13: As sombras de SouthWark

919 Palavras
Londres recebeu Sofia com uma névoa densa que parecia querer ocultar os pecados da cidade. O ar de Southwark era frio e carregava o cheiro de metal e do Tâmisa. Para Sofia, estar ali era como caminhar dentro das plantas de um projeto antigo: ela conhecia cada curva, cada material, mas a atmosfera era hostil. Ela se hospedou em um hotel pequeno e discreto, longe do brilho do West End. Julian, o investigador, havia lhe dado um nome: “Thomas Miller”. — Ele era o mestre de obras na época do acidente — Julian dissera por telefone. — Depois que o Daniel foi preso, Miller desapareceu do mercado. Dizem que ele virou um fantasma nas docas. Ele sabe o que aconteceu com a viga doze, Sofia. Mas ele tem medo de sombras. Sofia passou o dia percorrendo pubs decadentes e escritórios de sindicatos desativados. Ela não era mais a arquiteta de salto agulha de Manhattan; usava botas, um sobretudo pesado e uma determinação que a tornava invisível e, ao mesmo tempo, perigosa. Finalmente, em um pub enfumaçado perto das antigas docas, ela o encontrou. Thomas Miller era um homem quebrado, com mãos trêmulas que m*l conseguiam segurar o copo de cerveja escura. — Eu não falo sobre o caso Lonsdale — Miller rosnou quando Sofia se sentou à sua frente. — O que aconteceu, aconteceu. O engenheiro pagou o pato. Fim da história. — O engenheiro tem nome, Thomas. É Daniel Verara. E ele é o homem que eu amo — Sofia disse, a voz firme, sem vacilar. — Ele passou dois anos na prisão por algo que você viu ser sabotado. Eric Vandyke pagou você para ficar calado ou apenas o ameaçou? Miller empalideceu, o som do nome de Eric parecendo um estalo de chicote. — Você não sabe com quem está mexendo, mocinha. A Lonsdale não é apenas uma empresa. É uma rede. Se eu abrir a boca, eu caio no rio antes de chegar ao tribunal. — Você já caiu no rio, Thomas — Sofia retrucou, olhando para as roupas gastas e os olhos sem esperança do homem. — Você está morto por dentro desde que deixou um homem inocente levar a culpa. Daniel encontrou a paz, mesmo na prisão. E você? Consegue dormir à noite? Miller desviou o olhar. O silêncio entre eles foi preenchido pelo som da chuva batendo nas vidraças sujas do pub. — Eles usaram um dispositivo térmico — Miller sussurrou, tão baixo que Sofia teve que se inclinar. — Não foi negligência na fundição. Eles queriam que a estrutura falhasse quando o peso atingisse o nível crítico. Daniel estava fazendo perguntas demais sobre os desvios de verba. — Você tem as provas? Registros? — Sofia sentiu o coração disparar. — Eu guardei o registro de manutenção original. Aquele que o tribunal disse que "desapareceu". Mas eu só entrego se você me tirar deste país. Eu quero p******o. Sofia ia responder quando a porta do pub se abriu. Dois homens de terno escuro, com biotipos que não combinavam com o ambiente portuário, entraram. Eles não olharam para o balcão; olharam diretamente para a mesa de Sofia. — Eles me acharam — Miller engasgou, levantando-se com dificuldade. — Eu avisei! — Saia pelos fundos! — Sofia ordenou, puxando Miller pelo braço. Eles correram pela cozinha gordurosa sob os protestos do dono do pub. Sofia sentia o medo subir pela garganta, mas havia algo novo nela. Uma calma estranha. "Não temas, que eu te ajudo", a promessa que ela ouvira no Queens ecoava agora em Londres. Eles ganharam as ruelas estreitas de Southwark. O som dos passos dos perseguidores no asfalto molhado era rítmico e implacável. Sofia e Miller dobraram uma esquina e se esconderam atrás de um contêiner de lixo industrial. Sofia pegou o celular. Ela queria ligar para a polícia, mas Julian a avisara que a polícia local tinha conexões com a Lonsdale. Ela discou para Daniel. — Daniel... eu o encontrei — ela sussurrou, tentando controlar a respiração. — Ele confirmou tudo. Eric deu a ordem. Mas estamos sendo seguidos. — Sofia, ouça-me — a voz de Daniel do outro lado do oceano era como uma âncora. — Não tente ser uma h*****a sozinha. Vá para a embaixada americana. Agora. Eu vou ligar para um contato meu em Londres, um pastor que trabalha com ex-detentos. Ele conhece essas ruas melhor que esses capangas. — Daniel, eu estou com medo. — Eu sei. Mas lembre-se do que o museu representa: a memória não é para nos assustar, é para nos fortalecer. Você não é a menina expulsa da igreja. Você é a mulher que Deus enviou para trazer a justiça. Corra, Sofia. Corra pela luz. Sofia desligou. Ela olhou para Miller, que soluçava de terror. — Levante-se, Thomas. Nós vamos sair daqui. E você vai contar ao mundo o que Eric Vandyke tentou esconder. Eles voltaram a correr, mas ao chegarem à avenida principal, um carro preto barrou o caminho. A janela baixou lentamente. Não eram os capangas. Era Eric. Ele tinha voado para Londres. Ele não ia deixar que ninguém fizesse o trabalho sujo por ele desta vez. — Que cena tocante, Sofia — Eric disse, um sorriso de gelo no rosto. — A arquiteta e o fantasma. Infelizmente, fantasmas não prestam depoimento. E arquitetas imprudentes costumam sofrer acidentes em cidades estrangeiras. Sofia colocou-se à frente de Miller. O Inverno de Londres estava apenas começando, e desta vez, a batalha não era por um prédio, mas por uma vida.
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