5: O custo do fundamento

1531 Palavras
O sol de segunda-feira nasceu pálido, filtrado pela névoa gelada que subia do East River. No loft de Sofia, o paletó de Daniel ainda estava estendido sobre a poltrona de couro. Ela passara a mão pelo tecido várias vezes durante a noite, como se pudesse extrair dele a resposta para a confusão que sentia. O cheiro de Daniel — uma mistura de concreto, café e uma paz inexplicável — parecia impregnado nas paredes da sala. Ela chegou ao escritório mais cedo do que o habitual. Queria evitar Eric, mas, acima de tudo, queria evitar o olhar de Daniel. No entanto, o mundo corporativo, assim como a lei da gravidade, não perdoa vacilos. Ao entrar em sua sala, Sofia encontrou Eric sentado em sua mesa, folheando um dossiê com uma expressão que ela conhecia bem: a de quem encontrou uma falha no inimigo. — Ele é um perigo para a empresa, Sofia — Eric disse, sem olhar para ela. — Eu avisei. Você se deixou levar por aquele olhar de "bom moço", mas os números não mentem. Sofia sentiu um aperto no peito. — Do que você está falando, Eric? — Daniel Verara alterou as especificações das sapatas da ala leste do museu. Ele alegou "instabilidade do solo", mas isso vai custar à empresa cerca de dois milhões de dólares a mais do que o orçado. Os investidores estão furiosos. Eles acham que ele está super faturando ou que é simplesmente incompetente. — Daniel não faria isso sem um motivo técnico sólido — Sofia defendeu, surpresa com a própria rapidez em protegê-lo. Eric levantou-se, caminhando até ela. Sua voz baixou para um tom perigosamente calmo. — Ou talvez ele esteja apenas sendo... "religioso". Querendo construir algo eterno com o dinheiro dos outros. Ou, quem sabe, ele está tentando impressionar você com essa integridade barata. Seja como for, eu já preparei a carta de rescisão. Só preciso da sua assinatura. Como sócia majoritária no projeto criativo, a palavra final é sua. Sofia olhou para a folha de papel sobre a mesa. O nome de Daniel estava lá, impresso em letras frias e definitivas. Demiti-lo significava restaurar a paz com os investidores, manter o lucro e, principalmente, afastar o homem que estava desenterrando tudo o que ela queria manter morto. Era a saída fácil. Era a saída segura. — Eu quero falar com ele primeiro — Sofia disse, a voz firme apesar do tremor nas mãos. — Não perca seu tempo — Eric desdenhou. — Ele está na obra. Eu já enviei um perito independente para lá. Se o perito disser que a mudança era desnecessária, Daniel sai hoje mesmo. Com uma mancha no currículo que nenhuma oração vai apagar. Sofia dirigiu até Connecticut como se estivesse fugindo de um incêndio. Ao chegar ao canteiro de obras, o cenário era de caos. As máquinas estavam paradas. Daniel estava no centro de um círculo de homens de terno — os peritos e os representantes dos investidores. Ele parecia pequeno diante daquelas figuras de autoridade, mas sua postura era ereta. Ele não gritava. Ele apenas apontava para as rachaduras microscópicas que começavam a surgir na base de teste. — Se não reforçarmos agora — Daniel dizia, a voz ressoando com a autoridade de quem serve à verdade, não ao lucro — o prédio não cairá hoje. Talvez não caia em dez anos. Mas na primeira grande inundação, ele cederá. Eu não assino um projeto que é uma armadilha para quem vai visitá-lo. — Isso é um absurdo! — um dos investidores gritou. — O projeto original da Srta. Castello foi aprovado por três engenheiros! — O projeto da Srta. Castello é esteticamente perfeito — Daniel respondeu, e seus olhos encontraram os de Sofia, que acabara de se aproximar. — Mas o solo sob a perfeição é instável. E eu me importo mais com a vida das pessoas do que com o bônus de final de ano de vocês. Sofia aproximou-se do círculo. O silêncio caiu sobre o g***o. Todos esperavam que a "Dama de Ferro" de Manhattan colocasse o engenheiro rebelde em seu lugar. — Daniel — Sofia chamou, a voz falhando por um momento. — Eric diz que isso vai arruinar o orçamento. Ele diz que você está sendo desnecessariamente cauteloso. Daniel caminhou até ela. Ele ignorou os homens ao redor. — Sofia, você pode construir um museu sobre a mentira de que este solo é seguro. Ele vai brilhar, vai sair nas revistas e você vai ganhar seu lucro. Mas você saberá, cada vez que olhar para ele, que ele está fundado em algo que não sustenta o peso da realidade. Ele deu um passo à frente, baixando a voz para que apenas ela ouvisse. — É como a sua vida, Sofia. Você construiu um império sobre o trauma e o sucesso, mas o solo ainda é o mesmo daquela menina que foi ferida. Se você não tratar a base, o teto sempre vai parecer que está prestes a desabar sobre a sua cabeça. — Não misture as coisas, Daniel! — ela exclamou, as lágrimas de frustração surgindo. — Aqui é trabalho. São milhões de dólares. A minha reputação está em jogo! — E a sua alma? — Daniel perguntou suavemente. — Quanto vale a sua paz de saber que você fez o que é certo, mesmo quando custa caro? Eric chegou naquele momento, saindo de seu carro com a carta de rescisão na mão. — Já chega de filosofia. O perito deu o laudo. Ele diz que o reforço é "opcional" e que o risco é "aceitável dentro das margens da indústria". Assine, Sofia. Vamos colocar alguém que entenda de negócios aqui. Eric estendeu a caneta. O g***o de investidores observava. Daniel apenas olhava para ela, sem implorar, sem se defender. Ele parecia um homem que já tinha aceitado o custo de sua integridade. Sofia olhou para a caneta. Olhou para Eric, que representava tudo o que ela tinha conquistado: poder, segurança, a ausência de Deus. Depois olhou para Daniel, que representava o que ela mais temia: a verdade que dói, o amor que exige tudo, a luz que revela as rachaduras. Na teologia que ela tentara esquecer, isso tinha um nome: *O Momento da Decisão*. O instante em que a Graça confronta a Conveniência. Sofia pegou a caneta. Suas mãos tremiam tanto que ela teve que segurá-la com as duas mãos. Ela olhou para a carta de demissão. “O Pastor conhece o caminho de volta para casa”, a voz da mãe ecoou em sua mente. Com um movimento brusco, Sofia não assinou o papel. Em vez disso, ela o rasgou ao meio. Depois em quatro. Depois em pedaços tão pequenos que o vento de Connecticut os espalhou pela lama da obra. — Sofia, você enlouqueceu? — Eric rugiu, o rosto vermelho de fúria. — O reforço será feito — Sofia disse, sua voz ganhando uma força que ela não sabia que possuía. — Se os investidores quiserem sair, que saiam. Eu financio a diferença com o meu fundo pessoal de reserva. Mas este museu será construído sobre o que é real, não sobre o que é barato. O silêncio que se seguiu foi cortado apenas pelo som das máquinas ao longe. Eric olhou para ela com um ódio puro, um olhar que dizia que aquilo não terminaria ali. Ele virou as costas e saiu, os pneus de seu carro cantando no asfalto. Os investidores, murmurando ameaças legais, o seguiram. Sofia ficou parada, o peito subindo e descendo. Ela sentia como se tivesse acabado de pular de um penhasco. Ela tinha acabado de declarar guerra. Daniel aproximou-se. Ele não sorriu com triunfo. Ele apenas parou ao lado dela. — Isso custou muito caro, Sofia — ele disse silenciosamente. — Eu perdi tudo, não perdi? — ela perguntou, olhando para os restos da carta de demissão na lama. — Não — Daniel respondeu, e pela primeira vez, ele tocou o ombro dela, não para segurá-la, mas para sustentá-la. — Pela primeira vez em dez anos, você começou a ganhar. Você acabou de descobrir que a verdade tem um preço, mas a mentira cobra juros eternos. Sofia olhou para o esqueleto de aço do museu. Ele ainda parecia o mesmo, mas algo dentro dela tinha mudado. A rachadura na sua armadura de gelo tinha se tornado um abismo. E, pela primeira vez, ela não teve medo de olhar para baixo. — O que fazemos agora? — ela perguntou. — Agora — Daniel disse, abrindo a planta sobre uma viga de aço — nós construímos o fundamento. Da forma certa. Longe dali, em um escritório escuro em Manhattan, Eric pegava o telefone. — Sim, é sobre a Sofia Castello. Eu quero um levantamento completo do passado dela. Tudo. Daquela igreja no interior, da família, de qualquer escândalo que ela tenha enterrado. Se ela quer jogar com a "verdade", vamos ver como ela lida com a verdade dela estampada nos jornais. O Inverno da Alma estava ficando mais rigoroso. A neve voltava a cair, mas Sofia, envolta no silêncio da obra e na presença de Daniel, sentiu que, talvez pela primeira vez, ela não estava mais correndo do frio. Ela estava aprendendo a enfrentá-lo.
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