capítulo 3

726 Palavras
Mais tarde, quando acordei, tomei um banho demorado. A água caía pelo meu corpo enquanto eu tentava me preparar para mais uma noite. Coloquei minha roupa, arrumei meu cabelo e saí de casa com aquele pensamento preso na cabeça: Falta pouco. Faltava pouco para eu deixar aquele lugar. Quando cheguei ao clube, o movimento já estava começando. Mas meu sorriso desapareceu assim que vi quem estava esperando. Era um cliente antigo. Um daqueles que eu raramente atendia. Ele nunca tinha sido gentil comigo. Eu não gostava de ficar perto dele, mas naquele lugar nem sempre eu tinha escolha. Respirei fundo e fui até o quarto. Durante todo o tempo, eu só pensava em uma coisa: Eu preciso sair daqui. Ele me batia, me mordia ,era intenso, selvagem , e nao parava nunca ... Quando finalmente acabou, eu estava exausta toda dolorida .. Ele se arrumou tranquilamente, como se nada tivesse acontecido, e me olhou com aquele sorriso que me causava arrepios. — Sabe... vai chegar o dia em que eu vou pagar por você a noite inteira. Das seis da tarde até as seis da manhã. Meu coração apertou. Por dentro, meu único pensamento era: Meu Deus... não. Mas eu apenas forcei um sorriso. Eu tinha aprendido a esconder o medo. Assim que ele saiu, fechei a porta e fiquei alguns segundos parada, tentando respirar. Então meus olhos se encheram de lágrimas. Eu não queria mais estar ali. Eu só queria minha liberdade. Pouco depois, minha amiga entrou no quarto. Ela era uma mulher linda, loira, com um sorriso que normalmente iluminava qualquer lugar. Mas naquele momento ela também parecia quebrada. Assim que me viu chorando, veio até mim e me abraçou. Eu desabei. — Eu só quero sair logo daqui, amiga... só isso. Ela apertou meu abraço. — Eu sei. Nós vamos sair. Nós vamos conseguir. Mas quando olhei melhor para ela, percebi que ela também carregava marcas de uma noite difícil. Meu coração doeu. Porque naquele lugar nós éramos vistas como mercadoria. Mas nós éramos mulheres. Mulheres com sonhos, medo e vontade de ter uma vida diferente. E naquele instante, abraçadas uma à outra, fizemos uma promessa silenciosa: Nós iríamos encontrar uma saída. Ficamos ali por alguns minutos, sentadas no chão daquele quarto. O silêncio entre nós dizia tudo. Eu olhei para minha amiga e segurei a mão dela. — Você está bem? Ela tentou sorrir, mas seus olhos entregavam a verdade. — Vou ficar. Eu sabia aquela resposta. Era a mesma que eu dava todos os dias. "Eu vou ficar bem." Mesmo quando a gente não sabia mais se realmente estava. Ela respirou fundo e encostou a cabeça na parede. — Sabe o que eu mais sonho? — O quê? Ela olhou para a janela pequena do quarto. — Acordar de manhã e não ter que fingir. Não ter que colocar um sorriso no rosto para pessoas que nem sabem quem a gente é. Meu peito apertou. Porque eu sonhava exatamente a mesma coisa. — Eu quero uma casa simples... — falei baixinho. — Um lugar onde eu possa acordar tranquila, fazer meu café e escolher o que eu vou fazer da minha vida. Minha amiga sorriu. — Você vai conseguir. Eu olhei para ela. — Nós vamos conseguir. Naquele momento, pela primeira vez naquela noite, eu senti um pouco de força voltar. Depois de alguns minutos, ela precisou voltar para o salão. Eu fiquei sozinha no quarto, olhando meu reflexo no espelho. A mulher que estava ali parecia cansada. Mas ainda estava de pé. Toquei meu rosto e pensei em tudo que eu tinha passado. Trinta mil reais. Era isso que separava minha vida antiga da vida que eu queria construir. Eu não sabia como seriam os próximos meses. Não sabia quantas dificuldades ainda viriam. Mas eu tinha uma certeza: Eu não ficaria naquele lugar para sempre. Enquanto isso, em outro ponto da cidade, Alonso olhava o celular pela terceira vez naquela noite. Ele esperava uma mensagem que nem sabia se receberia. Ele não entendia por que aquela mulher tinha ficado tanto na sua cabeça. Não era apenas atração. Era a forma como ela falava sobre sair dali. O jeito como tentava parecer forte mesmo carregando tanta coisa. Alonso estava acostumado a conquistar pessoas. Mas, pela primeira vez, ele sentia vontade de proteger alguém. E isso era algo completamente novo para ele.
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