SAYURI
Eu tinha dez anos quando o meu mundo acabou.
Não foi bonito, não foi sereno, não teve música de fundo nem anjinho levando ele pro céu. Foi um estrondo de metal retorcido na Marginal Pinheiros, numa segunda-feira de chuva grossa que transformava o asfalto num espelho preto.
O caminhão desceu desgovernado, sem freio, e pegou o Corolla do meu pai em cheio. Arrastou ele — talvez ainda vivo — por quarenta e dois metros.
Quarenta e dois.
Eu sei porque li o jornal que a minha mãe guardava, quando eu já era grande demais pra fingir que não entendia.
Eu estava na aula de matemática, tentando desenhar um coração no canto da folha, quando a diretora bateu na porta.
— Sayuri Souza Lee, vem comigo. — Só isso.
O jeito que ela disse meu nome já me gelou o sangue.
Criança sente. Criança sabe.
Minha mãe apareceu no portão da escola vinte minutos depois. Eu vi de longe: o carro estacionado todo torto na vaga exclusiva para deficientes, — ela não é deficiente — vi ela saindo sem trancar, correndo com o salto afundando na poça. Quando me abraçou, senti o cheiro de cigarro e desespero. Ela tremia tanto que os dentes dela batiam alto no meu ouvido.
— Seu pai… seu pai… — e não conseguiu terminar.
Mas eu sabia, ela não precisava usar a palavra devastadora.
Só me apertou até eu achar que ia quebrar. Eu não chorei. Ainda não.
Acho que meu corpo guardou todas as lágrimas pra depois, como quem enche um copo até transbordar.
No velório eu fiquei o tempo todo de mãos dadas com a minha mãe, olhando pro rosto dele dentro do caixão. Tava inchado, roxo nas laterais, um corte na testa costurado torto.
Não parecia ele.
Parecia um boneco quebrado que alguém tentou colar errado. Usei o vestidinho azul que ele amava, aquele que ele me levantava pra me rodar na sala e gritava animado:
— Minha bonequinha japonesa!
A última vez que ele pediu pra eu usar o vestido, eu tinha dito que não era mais uma bonequinha, que já era grande pra usar aquele vestido.
Eu queria que ele abrisse o olho só uma vez, só pra ver que eu tinha colocado o vestido. Com certeza ele ia rir e me pegar no colo.
Mas ele não abriu.
Nunca mais abriu.
No enterro eu não chorei. Fiquei parada, de pé na terra molhada, vendo o caixão descer devagarinho. Alguém jogou uma rosa branca em cima do caixão. A flor bateu na tampa e escorregou.
Eu pensei: acabou.
Acabou o “princesa” de manhã cedo, acabou o cheiro de café com pão na chapa que ele fazia cantando Roberto Carlos desafinado, acabou o colo que cabia o mundo inteiro. Eu fiquei ali, pequena, com o vestido azul sujo de lama na barra, sentindo o buraco abrir dentro do peito. Um buraco que nunca mais fechou direito.
Depois disso minha mãe virou outra pessoa. Ou talvez só estava sendo quem sempre foi quando ele não estava olhando, mas agora em tempo integral. Começou com vinho nas noites, depois cachaça no almoço.
Gritava comigo e me batia por qualquer coisa: prato sujo, nota baixa, por eu rir alto demais. Trazia homem pra casa. Eu ouvia tudo. A cama rangendo, os gemidos, o cheiro de perfume barato que ficava no corredor. Eu tapava a cabeça com o travesseiro que ainda tinha o cheiro do meu pai e mordia o pano pra não gritar.
Às vezes batia nojo.
Às vezes só uma dor tão funda que eu achava que ia morrer ali mesmo, debaixo do cobertor, segurando.
Eu só queria meu pai de volta.
Só isso.
Queria entrar em casa e ouvir ele gritando animado:
— Oi, minha princesa!
Queria que ele me levantasse no colo mesmo eu já estando grande demais. Queria que ele estivesse vivo pra me proteger da minha própria mãe que a morte dele tinha destruído.
Eu tinha dez anos e, de uma hora pra outra, fiquei sozinha no mundo.
Um ano depois, eu com onze anos, quase doze, minha mãe chegou em casa com duas malas grandes e falou assim, do nada:
— Sayuri, arruma tuas coisas. A gente vai pro Rio. Aqui não tem mais nada pra gente.
Eu olhei pra ela sem entender nada.
— Rio de Janeiro? Tipo Copacabana?
Ela deu uma risada seca, daquela que não tem graça nenhuma.
— Copacabana uma ova. A gente vai recomeçar, filha. Lá tem oportunidade, tem praia, tem sol. Aqui só tem conta pra pagar e lembrança r**m.
Eu sabia que não era mentira.
A gente tava devendo aluguel, luz cortada, telefone cortado. O carro ela já tinha vendido pra pagar não sei o quê. Rio não era sonho, era fuga.
Mas eu era criança, né? Não tinha escolha. Peguei minha mochila da Hello Kitty, enfiei umas coisas minhas, canetas, cadernos, pulseiras e o ursinho de pelúcia que meu pai tinha me dado no último Natal.
Foi só isso que peguei, enquanto minha mãe fez nossas malas.
A viagem de ônibus foi um inferno.
Foram umas sete horas sentada do lado de um cara que roncava e babava no meu ombro. Minha mãe ficou o tempo todo no celular, falando com não sei quem, rindo alto, dizendo que “agora a vida ia mudar”. Eu só olhava pela janela e tentava imaginar como seria o mar de perto.
Eu nunca tinha visto o mar.
Chegamos na Rodoviária Novo Rio num sábado de manhã, um calor do c*****o, eu suada, cabelo grudado na testa. Mãe chamou um táxi e deu um endereço que eu nunca tinha ouvido falar: Complexo do Alemão. O taxista fez uma cara estranha, mas pegou a gente mesmo assim.
Quanto mais o carro subia, mais eu sentia o cheiro mudar. Cheiro de mato queimado, de esgoto, de comida frita. O barulho também era outro. Não era mais buzina de carro de shopping. Era funk pesadão saindo de caixas de som nas lajes, moto sem placa subindo e descendo loucamente, criança gritando, cachorro latindo. Eu nunca tinha visto tanta gente junta na vida e olha que eu morava na Liberdade.
O táxi parou numa rua tão apertada que quase não passava carro. Tinha um monte de menino em cima de uma laje olhando pra gente como se a gente fosse ET. Minha mãe pagou o cara correndo e me puxou pela mão.
— Vem, Sayuri, não fica olhando pras pessoa não.
Eu não conseguia parar de olhar.
As casas eram todas coladas, escada pra todo lado, fio de luz pendurado, roupa no varal balançando. Tinha um cheiro doce de maconha misturado com cheiro de frango assando. Eu tava assustada pra c*****o, mas ao mesmo tempo… sei lá, parecia que meu coração batia mais rápido de curiosidade.
A gente foi parar na casa de um primo da mãe que eu nem sabia que existia. Um cara chamado Márcio, magrelo, tatuagem no pescoço, dente de ouro. A casa era pequena, três cômodos, um monte de gente dormindo no chão.
Eu dividi uma cama com duas "primas" que nunca tinha visto e muito menos ouvido falar. Na primeira noite eu não preguei o olho. O som do funk não parava, parecia que a caixa de som tava dentro da minha cabeça.
Passou uma semana assim.
Minha mãe saía de noite e voltava de manhã, cheirando a cigarro e com um cheiro estranho. Eu ficava trancada dentro de casa vendo TV e comendo miojo. Até que um dia ela chegou toda arrumada com roupas novas, cabelo liso, batom vermelho, e falou:
— Hoje tu vai comigo numa festa lá em cima. Tô conhecendo um cara importante.
Eu nem perguntei quem. Só coloquei um short jeans e uma blusinha rosa que ela falou que “ficava bonitinha”.
A festa era numa laje enorme, luz colorida piscando, um monte de gente dançando, bebendo, fumando. Eu nunca tinha visto nada parecido. Tinha até piscina de plástico cheia de gelo e cerveja. Minha mãe me largou num canto e sumiu no meio da multidão.
Eu fiquei ali, encostada na parede, segurando um copo de Coca-Cola, olhando tudo com olho arregalado. Tinha uma menina de uns 16 anos de biquíni dançando em cima da mesa, caras com armas na cintura dançando colado, criança correndo no meio. Eu tava perdida naquele caus.
Foi aí que eu vi ele pela primeira vez.
Ele tava no fundo da laje, sentado num sofá velho que alguém devia ter arrastado pra lá. Tinha uns cinco caras em volta dele, todos de cabeça baixa e bem armados.
Ele era… grande.
Não só alto, grande mesmo.
Ombros largos, braço musculoso, tatuagem subindo até o pescoço. Camisa preta aberta até o meio do peito, corrente de ouro grossa. Pele bem escura brilhando com o suor. O cabelo era baixinho, quase raspado, e o olhar… mano, o olhar dele era de quem mandava em tudo ali. Ninguém chegava perto sem ser chamado.
Eu não conseguia tirar o olho.
Era medo, era fascínio, era um negócio que eu nem sabia explicar. Ele falava baixo, mas dava pra ver que todo mundo obedecia na hora. Um dos caras entregou um maço de dinheiro pra ele, ele nem contou, só guardou no bolso e fez um sinal com a cabeça. Outro cara trouxe uma cerveja, ele pegou sem olhar.
De repente, como se sentisse que eu tava olhando, ele virou o rosto.
Direto pra mim.
Eu congelei.
O copo quase caiu da minha mão. Os olhos dele eram pretos, fundos, parecia que enxergavam até minha alma. Eu senti um arrepio subir pela espinha, um calor no peito que eu nunca tinha sentido antes. Era como se o mundo inteiro tivesse parado por um segundo.
Ele não sorriu. Não piscou. Só olhou.
E eu tive certeza absoluta: aquele homem estava olhando direto pra mim.
Depois disso eu nem sei como voltei pra casa. Só lembro da mão da minha mãe me puxando e da voz dela falando alto:
— Viu só, Sayuri? Eu te falei que aqui a vida ia ser diferente.
Eu não respondi. Só fiquei pensando naquele homem e no olhar dele o caminho inteiro.
E, sem eu saber ainda, minha vida nunca mais ia ser a mesma.
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