DOMINGO, 21 DE JUNHO DE 1942

585 Palavras
Querida Kitty: A turma inteira está em polvorosa. O motivo, é claro, é que a reunião de conselho dos professores está chegando. Metade da turma passa o tempo apostando quem passa de ano e quem repete. A Miep de Jong e eu quase morremos de tanto rir por causa dos dois garotos sentados atrás da A gente, C.N. e Jacques Kocernoot, que apostaram todo o dinheiro reservado para as férias. Rezam de manhā até a noite. "Vai passar", "Não vou", "Vai sim", "Não vou"... Não adiantam nada os olhares suplicantes da Miep; nem minhas crises de raiva os sossegaram. Se você me perguntar, tem tantos burros na minha turma que, se dependesse de mim, reprovava a metade. Mas os professores são as pessoas mais imprevisíveis do mundo. Quem sabe desta vez eles sejam imprevisíveis da maneira certa, para variar. Nao estou preocupada por mim ou pelas minhas amigas. Nos vamos passar. A única matéria que estou na dúvida é Matemática de qualquer modo, tudo que podemos fazer é esperar. Até lā, continuamos dizendo uns aos outros para não perder as esperanças. Eu me dou razoavelmente com os professores. Ao todo são nove, sete homens e duas mulheres. O senhor Keptor, o velho professor de Matemática, implicava comigo por eu falar demais. Depois de várias broncas, ele me mandou um trabalho de casa extra, uma redação com o tema: Uma tagarela. Uma tagarela! O que se poderia escrever sobre isso? Vou me preocupar com isso depois, pensei. Enfiei o dever no caderno, coloquei-o na pasta e tentei ficar quieta.   Naquela noite, depois que terminei todos os outros deveres, eu me lembrei da redação. Comecei a pensar sobre o tema enquanto mordia a ponta da caneta-tinteiro. Qualquer um pode escrever umas bobagens, com as palavras bem separadas, mas encontrar uma razão evidente da necessidade de falar, aí é que estava o grande problema. Pensei e tornei a pensar e, de repente, tive uma ideia. Escrevi as três folhas que o senhor Keptor pediu e fiquei satisfeita. Argumentei que falar era próprio das mulheres e que eu me esforçaria para mudar, mas nunca conseguiria completamente, porque a minha māe falava tanto quanto eu, se não mais. E, como era sabido, contra defeitos hereditários pouca coisa podemos fazer. O senhor Keptor riu da minha explicação. Mas, quando na próxima aula falei de novo, me mandou fazer outra redação: A tagarela incurável. Escrevi como pude e durante duas aulas me comportei bem. Mas na terceira aula não aconteceu o mesmo, e o senhor Keptor achou que o meu mau comportamento passava dos limites. - Anne, como castigo por sua tagarelice, vai fazer uma redação com tema: Quac, quac, quac! Lá vem a dona pata.A turma morreu de rir. Também ri, embora me parecesse que tinha estado a minha criatividade para redações sobre o tema. Tinha de encontrar alguma coisa nova, original. A minha amiga Sanne, boa em poesias, aconselhou a tratar o assunto em versos e se ofereceu para me ajudar. Fiquei animada. O Keptor queria fazer pouco de mim, mas eu podia dar o troco. Fiz um poema que foi um sucesso. Era sobre uma māe pata e um pai cisne. Tinham três patinhos que de tanto fazer barulho foram bicados pelo pai até morrer. Felizmente o Keptor compreendeu a brincadeira e leu o poema em voz alta na nossa e nas outras turmas. Desde então posso falar sem que o Keptor me passe redações como castigo. Agora ele é quem faz piadinhas a toda hora. Sua Anne.
Leitura gratuita para novos usuários
Digitalize para baixar o aplicativo
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Escritor
  • chap_listÍndice
  • likeADICIONAR