Lucien Bellamy
Cordélia não exagerou ao falar das marcas de cicatrizes na Elisie.
Ao ver tudo com os meus próprios olhos, só pude concluir uma coisa: alguém a espancou com covardia, violência e sem intervalo entre uma surra e outra. Nem eu, que passei anos lidando com guerras internas da máfia, passei um inferno com o treinamento e mais coisas tenho tantas marcas assim.
E saber que foi a própria mãe dela… isso só deixa tudo ainda mais absurdo.
Não é comum termos esse tipo de caso circulando entre nós. Muito menos feito por mulheres. Agora entendo muito melhor a forma amedrontada dela, a rigidez nos ombros, o jeito dela sempre se cobrindo. Faz sentido.
Mas ela supera.
Eu sei disso.
Respiro fundo enquanto ajusto os punhos da minha camisa social. Já estou pronto para a ida à Sede da máfia, localizada em Centre-Val de Loire. Uma região repleta de castelos históricos e um deles é nosso ponto central de negociações, encontros e decisões de conselho. Algo bem afastado do centro.
Como moro no centro de Paris, ou quase isso, preciso de um meio rápido para chegar. Por isso uso o meu helicóptero. Louis e Vincent me acompanham, já devidamente avisados sobre a urgência. Também já notifiquei os conselheiros. Não vou adiar nada.
Hoje, eles vão ouvir os meus planos.
E não vou recuar.
— Então, como vai começar essa reunião? — Louis pergunta enquanto ajusta o cinto. — Tem provas concretas de tudo?
— Tenho. — Respondo sem hesitar. — E, por incrível que pareça, foi a própria Elisie quem investigou tudo.
Vincent ergue as sobrancelhas.
— E ela te contou tudo assim, de bandeja? — Aceno. — Corajosa... gostei! Eu nunca vi isso...
Louis ri baixo.
O helicóptero começa a ganhar altura, e o barulho das hélices encobre as nossas primeiras palavras. A paisagem de Paris vai se tornando pequena, distante, cinza. Dentro, conversamos como sempre: diretos e sem floreios.
Eles são curiosos, e acabo contando como tudo aconteceu: como a Elisie armou para pegar Henri e Vivienne, como aguardou o momento perfeito, como juntou provas concretas sem ninguém desconfiar. Louis fica surpreso. Vincent também.
E, sinceramente, eu também fiquei.
Recordar o olhar dela, tão firme e ao mesmo tempo tão destruído por dentro, me deixa com uma sensação incômoda. Aquela mulher fez o que quase nenhuma faria. Muitos homens traem as esposas e poucas fazem algo além de chorar.
Ela fez.
Talvez seja isso que me faz manter essa decisão.
Apesar de querer uma esposa consciente das regras, também não quero um peso.
A viagem dura pouco mais de quarenta minutos. Quando o helicóptero pousa no espaço reservado ao conselho, somos rapidamente recebidos por seguranças. Um dos conselheiros, Moreau, vem até mim com pressa, como se temesse que eu explodisse a qualquer momento.
— Senhor Bellamy. — Ele diz, fazendo uma reverência curta. — A sala está preparada.
— Ótimo. — Respondo e sigo adiante.
O castelo, com seus corredores enormes e paredes de pedra antiga, ecoa cada passo nosso. O som é grave, pesado, quase solene. E eu gosto disso. Traz respeito.
A sala de reuniões está como deveria: uma mesa oval imensa, cadeiras alinhadas, dossiês organizados como se alguém tivesse ensaiado. Não espero ninguém se ajeitar. Assim que entro, me posiciono na cabeceira e chamo a atenção de todos.
— Vamos começar.
Os conselheiros se ajeitam. O pai de Vivienne, Alphonse Delacroix, está presente. Pálido, apreensivo, desconfiado. Ele não sabe de nada. Ainda. Mas, deve ter tentado contato com a filha sem sucesso.
Louis se senta à minha direita. Vincent, à esquerda.
Toco o tampo da mesa com os dedos e começo.
— Não vou fazer rodeios e da forma que não vou gastar o tempo de vocês, não vou gastar o meu. — Digo. — Vivienne está morta.
A sala muda de temperatura. Alphonse empalidece por completo, como se o sangue tivesse sido drenado do corpo. Ele leva a mão à boca e engasga com o ar.
— O quê...? — A voz dele falha. — Minha… minha filha…?
— Mortä. — Repito sem desviar o olhar. — E isso aconteceu porque ela estava me traindo com Henri Dumas.
Um dos conselheiros solta um suspiro horrorizado. Outros arregalam os olhos.
Alphonse se apoia na mesa, cambaleando.
— Isso não… isso não pode estar certo. — Ele balbucia. — Você… você deveria ao menos ter me deixado falado com ela!
— Traidores não têm voz e nunca tiveram. — Respondo, firme. — Ela sabia das regras. Sabia das consequências e escolheu quebrá-las. Eu apenas fiz o que qualquer homem traído faria e o que qualquer líder faria.
Alphonse leva as duas mãos à cabeça. Ele não ataca, não avança, mas sua dor é tão evidente que a sala inteira fica tensa.
— Não… não, minha filha… — Ele murmura, com a voz quebrada.
Ninguém se aproxima dele, mas o silêncio pesa.
— E agora, indo ao ponto que realmente importa: eu preciso de uma nova esposa. E, para evitar conflitos, desgaste e mais trabalho desnecessário, eu já escolhi a mulher com quem vou me casar.
Um conselheiro mais velho arqueia as sobrancelhas.
— E quem seria essa mulher?
— Elisie Charpentier. Viúva de Henri.
O silêncio se rompe em murmúrios imediatos. Olhares se cruzam. Dois conselheiros se inclinam para frente.
— Isso é loucura! — Um deles exclama. — Como pode unir desse jeito? Isso não faz sentido algum, Bellamy! A sua esposa precisa ser uma moça... uma virgem!
Eu ergo o olhar, frio.
— A decisão é minha. — Afirmo. — Depois de terem me dado uma esposa imprestável que não soube cumprir seu papel, é o mínimo que posso fazer: escolher a próxima.
— Lucien. — Louis intervém, com um tom diplomático. — Vamos manter a calma.
Mas minha calma está intacta. Eu estou exatamente como devo estar.
— Já decidi. — Reforço, cada palavra marcada. — E não vou admitir interferência. O casamento será em uma semana. E todos vocês estarão presentes mostrando apoio... já deu o que tinha que dar e não vou mudar de ideia.
Vincent se inclina, observando os conselheiros com atenção. Louis apenas respira fundo, tentando suavizar a tensão, mas sem discordar de mim.
Alphonse, ainda abalado, ergue o rosto lentamente.
— Você matou a minha filha… e agora… agora quer que eu aceite isso calado…? — Pergunta, com a voz embargada.
— Não “quero”, Alphonse. — Digo, firme. — Exijo. A falta de caráter da sua filha é culpa sua e de sua esposa! Eu não sou o único na organização que devo ter palavra em qualquer circunstância.
Isso é um fato!
O homem cerra os olhos, mas não reage. Ele não tem coragem e nem força de me enfrentar. Ele sabe quem eu sou. Sabe do que sou capaz. E sabe que, se insistir, perde mais do que já perdeu.
Os conselheiros se entreolham. Alguns claramente discordam, mas nenhum ousa me desafiar de verdade.
Eu decido encerrar.
— A reunião está finalizada. Me aguardem para a assinatura dos documentos. Tenho muito trabalho a fazer e não se esqueçam... sete dias!
E me levanto, impondo o fim da discussão.
A decisão é minha e ninguém vai me fazer mudar de ideia.