quando o passado encontra voz.
Arthur desligava sempre mais irritado.
Uma tarde, ele chegou transtornado.
— Estão ameaçando expor coisas — disse. — Coisas que não existem mais.
— Não existem nos papéis — respondi. — Mas existiram na vida de alguém.
— Você não entende como isso funciona.
— Eu entendo que quem cala compra tempo — falei. — Mas o tempo cobra juros.
Arthur respirou fundo.
— Isso não pode virar escândalo.
— Escândalos nascem quando se tenta esconder demais — respondi.
Ele me encarou, exausto.
— Você parece calma demais para alguém no meio disso.
— Porque eu não sou o alvo — respondi. — Nunca fui.
— Você está dentro disso.
— Não — falei. — Eu estou do lado de fora olhando.
Arthur se afastou.
Bianca ligou naquela noite.
— Eles estão falando com pessoas antigas — disse, apavorada. — Pessoas que odiavam a família.
— Pessoas que foram prejudicadas — corrigi.
— Eles querem dinheiro.
— Eles querem justiça — respondi.
— Arthur vai pagar para calar.
— Pagar não apaga — falei. — Só adia.
Bianca respirou fundo.
— Helena está furiosa.
— Helena sempre fica quando perde o controle — respondi.
No dia seguinte, o primeiro sinal público apareceu.
Uma matéria pequena, quase invisível, em um portal econômico secundário. Nada explícito. Apenas uma nota curta sobre “reavaliações internas” e “questionamentos antigos” envolvendo empresas que tinham ligação com o grupo Alencar.
Arthur viu a matéria no café da manhã.
— Isso é plantado — disse, irritado.
— Nada é plantado sem solo — respondi.
Ele jogou o jornal sobre a mesa.
— Você está gostando disso?
— Não — respondi. — Estou entendendo.
— Entendendo o quê?
— Que o passado não cobra vingança — falei. — Cobra reconhecimento.
Arthur passou o dia inteiro fora. Quando voltou, estava diferente. Menos arrogante. Mais tenso.
— Eles querem acordo — disse.
— Quem?
— Gente que perdeu tudo — respondeu. — Querem dinheiro. Silêncio.
— E você vai dar?
— Se for preciso.
— E depois? — perguntei. — Vai pagar quantas vezes?
Arthur ficou em silêncio.
— Você não pode consertar o passado com cheques — falei.
— Eu posso evitar que isso destrua o futuro.
— Futuro construído sobre mentira não se sustenta — respondi.
Ele se levantou bruscamente.
— Você fala como se estivesse torcendo para tudo ruir.
— Eu falo como alguém que cansou de sustentar fachada — retruquei.
Arthur parou, respirando com dificuldade.
— Você não faz ideia do que isso pode causar.
— Eu faço — respondi. — Porque estou grávida e não vou criar um filho dentro de um castelo de areia.
A frase o atingiu em cheio.
Naquela noite, Helena veio.
Entrou como uma tempestade silenciosa.
— Você deixou isso sair do controle — disse a Arthur.
— Não deixei — ele respondeu. — Está sendo administrado.
— Administrado m*l — ela rebateu. — Já estão farejando.
— Quem?
— Gente que foi esmagada — Helena disse. — E gente que odeia essa família.
— Vocês criaram inimigos — falei. — Não foi azar.
Helena me encarou com desprezo.
— Você está se aproveitando.
— Eu estou sobrevivendo — respondi.
— Se isso vier à tona, você cai junto — ela alertou.
— Eu já caí — falei. — A diferença é que levantei sem mentir para mim.
Helena respirou fundo.
— Arthur, você precisa decidir — disse. — Ou controla isso agora, ou perde tudo.
— Controlar não é mais opção — respondi. — Agora é lidar.
Arthur fechou os olhos.
— O passado está cobrando — disse, finalmente. — E não aceita parcelamento.
Naquela madrugada, acordei com o bebê se mexendo forte. Não de dor. De vida. Coloquei a mão sobre a barriga e respirei fundo.
— Eles sentiram — sussurrei. — Você também sente.
Arthur dormia m*l, murmurando palavras desconexas. O império que ele acreditava inabalável estava tremendo por algo que sempre esteve ali.
O passado não esquece.
Não perdoa.
Não negocia com aparência.
Ele cobra.
E quando começa a cobrar…
ninguém mais consegue fingir que não ouviu.