SEXTA FEIRA, 21 DE AGOSTO DE 1942

1266 Palavras
Querida Kitty: Nosso esconderijo agora é realmente secreto. O senhor Kraler teve a boa ideia de tapar a porta de entrada do Anexo. A polícia está fazendo muitas buscas nas casas, atrás de bicicletas escondidas. O senhor Vossen construiu uma estante giratória que abre para o lado como uma porta. E claro que, para isso, o senhor Vossen teve que saber do nosso segredo. Ele está nos ajudando muito. Agora, antes de descermos, temos de nos abaixar e depois damos um pulo porque o degrau desapareceu. Depois de três dias tínhamos todos a testa cheia de galos, porque como não tomávamos cuidado e não estávamos habituados, batíamos quase sempre contra a portinha. Então Peter pregou uma almofadinha de serragem. Vamos ver se vai dar certo! Não tenho estudado muito. Dei a mim mesma férias até setembro. O papai quer começar a me ensinar, mas precisamos comprar os liVros primeiro. A nossa vida aqui é pouco variada. Peter lavou o cabelo hoje, mas isso não tem nada de especial. O senhor Van Daan e eu estamos sempre brigando. A mamãe me trata como se eu fosse um bebê, o que não suporto. De resto, as coisas estão indo bem. O Peter também nāo tem graça. E chato e preguiçoso. Passa a maior parte do dia estendido na cama. As vezes se levanta, faz um servicinho de carpintaria e torna a se deitar. Que i****a! Está um lindo dia lá fora, bonito e quente, e, apesar de tudo, a gente aproveita o clima se espreguiçando na cama dobrável no sótão. Sua Anne. QUARTA-FEIRA, 2 DE SETEMBRO DE 1942 Querida Kitty: O senhor Van Daan brigou com a mulher. Nunca vi tal coisa na minha vida. O meu pai e a minha mäe não são capazes de gritar assim um com o outro. O motivo foi tão insignificante que nem vale a pena falar nele. Mas, enfim, cada um é como é. Para o Peter não deve ser nada agradável assistir a essas brigas. Mas ninguém o leva a sério por ser tão preguiçoso e tão mimado. Ontem estava todo aflito porque tinha a língua azul. Mas pouco depois já tinha passado, e hoje anda com um cachecol grosso à volta do pescoço, diz que tem torcicolo. Sua Alteza tem se queixado também de dor na lombar. E dores nos pulmões, no coração e nos rins, é claro. Ele deve ser um belíssimo hipocondríaco! (É assim que se diz, não é?) A minha mãe e a senhora Van Daan não se dão muito bem, e realmente há muitos motivos para isso. Unm exemplo: a senhora Van Daan só deixou três lençóis no armário das roupas brancas, usado em comum por eles e por nós. Achou que os da mamãe poderiam ser usados pelas duas famílias. Vai ficar muito espantada quando descobrir que a mamãe seguiu o exemplo dela.. Além disso, a senhora Van Daan também fica irritada quando usamos a louça dela e não a nossa. Anda constantemente tentando descobrir o que foi feito da nossa porcelana e nem suspeita que está tâo perto dela, no sótão, atrás de uma pilha de material publicitário da Travis. Enquanto estivermos escondidos, os pratos permanecerão longe do alcance dela. Como estou sempre causando acidentes isso éo melhor! Ontem quebrei um prato de sopa da senhora Van Daan. - Oh! Você n******e ser mais cuidadosa? Era o último! - gritou ela, irritada. Mas o senhor Van Daan éagora a amabilidade em pessoa comigo. A mamäe voltou a me dar um grande sermão, hoje de manhā. Acho isso h******l. As nossas opiniões são muito diferentes. O papai está mais compreensivo, mesmo que às vezes fique zangado durante cinco minutos. Na semana passada houve um incidente. O motivo foi um livro sobre mulheres e o Peter. Eu ainda não disse que a Margot e o Peter têm permissão para ler quase todos os livros que o senhor Koophuis nos traz da biblioteca. Mas os adultos não queriam dar esse tal livro para eles. Com isso, a curiosidade do Peter foi aguçada. O que estaria escrito num livro p******o? Pegou o livro escondido e foi com ele para o sótão. Durante dois dias tudo correu bem. A mãe dele tinha percebido mas ficou quieta. No entanto, o pai descobriu tudo. Zangou-se, tirou o livro dele e pensou que o assunto estava resolvido. Não contava com a curiosidade do filho, que não achou a intenção do pai razoável e por isso não o desistiu. Procurou, por todos os meios, apanhar o livro outra vez. A senhora Van Daan, entretanto, tinha falado com minha mãe sobre o assunto. Minha māe também achava que aquele livro não era próprio para a Margot, apesar de a deixar ler quase todos os outros livros. Mamâe disse: - Entre a Margot e o Peter há uma grande diferença, senhora Van Daan Em primeiro lugar, as garotas são quase sempre mais desenvolvidas do que os garotos. Em segundo, a Margot já leu muitos livros sérios e não precisa procurar por aqueles que não são mais proibidos. Em terceiro, ela é muito mais sensível e intelectualmente desenvolvida, o que é resultado dos quatro anos que passou em uma excelente escola. No início, a senhora Van Daan concordava, embora por questão de principios não achasse necessário dar aos jovens os livros que, na realidade, eram destinados aos adultos. Enquanto isso, o Peter aguardava o momento em que ninguém estava prestando atenção nele nem no livro. As sete e meia da noite, quando toda a família se reuniu no escritório para ouvir rádio, ele levou o seu tesouro para o sótão. As oito e meia devia voltar para baixo, mas o livro era tão palpitante que ele perdeu a hora e estava descendo a escada do sótão com muita cautela quando o seu pai entrou no quarto. Pode imaginar o que aconteceu... ouvimos o estalar de uma bofetada. Um empurrão, o livro voou por cima da mesa e o Peter para o canto do quarto. As coisas estavam neste pé quando chegou a hora do jantar em família. Peter continuou no andar de cima. Ninguém se importou. Ele teve que ir para a cama sem comer. Nós continuamos a comer, conversando alegremente, quando, de repente.. um assobio penetrante... ficamos como que petrificados e pálidos. Olhamos uns para os outros. Os talheres caíram-nos das mãos. Depois ouvimos a voz do Peter através do cano do fogão: - Se pensam que desço, estão muito enganados. O senhor Van Daan deu um pulo da cadeira, deixando cair o guardanapo no chão, e gritou, vermelho como um tomate: - Agora basta! O papai, com medo do que poderia acontecer, agarrou o braço dele, e subiram os dois até o sótão. Depois de muita resistência e barulho, o Peter acabou por voltar ao seu quarto, com a porta trancada, e nós fomos jantar. A senhora Van Daan quis guardar-lhe um pāo com manteiga, mas o pai dele foi inflexível. - Se ele não resolver pedir desculpa imediatamente, irá dormir no sótão! Protestamos e dissemos que já era castigo ficar sem jantar. E se o Peter se resfriasse? Não havia possibilidade de ir buscar um médico. O Peter não pediu desculpa e ficou no sótão. O senhor Van Daan não deu importância, mas na manhã seguinte vimos que o Peter, afinal, tinha dormido na sua cama. As sete horas, porém, ele subiu, de novo, para o sótão e foi preciso o meu pai intervir com algumas palavrinhas conciliadoras para que ele descesse. Durante três dias tivemos caras carrancudas e um silêncio teimoso. Depois tudo voltou ao normal. Sua Anne.
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