— Você já ajudou! Obrigado! Eu vou conseguir de alguma forma sozinha!
Ela fica ainda mais irritada! Mas em vão. As emoções negativas estragam muito o rosto de uma mulher!
— Eu vejo como você lida com isso.
Estou ajustando o volante. Espero que ela não perca o controle em lugar nenhum.
Sinto que o carrinho está começando a se mover.
O que é?...
Deus, esqueci que havia um bebê deitado ali!
Criança…
Eu vim aqui pela criança.
Para o bebê, que preciso, de alguma forma, tirar milagrosamente da sua mãe...
— Não chore Alice? Shh-sh-sh... Agora vamos, agora vamos dormir!
Alice... Quer dizer que ela tem uma menina lá?
E então começo a suar frio.
Uma menina, neste mesmo prédio. E a entrada onde estacionamos é a mesma.
Esta não pode ser... ESSA criança, pode?
Mas... quem é essa Branca de Neve então? Babá? Bem, não é vovó? Ela tem cerca de trinta anos, não é?
Eu nem sei o nome do bebê. O meu pessoal não teve tempo de enviar a informação.
Só tenho certeza que é uma menina.
Nossa herdeira. Faço uma pergunta, percebendo que estou ofegante. A minha garganta está seca...
— É uma menina?
Anastácia
— O que você fez!
— O que eu fiz? Não tenho culpa que o seu carrinho seja velho.
Estou sufocando de raiva! Que bastardo! Velho!
Ele não é nem um pouco velho! Eles me disseram que antes de nós apenas duas crianças haviam andado nele! E, essa é uma empresa muito boa, Adamex! E ele custou quase cinquenta mil novos!
— Você sabe o quê? Saia daqui com o seu carro caro!
Ele sorri.
— Sim, vou sair, tenho quatro rodas, mas você vai andar de três? Deixa-me ajudar!
Não quero ouvir palavras! Peru pomposo!
— Você já ajudou! Obrigado! Eu vou conseguir de alguma forma sozinha!
— Eu estou vendo como você lida com isso.
Ela se agacha e tira a roda, tentando ajustá-lo. Vejo que as suas mãos brancas já estão sujas. É assim que deve ser!
O bebê começa a gemer, ela não gosta muito quando a gente fica na rua, ela acorda imediatamente, precisa ser bem enrolada, aí é só parar em algum banco e sentar. É verdade que está frio agora, e não terei muito tempo para sentar.
— Não chore Alice. Shh-sh-sh... Agora vamos, agora vamos dormir!
— É uma menina? Olho para o estranho, que por algum motivo muda de rosto e me olha atentamente.
Por que, eu me pergunto, ele está tão surpreso?
— Uma menina? Alice? Parece que ele está olhando através de um scanner.
— Sim uma menina! Sim, Alice! Suspiro, mas decido explicar para aqueles especialmente dotados.
— Que diferença isso faz para você? Você colocou a roda? Não entendo por que sou tão rude, mas isso me leva a algum lugar.
— Coloquei. Você pode ir.
— Obrigado! E estava na ponta da língua. “esqueci de te perguntar”!
Atravesso a rua, alguns passos e entraremos no parque.
Longe de qualquer... idi*ota!
Alice parou de gemer, mas ainda não fechou os olhos. Ela olha para o teto do carrinho, como se percebesse algo ali.
Mas eu me pergunto se esses pequeninos realmente veem tudo ao contrário? De cabeça para baixo? Eu me pergunto... eles não ficam tontos? E quando eles começam a ver tudo normalmente?
— Espere! O que mais ela precisa?
O homem grita! E por falar nisso, o meu bebê está dormindo no carrinho! Quase!
Eu me viro bruscamente e sibilo deliberadamente de forma repugnante.
— Por que você está gritando? O meu bebê está dormindo!
E ele sorri e... me olha de cima a baixo, examinando-me novamente, como se calculasse quanto valho.
De repente me sinto muito desconfortável porque estou tão... maltrapilho ou o quê?
Sim, eu já adorei me vestir lindamente, então, em outra vida...
As coisas não são as mais baratas para comprar. Que seja apenas um casaco de penas para o inverno, mas que seja de alta qualidade; que seja apenas um tênis, mas que seja de uma boa marca.
E então, ultimamente eu só...
Simplesmente caiu catastroficamente. Isso é o que aconteceu.
A minha jaqueta já tem três anos e, apesar da qualidade, é muito “feia”.
Os tênis já foram brancos, mas perderam a aparência. Os jeans são decentes, mas ninguém mais usa esse modelo.
Ainda não estou usando nenhuma maquiagem e o meu cabelo está preso às pressas num coque.
Eu provavelmente não estou nem perto de me parecer com uma modelo.
Pois é, ao lado desse cara lindo eu quero enfiar a cabeça na areia. Ou cair completamente no chão.
Novo sucesso de bilheteria. A bela e A Fera.
E a fera sou eu!
Sigo em frente, fingindo que não me importo que ele esteja me chamando, se dirigindo a mim. Bem, na verdade, eu não me importo, por que ele está falando comigo?
— Só um minuto, garota!
Oh, bem, pelo menos ele me chamou de garota! A minha vaidade não suportaria ''mulher''. Eu teria que me transformar num dragão e incinerá-lo.
— O que?
Paro e me viro. Tento manter as costas retas e a cabeça erguida, fingindo que sou a Rainha da Inglaterra.
Eu não acho que funcione. Mas ainda assim eu faço.
Como o meu Leo disse uma vez. explode, mas mantenha com estilo!
— Pegue. Compre um carrinho novo para seu bebê.
Ele fica a um passo de mim e... me entrega algumas notas. Não rublos.
Euro. Grandes e verdes. Quinhentos...
Sou instantaneamente dominada por uma onda de fogo e raiva.
Sim, se eu fosse a heroína de um romance de fantasia, agora me transformaria realmente numa espécie de mãe de dragões!
Eu até pareço um pouco com ela... Bem, aquele de Game of Thrones.
Eu vou queimar você até virar cinzas!
— Obrigado, claro, mas não preciso de esmola!
— O que? Ele praticamente grita.
Eu me viro bruscamente, porque em vez do fogo saindo da boca do dragão, lágrimas escorrem dos olhos do dragão.
Não quero chorar, mas choro!
Sim! Não tinha dinheiro para um novo carrinho. E foi por isso que comprei um carrinho velho!
E não posso comprar casaco há três anos, porque primeiro teve o funeral, depois o dinheiro para estudar, depois essa história do apartamento, e a Gena, que roubou quase todo o meu dinheiro!
E o pai de Alice, que vazou, “ignorando” todas as mensagens sobre a gravidez! Ele não gosta de camisinha, seu idio*ta!
Estou tão cansada disso! Tão cansada!
Constantemente contando centavos, negando tudo a mim mesmo...
Onde pequei tanto que tudo isso aconteceu comigo? Onde?
— Desculpe, não tive a intenção de te ofender. Eu... do fundo do meu coração!
Esse belo majorista também está zombando de mim?
Senhora, Romanova, como você chegou a este ponto, como?
Você já chegou ao ponto que parece que está precisando de caridade!
Por alguma razão, sinto um nó na garganta e é muito nojento.
E estou enojada comigo mesmo por ter desmoronado. Era preciso transformar tudo em piada, ou ignorar completamente. Não ouço, não vejo, não penso, não sinto...
Mas faz muito tempo que não sinto nada... Nada, por ninguém. Eu quis dizer como mulher.
Por alguma razão, agora, ao lado de um homem bonito, isso é claramente percebido.
O que devo sentir? Não tenho tempo para sentimentos! Eu tenho dois filhos.
Quase três, na verdade.
E os pensamentos são apenas sobre como vestir, calçar e alimentar. Sim, ainda preciso aprender!
Porque... Porque prometi ao Leo que faria isso. Sim, mesmo que eu não tenha prometido a ele!
— Garota, espere.
Senhor, por que ele não me deixa em paz, hein?
Ele apenas me pega pelo cotovelo e me vira.
— Jovem…
Ele vê as minhas lágrimas e parece que o seu rosto congela. Ele realmente percebeu que estava agindo de forma nojenta e feia?
Ok, lindo, não tenha medo, não me importo com palavras bonitas! Eu sorrio em meio às lágrimas e digo venenosamente: sabe o que vou te dizer, do fundo do coração? Vá, você sabe para onde!
Eu puxo a minha mão. Ando mais rápido, sem sequer tentar enxugar as lágrimas de raiva.
Não, afinal... existem apenas idio*tas, certo?
Aberração moral!
Idio*ta!
Desperdiçando dinheiro! Ele obviamente não tem muito dinheiro!
Besteira. Talvez devêssemos ter tirado esse dinheiro dele e comprado um carrinho?
Ando pelo caminho, tentando sacudir o carrinho com mais força. Assim a minha Alice adormece mais rápido.
Eu olho para ela sem parar. Só o nariz e os olhos são visíveis, ela já está dormindo.
Eu sorrio.
Isso é o que sempre pode me animar! Crianças! Como eu os amo!
Estúpi*da, eu deveria ter ido estudar numa escola pedagógica. Fiquei com medo então, pensei, que tipo de trabalho é esse… professora na escola? Os meus amigos e eu estávamos sempre zombando de algumas pessoas na aula. Imaginei que alguns alunos também pudessem fazer o mesmo comigo e mudei de ideia sobre começar a lecionar.
Estúp*ida.
Me sinto bem com crianças. Com as crianças eu permaneço eu mesmo. Mas com os adultos muitas vezes me perco.
Anastácia. Anastácia... Pare com isso! Você não tem o direito de relaxar! Nem por um minuto, nem por um segundo!
Você deve ser forte! Porque se não for você, então quem será?
Se não você, quem criará Maria? Se não for você, quem criará Alice? Se não for você, quem ajudará toda a sua família?
Então vamos lá, não pense em desmoronar!