A paz na casa de madeira em Bear Mountain durou pouco mais de doze horas. Foi o tempo necessário para Sofia dormir sem pesadelos pela primeira vez em uma década. Mas o mundo, em sua busca incessante por escândalos, não dorme.
Na manhã seguinte, o rádio da cozinha de Daniel, que costumava tocar hinos suaves ou música clássica, cuspia o veneno de uma rádio de notícias local.
“...novas informações indicam que Daniel Verara, o homem visto saindo com Sofia Castello ontem, não é apenas um engenheiro. Ele é um ex-detento condenado por negligência criminosa em Londres. O 'casal do escândalo' parece estar unido por suas sombras, não por sua luz...”
Sofia sentiu o café esfriar em sua garganta. Ela olhou para Daniel. Ele estava parado junto à pia, secando uma caneca. Ele não parecia surpreso. Seus ombros estavam levemente caídos, mas seu rosto mantinha aquela serenidade terrível de quem já esperava pelo golpe.
— Eric não vai parar, Daniel — Sofia disse, levantando-se. — Ele descobriu o seu segredo. Ele está usando a sua dor para me isolar ainda mais.
— Ele não está usando a minha dor, Sofia — Daniel respondeu, virando-se para ela. — Ele está usando a verdade. Eu realmente falhei. Eu realmente fui preso. O que Eric não entende é que o que ele chama de a**a, Deus usa como testemunho.
— Mas as pessoas não veem testemunhos, Daniel! Elas veem manchetes! — Sofia pegou o casaco. — Ele vai convocar uma coletiva de imprensa no meio do canteiro de obras do museu hoje à tarde. Ele quer anunciar o novo engenheiro e "limpar a imagem da empresa" às nossas custas.
Daniel a olhou com uma curiosidade mansa.
— O que você pretende fazer?
— Eu vou lá. E você vem comigo.
O canteiro de obras estava transformado em um circo mediático. Caminhões de TV, repórteres com microfones empunhados e Eric, posicionado em frente à fundação que Sofia e Daniel haviam lutado para corrigir. Ele parecia um salvador, falando sobre "integridade corporativa" e "responsabilidade social".
— ...e por isso — Eric dizia para as câmeras — decidimos remover não apenas o projeto antigo, mas todos os elementos que possam comprometer a confiança de nossos acionistas. A Castello & Vandyke não será um refúgio para pessoas com passados duvidosos.
— Então você terá que demitir a si mesmo, Eric! — A voz de Sofia cortou o barulho das betoneiras.
A multidão de repórteres se virou como um organismo único. Sofia caminhava com Daniel ao seu lado. Ela não usava mais o terno azul-marinho; vestia jeans, botas de trabalho e o paletó de Daniel. Ela parecia humana. Ela parecia real.
— Sofia! — Eric sorriu, embora seus olhos estivessem frios. — Veio assinar os papéis da sua rendição?
Sofia subiu no palanque improvisado de madeira. Ela não pediu permissão; ela tomou o espaço.
— Eu vim falar sobre fundações — ela começou, olhando diretamente para a lente da câmera principal. — Todos vocês leram as notícias. Todos vocês sabem que fui expulsa de uma igreja aos dezesseis anos e que este homem ao meu lado passou dois anos em uma prisão.
Houve um murmúrio crescente. Os flashes disparavam sem parar.
— O mundo de Eric Vandyke — Sofia continuou, apontando para o sócio — é feito de vidro. É bonito, é caro, mas se você bater nele com a verdade, ele estilhaça e corta quem estiver por perto. Ele quer que vocês acreditem que somos "perigosos" porque temos cicatrizes. Mas eu pergunto a vocês: em quem vocês confiariam para construir sua casa? Em alguém que nunca viu uma rachadura na vida, ou em um homem que sabe exatamente como é o fundo do poço e aprendeu, com sangue e lágrimas, como se constrói um alicerce que não cede?
Ela olhou para Daniel. O olhar dele era de um orgulho silencioso.
— Eric quer derrubar este museu porque ele custa caro demais — Sofia disse à imprensa. — Mas a verdade é que ele quer derrubar o que este museu representa: que a memória não serve para nos condenar, mas para nos lembrar de onde fomos resgatados. Daniel Verara não é um criminoso tentando se esconder. Ele é o engenheiro da minha alma. E se este projeto morrer hoje, ele morrerá com a dignidade de ser a única coisa honesta que já construímos nesta cidade!
Eric tentou interromper, mas o público — os próprios operários que estavam ali — começou a aplaudir. Eles conheciam Daniel. Eles tinham visto como ele os tratava.
No meio da confusão, um homem idoso, vestido de forma simples, abriu caminho pela multidão de repórteres. Sofia paralisou. O coração dela parou de bater por um segundo.
Era o Pastor Alberto. Seu pai.
Ele não trazia o chicote da religião nas mãos. Ele trazia uma Bíblia velha e os olhos marejados de quem tinha passado a noite em claro em uma rodoviária.
— Sofia... — ele chamou, a voz rouca.
A imprensa percebeu o drama. Os microfones se voltaram para o homem que era o epicentro do trauma de Sofia. Eric sorriu, esperando que o pai a condenasse publicamente para encerrar o serviço.
O Pastor Alberto subiu os degraus trêmulos. Ele parou diante da filha que ele mesmo havia expulsado. O silêncio no canteiro de obras era tão denso que se podia ouvir o vento soprando nas vigas de aço.
— Eu não vim para falar com a imprensa — o velho disse, olhando para Sofia. — Eu vim pedir perdão. Eu construí a minha igreja sobre a lei, e esqueci que o meu Mestre, o Senhor Jesus Cristo, a construiu sobre o amor. Eu expulsei a minha própria carne para salvar a minha reputação.
Ele se virou para as câmeras, as lágrimas escorrendo pelos sulcos de seu rosto.
— Se há algum pecado aqui hoje, ele é meu. Sofia é o fruto de uma graça que eu tentei apagar, mas que Deus, em Sua misericórdia, manteve acesa.
Ele se voltou para Daniel e apertou a mão dele.
— Obrigado por cuidar da minha ovelha quando eu fui um fariseu.
Sofia desabou. Não foi um choro de dor, foi o som das correntes se quebrando. Ela abraçou o pai ali mesmo, diante de todo o escândalo de Nova Iorque. O "Inverno" não tinha acabado, mas o sol tinha finalmente rompido as nuvens.
Eric, percebendo que tinha perdido o controle da narrativa, recuou para as sombras. Mas o mundo já tinha visto. A notícia do dia seguinte não seria sobre o "Passado Obscuro", mas sobre a "Redenção na Obra".