Capítulo 1

1375 Palavras
Valentina narrando O ar-condicionado central do escritório Gomes & Associados zumbia em uma frequência monótona, um contraste irritante com o caos que martelava dentro da minha cabeça. Da minha janela no trigésimo andar, o Rio de Janeiro parecia uma maquete perfeita, banhada por um pôr do sol que tingia o oceano de um laranja sangrento. Mas eu conhecia bem demais as rachaduras dessa maquete. No asfalto quente daquelas ruas, o direito e a justiça raramente caminhavam de mãos dadas. — Você está lendo a mesma página há dez minutos, Valentina. Assina logo isso. A voz de Rafael atravessou minha redoma de pensamentos como uma lâmina cega, olhei para cima, encontrando o rosto perfeitamente barbeado do meu sócio e ex-namorado. Rafael exalava o cheiro de sucesso: ternos italianos de três mil dólares, relógios suíços e uma arrogância que só o dinheiro pode comprar. — Este contrato de transferência de terras na Baixada Fluminense está irregular, Rafael. Você sabe disso — respondi, minha voz saindo mais firme do que eu me sentia. — O espólio de Bento Melo ainda não foi totalmente inventariado. Existem cláusulas de proteção ambiental que estão sendo ignoradas. Se eu assinar isso como revisora jurídica, estarei colocando meu registro na guilhotina. Rafael soltou um suspiro teatral e sentou-se na ponta da minha mesa de carvalho, invadindo meu espaço pessoal. — Não seja dramática, Tina, o Francisco Gomes é nosso maior cliente. Ele precisa dessas terras para o novo polo industrial. É progresso para a cidade, empregos... por que você tem que ser sempre a pedra no caminho? — Porque eu sou advogada, Rafael, não uma carimbadora de fraudes — retruquei, fechando a pasta de couro com um estalo seco. — Bento Melo morreu de forma "misteriosa" há um ano. Agora, a filha dele, que é a herdeira direta, está sendo coagida a abrir mão de tudo por uma fração do valor de mercado. Eu li o depoimento dela. Ela está apavorada. Rafael se inclinou, os olhos estreitos, a máscara de bom moço deslizando para revelar algo mais sombrio. — Ouça bem: o mundo real não funciona como nos seus livros de doutrina. Francisco não é homem de receber um "não" como resposta. Assine os papéis, receba seu bônus de seis dígitos e vamos jantar no Cipriani. Esqueça essa garota. Ela não é problema seu. — Se eu assinar, o problema passa a ser meu. E eu não vou fazer isso. Ele se levantou abruptamente, a cadeira rangendo contra o piso de mármore. — Você está cometendo um erro, Valentina. Um erro que pode custar muito caro à sua carreira. E à nossa sociedade. — Isso é uma ameaça? — perguntei, sentindo um calafrio subir pela minha espinha. — É um conselho. Durma e pense sobre isso. Amanhã cedo, Francisco estará aqui. Espero que você tenha recuperado o juízo. Ele saiu da minha sala sem olhar para trás, deixando o perfume caro e uma sensação de náusea no ar, eu me recostei na poltrona, sentindo meu coração disparar. Algo naquela transação cheirava a sangue, e o fato de Rafael estar tão empenhado em me dobrar só confirmava que eu estava tocando em um ninho de víboras. Guardei meus pertences na bolsa, precisando de ar, de movimento, de qualquer coisa que me tirasse daquela redoma de vidro e aço. Ao sair do prédio comercial no Leblon, o calor úmido da noite carioca me atingiu como um tapa. O movimento de pessoas saindo do trabalho era intenso, mas, pela primeira vez na vida, a multidão não me trouxe conforto. Caminhei em direção ao meu carro, um sedã prateado estacionado a duas quadras dali. Foi então que a sensação começou. Sabe aquele formigamento na nuca? Aquela percepção instintiva de que a geometria do espaço ao seu redor mudou? Eu sentia olhos em mim. Não eram os olhos de um admirador ou de um pedestre apressado. Eram olhos pesados. Predadores. Parei em frente a uma vitrine de joalheria, fingindo observar um colar de diamantes, mas usei o reflexo do vidro para escanear a rua atrás de mim. Vi táxis, casais caminhando, um vendedor de pipoca... e, parado na esquina oposta, um homem encostado em uma moto preta, com o capacete escuro pendurado no braço. Ele estava nas sombras, mas eu podia sentir a intensidade do seu foco. Ele não estava apenas olhando; ele estava me desossando com o olhar. Apertei o passo, o som dos meus saltos ecoando no calçamento como batidas de um relógio em contagem regressiva. Meu carro estava logo ali. Destravei as portas com o controle remoto e entrei, trancando tudo imediatamente. Minhas mãos tremiam enquanto eu girava a chave. Olhei pelo retrovisor. A moto preta ainda estava lá, mas o homem agora estava montado nela. Ele não deu partida. Ele apenas ficou ali, uma silhueta de escuridão contra as luzes da cidade. — Calma, Valentina. É a paranoia. O Rafael te deixou nervosa — sussurrei para mim mesma, tentando controlar a respiração. Dirigi em direção ao meu apartamento na Lagoa, fazendo um caminho mais longo, entrando em ruas aleatórias para ver se era seguida. Em cada curva, eu esperava ver o brilho do farol daquela moto, mas a rua parecia vazia. No entanto, a sensação de ser observada não desapareceu. Ela se infiltrou na cabine do carro, gelando o suor na minha testa. Eu sentia que havia algo no ar, uma mudança no destino que eu não podia prever. Rafael e Francisco queriam minha assinatura, mas o homem da moto... ele parecia querer algo muito mais profundo. Cheguei ao meu prédio e estacionei na garagem subterrânea, subindo o elevador em um estado de alerta máximo. Uma vez dentro do meu apartamento, tranquei as três travas da porta e encostei a testa na madeira fria. Meu celular vibrou no bolso. Uma mensagem de Rafael. — "Não seja teimosa, Tina. Pense na sua vida. Algumas lutas não valem o preço." Joguei o aparelho no sofá com nojo. "Pense na sua vida". Aquilo soava como uma advertência de morte. Francisco Gomes era conhecido por ser um empresário implacável, mas os boatos no tribunal diziam que sua verdadeira fortuna vinha das sombras, de negócios que a lei não podia tocar. E agora eu estava no caminho dele. Fui até a janela e abri uma fresta da cortina, olhando para a rua arborizada lá embaixo. Não havia moto. Não havia ninguém. Mas, enquanto eu me afastava, um brilho metálico na calçada oposta chamou minha atenção. Alguém estava lá, escondido entre as sombras das palmeiras. Eu não conseguia ver seu rosto, mas vi o brilho de algo pendurado em seu pescoço quando a luz de um poste o atingiu. Pareciam contas. Pequenas esferas claras que brilhavam de forma macabra. Recuei da janela, o meu coração martelando contra as costelas. Eu era uma advogada de sucesso no auge da carreira, mas, naquele momento, eu me sentia como uma presa marcada. Eu sabia que Rafael estava envolvido em algo escuso, sabia que Francisco era perigoso, mas a presença lá fora... aquela sombra... era algo diferente. Algo que não pertencia ao meu mundo de processos e audiências. Tomei um banho quente, tentando lavar a sensação de sujeira que a conversa com Rafael deixou, mas, mesmo sob a água, eu não conseguia esquecer o olhar que senti na rua, era um olhar de posse. Como se eu não fosse mais a dona do meu próprio corpo, do meu próprio futuro. Deitei na cama, mas o sono não vinha, cada estalo do prédio me fazia sobressaltar, eu pensava no caso de Bento Melo, na grilagem de terras, na ganância de Francisco... e naquele homem. Quem era ele? Um matador? Um aviso enviado por Francisco? Eu ainda não sabia, mas eu tinha me tornado um obstáculo para um homens poderoso, e no Rio de Janeiro, obstáculos são removidos com sangue. Fechei os olhos e, por um breve segundo, tive a nítida sensação de que o cheiro de fumaça e maconha estava impregnado nas minhas cortinas, embora todas as janelas estivessem fechadas. Amanhã eu teria que enfrentar Francisco e Rafael. Mas, de alguma forma, eu sabia que eles não eram o meu maior problema. E, pela primeira vez na vida, tive a certeza de que nenhuma lei no mundo poderia me salvar do que estava por vir.
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