Querida Kitty:
Acho que a aborreci com a longa descrição da casa. Mas acho que deve saber onde nos acomodamos. Como chegamos aqui é uma coisa que você vai descobrir nas minhas próximas cartas.
Mas, primeiro, deixe-me continuar, pois, como você sabe, ainda não acabei. Depois de chegarmos ao numero 263 da Prinsengracht, a Miep fez a gente subir depressa pelo longo corredor, pela escada de madeira até o andar de cima e o Anexo. Ela fechou a porta atrás de nós, nos deixando sozinhos. A Margot tinha chegado muito mais depressa de bicicleta e já estava à nossa espera.
O nosso quarto e os outros cômodos também estavam entulhados de coisas. A bagunça era indescritível! Os caixotes e as malas que, no decorrer dos últimos meses, tinham mandado para aqui, se amontoavam no chão e nas camas. O quartinho estava até o teto com roupas de cama. Se quiséssemos: dormir à noite em camas arrumadas, tínhamos de colocar já mãos à obra. A mamãe ea Margot não foram capazes de mexer numa palha. Se jogaram em cima dos colchões. Se sentiam muito infelizes. Papai e eu, os dois faxineiro começamos logoo trabalho.
Durante todo o dia desempacotanmos caixas, arrumamos armários, martelamos e esfregamos. Quando a noite chegou, caímos, mais mortos que vivo nas camas limpinhas. Não comemos uma só refeição quente durante todo o dia. Também não precisava. A mamãe e a Margot estavam nervosas demais para comer e o papai e eu estávamos muito ocupados.
Na terça-feira de manhã continuamos de onde havíamos parado na noite anterior. A Elli e a Miep fizeram as compras com os nossos talões de racionamento, o papai arrumou as cortinas de blecaute, esfregamos os azulejos da cozinha e, mais uma vez, ficamos ocupados de manhã até a noite. Até quarta-feira, eu não tive tempo de pensar sobre essa enorme mudança na minha vida. Então, pela primeira vez desde a nossa chegada ao Anexo Secreto, tive tempo para contar a você tudo sobre ele e me dar conta do que aconteceu comigo e o que ainda está para acontecer.
Sua Anne.