CAP 15

1207 Palavras
Lucien Bellamy Cordélia não exagerou ao falar das marcas de cicatrizes na Elisie. Ao ver tudo com os meus próprios olhos, só pude concluir uma coisa: alguém a espancou com covardia, violência e sem intervalo entre uma surra e outra. Nem eu, que passei anos lidando com guerras internas da máfia, passei um inferno com o treinamento e mais coisas tenho tantas marcas assim. E saber que foi a própria mãe dela… isso só deixa tudo ainda mais absurdo. Não é comum termos esse tipo de caso circulando entre nós. Muito menos feito por mulheres. Agora entendo muito melhor a forma amedrontada dela, a rigidez nos ombros, o jeito dela sempre se cobrindo. Faz sentido. Mas ela supera. Eu sei disso. Respiro fundo enquanto ajusto os punhos da minha camisa social. Já estou pronto para a ida à Sede da máfia, localizada em Centre-Val de Loire. Uma região repleta de castelos históricos e um deles é nosso ponto central de negociações, encontros e decisões de conselho. Algo bem afastado do centro. Como moro no centro de Paris, ou quase isso, preciso de um meio rápido para chegar. Por isso uso o meu helicóptero. Louis e Vincent me acompanham, já devidamente avisados sobre a urgência. Também já notifiquei os conselheiros. Não vou adiar nada. Hoje, eles vão ouvir os meus planos. E não vou recuar. — Então, como vai começar essa reunião? — Louis pergunta enquanto ajusta o cinto. — Tem provas concretas de tudo? — Tenho. — Respondo sem hesitar. — E, por incrível que pareça, foi a própria Elisie quem investigou tudo. Vincent ergue as sobrancelhas. — E ela te contou tudo assim, de bandeja? — Aceno. — Corajosa... gostei! Eu nunca vi isso... Louis ri baixo. O helicóptero começa a ganhar altura, e o barulho das hélices encobre as nossas primeiras palavras. A paisagem de Paris vai se tornando pequena, distante, cinza. Dentro, conversamos como sempre: diretos e sem floreios. Eles são curiosos, e acabo contando como tudo aconteceu: como a Elisie armou para pegar Henri e Vivienne, como aguardou o momento perfeito, como juntou provas concretas sem ninguém desconfiar. Louis fica surpreso. Vincent também. E, sinceramente, eu também fiquei. Recordar o olhar dela, tão firme e ao mesmo tempo tão destruído por dentro, me deixa com uma sensação incômoda. Aquela mulher fez o que quase nenhuma faria. Muitos homens traem as esposas e poucas fazem algo além de chorar. Ela fez. Talvez seja isso que me faz manter essa decisão. Apesar de querer uma esposa consciente das regras, também não quero um peso. A viagem dura pouco mais de quarenta minutos. Quando o helicóptero pousa no espaço reservado ao conselho, somos rapidamente recebidos por seguranças. Um dos conselheiros, Moreau, vem até mim com pressa, como se temesse que eu explodisse a qualquer momento. — Senhor Bellamy. — Ele diz, fazendo uma reverência curta. — A sala está preparada. — Ótimo. — Respondo e sigo adiante. O castelo, com seus corredores enormes e paredes de pedra antiga, ecoa cada passo nosso. O som é grave, pesado, quase solene. E eu gosto disso. Traz respeito. A sala de reuniões está como deveria: uma mesa oval imensa, cadeiras alinhadas, dossiês organizados como se alguém tivesse ensaiado. Não espero ninguém se ajeitar. Assim que entro, me posiciono na cabeceira e chamo a atenção de todos. — Vamos começar. Os conselheiros se ajeitam. O pai de Vivienne, Alphonse Delacroix, está presente. Pálido, apreensivo, desconfiado. Ele não sabe de nada. Ainda. Mas, deve ter tentado contato com a filha sem sucesso. Louis se senta à minha direita. Vincent, à esquerda. Toco o tampo da mesa com os dedos e começo. — Não vou fazer rodeios e da forma que não vou gastar o tempo de vocês, não vou gastar o meu. — Digo. — Vivienne está morta. A sala muda de temperatura. Alphonse empalidece por completo, como se o sangue tivesse sido drenado do corpo. Ele leva a mão à boca e engasga com o ar. — O quê...? — A voz dele falha. — Minha… minha filha…? — Mortä. — Repito sem desviar o olhar. — E isso aconteceu porque ela estava me traindo com Henri Dumas. Um dos conselheiros solta um suspiro horrorizado. Outros arregalam os olhos. Alphonse se apoia na mesa, cambaleando. — Isso não… isso não pode estar certo. — Ele balbucia. — Você… você deveria ao menos ter me deixado falado com ela! — Traidores não têm voz e nunca tiveram. — Respondo, firme. — Ela sabia das regras. Sabia das consequências e escolheu quebrá-las. Eu apenas fiz o que qualquer homem traído faria e o que qualquer líder faria. Alphonse leva as duas mãos à cabeça. Ele não ataca, não avança, mas sua dor é tão evidente que a sala inteira fica tensa. — Não… não, minha filha… — Ele murmura, com a voz quebrada. Ninguém se aproxima dele, mas o silêncio pesa. — E agora, indo ao ponto que realmente importa: eu preciso de uma nova esposa. E, para evitar conflitos, desgaste e mais trabalho desnecessário, eu já escolhi a mulher com quem vou me casar. Um conselheiro mais velho arqueia as sobrancelhas. — E quem seria essa mulher? — Elisie Charpentier. Viúva de Henri. O silêncio se rompe em murmúrios imediatos. Olhares se cruzam. Dois conselheiros se inclinam para frente. — Isso é loucura! — Um deles exclama. — Como pode unir desse jeito? Isso não faz sentido algum, Bellamy! A sua esposa precisa ser uma moça... uma virgem! Eu ergo o olhar, frio. — A decisão é minha. — Afirmo. — Depois de terem me dado uma esposa imprestável que não soube cumprir seu papel, é o mínimo que posso fazer: escolher a próxima. — Lucien. — Louis intervém, com um tom diplomático. — Vamos manter a calma. Mas minha calma está intacta. Eu estou exatamente como devo estar. — Já decidi. — Reforço, cada palavra marcada. — E não vou admitir interferência. O casamento será em uma semana. E todos vocês estarão presentes mostrando apoio... já deu o que tinha que dar e não vou mudar de ideia. Vincent se inclina, observando os conselheiros com atenção. Louis apenas respira fundo, tentando suavizar a tensão, mas sem discordar de mim. Alphonse, ainda abalado, ergue o rosto lentamente. — Você matou a minha filha… e agora… agora quer que eu aceite isso calado…? — Pergunta, com a voz embargada. — Não “quero”, Alphonse. — Digo, firme. — Exijo. A falta de caráter da sua filha é culpa sua e de sua esposa! Eu não sou o único na organização que devo ter palavra em qualquer circunstância. Isso é um fato! O homem cerra os olhos, mas não reage. Ele não tem coragem e nem força de me enfrentar. Ele sabe quem eu sou. Sabe do que sou capaz. E sabe que, se insistir, perde mais do que já perdeu. Os conselheiros se entreolham. Alguns claramente discordam, mas nenhum ousa me desafiar de verdade. Eu decido encerrar. — A reunião está finalizada. Me aguardem para a assinatura dos documentos. Tenho muito trabalho a fazer e não se esqueçam... sete dias! E me levanto, impondo o fim da discussão. A decisão é minha e ninguém vai me fazer mudar de ideia.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR