— E o último irmão?
Ela me olhou, procurou algo novamente ao nosso redor.
— Não consigo encontrá-lo, ele não veio — ela murmurou. — Fique longe dele também se o ver. Ele é pior que… Zyon. — Suspirou. — Não sei se é verdade, mas ele trafica mulheres.
Meu peito se encheu de ar medonho.
— E ninguém faz nada?
— Eles são filhos de Christian Romano — recitou. — Acha mesmo que alguém pode fazer alguma coisa? Até que encontrem provas, eles são inocentes, apenas empresários italianos comuns. Christian é milionário, e seus filhos de alguma forma facilitam a sua vida, então é comum que o pai facilite a vida dos filhos no que diz respeito ao quesito criminal.
— Como… Dionísio permite eles aqui?
— Eles são a Elite Italiana, Pérsia. Não importa o erro que eles cometam, Dionísio nunca vai proibir a entrada de pessoas que são maiores que ele. Isso é uma jogada de política e troca mútua de poderes. — O garçom ofereceu um copo de vinho a Azalea e ela prontamente tomou em seus dedos. — Zyon e Pedro exibem poder para todos os presentes, mostrando que estão mais fortes e ricos como nunca, e Dionísio pode dizer que dois dos homens mais ricos da Itália são convidados íntimos de suas festas. Entende?
Olhando por esse lado, eu conseguia entender o motivo de minha mãe me afastar do mundo, mas o poder é algo que corrompe, e talvez o medo dela fosse de eu gostar dessa vida e nunca mais querer sair dela.
O poder e o dinheiro são como inseticidas em uma plantação, a gente acha que está livrando as plantas de insetos atacando elas com veneno, e é exatamente isso que o dinheiro faz com as pessoas, ele é um veneno necessário, mas mata.
Agora eu entendia o motivo de Rosa chamar aquele lugar de jaula dos leões.
— Não sei nem o que dizer. É realmente um covil de cobras. Vale tudo por poder e dinheiro — eu murmurei.
— Pérsia, fique longe de Afrodite e das salas secretas, tudo bem? Lembre-se, elas ficam em qualquer lugar que não seja esse salão.
— E como vou saber se não for só uma sala comum?
Azalea deu uma risadinha.
— Confia em mim, você vai saber. — Puxou seu vestido azul amassado. — Não se esqueça, qualquer coisa assobie alto, eu vou ouvir. Boa diversão, nos encontramos aqui antes das 2h da manhã.
Eu acenei de forma positiva, ela beijou minha bochecha com ternura, antes de sair por aquele andar enorme e gigantesco.
Quando Azalea partiu, a maioria dos olhares se acumulavam sobre mim. Eu conhecia alguns, mas tenho certeza que o número de rostos conhecidos, eu poderia contar em apenas uma das mãos.
— Uma taça de vinho, Srta.? — O garçom passou e viu meu copo vazio, estendendo-me uma nova taça limpa.
Eu peguei.
— Obrigada — agradeci.
Ele estendeu a garrafa, enchendo a taça até a metade e se distanciando para servir outras pessoas.
Eu me aproximei da sacada nos fundos do salão. A parte de fundo do lugar, na qual eu não sabia denominar se era um centro empresarial ou até mesmo um apartamento de grande dimensão, tinha o fundo feito inteiramente de vidro, dando uma vista completamente fervorosa do cais de Palermo. Eu me aproximei, debruçando a parte superior das hastes da sacada, agradecendo pelo vidro que estava nos separando do frio da parte de fora.
A lua estava gigantesca no alto do céu dando um brilho a mais na noite. Eu tinha o costume de pedir liberdade como um presente a ela durante as noites angustiantes da janela do meu quarto, mas, estranhamente, eu sonhava com ela dizendo que esse era um dos únicos pedidos que ela não podia me conceder, e eu respondia que entendia.
Eu sempre entendia.
Não porque queria.
Mas sim porque nunca tive outra opção.
— Não acho que a festa esteja agradando você. — Olhei para o lado, pensando em responder, depois de degustar do vinho rascante em minha taça, mas a beleza impressionante do homem ao meu lado me fez perder ou trocar algumas palavras.
— Eu… é… oi! — Desisti no meio do caminho. — Eu me senti um pouco… fora de ambiente.
Não sou o tipo de mulher que gagueja, mas diante de situações inesperadas e surpresas, as palavras parecem se agarrar no céu da minha boca.
Ele se debruçou ao meu lado, da mesma forma que eu estava debruçada. Seus cabelos loiros de um tom perolado que pareciam incandescentes e caíam um pouco sobre sua testa. Sua pele era em um tom rosado e bronzeado, os olhos azuis eram de um tom um pouco mais escuro que o normal, mas sua feição me era familiar, bem familiar.
— Eu vi você chegar — ele me respondeu, olhando para a lua da mesma forma que eu fazia antes.
Ele estava me imitando?
— Me viu?
— Passou pela porta de entrada logo depois de Rosa. — Ele dessa vez mudou de posição, encostando agora o quadril no aço da sacada. — Sei quem é você.
Eu não o conhecia.
E sei que se o conhecesse com certeza me lembraria. Ele não era o tipo de homem que se vê uma vez e esquece. Ele era o tipo de homem tão lindo que eu poderia lembrar de sua fisionomia ainda que se passassem 50 anos.
— Não acha injusto você saber minha identidade e eu não saber a sua?
Ele riu como se eu tivesse dito baboseiras.
— Me desculpe, eu não costumo ser tão m*l-educado. — O homem estendeu sua mão para pegar a minha e depositar um suave beijo nas costas dela. — É um tremendo prazer conhecê-la, Pérsia. Eu me chamo Eros.
Eros?
— O filho de Afrodite? — Deus, agora sim eu entendia.
— Em pessoa — ele me garantiu.
Ele tinha uma semelhança avassaladora com a fisionomia de sua mãe. Certamente, eles realmente se pareciam, e não era coisa da minha cabeça. Do olhar cativante até mesmo a forma de sorrir.
Ele sabia meu nome.
— Você… sabe meu nome?
— Rosa me disse que viria. — Jogou os cabelos para trás. — Esse não é o tipo de festa que você entra sem um convite.
— Então foi você que… — Ele abriu os lábios, mostrando os dentes, confirmando a pergunta que nem mesmo pude terminar.
— Considere como um presente de feliz aniversário, sinto muito que Deméter inviabilize sua liberdade.
Eu não esperava alguém tão amável.
Talvez galanteador, mas Eros parecia muito mais do que um homem com grandes poderes de sedução, ele parecia ainda mais compreensível e… estranhamente amigável.
Suas sobrancelhas grossas se mexiam à medida que ele piscava.
— Rosa contou a você?
— Não é segredo de toda a Sicília que a dona do Jardim do Éden esconda sua filha do mundo. Não acredito que ela esteja errada, Pérsia, mas poderia ser mais flexível. — Ele riu. — Mas acredite, estou me arriscando oferecendo essa possibilidade pra você.
— Então por que… conseguiu um convite para mim?
— Eu normalmente consigo ser duro com muitas coisas, mas o meu fraco são mulheres que sabem como pedir, e Rosa me conhece muito bem.
Eu me engasguei com o vinho e o senti sair por meu nariz, queimando as vias nasais e lacrimejando meus olhos.
As conotações sexuais ainda me deixavam um pouco fora de ambiente.
Eu não tinha o que comentar do que ele havia me dito, mas acho que um agradecimento seria talvez o bastante.
— Obrigada — disse.
Ele sorriu e eu continuei a olhar pra lua sem me importar que ele ficasse ali comigo, me fazendo uma boa companhia.
Eros não gostava de silêncio, seu olhar se dividia entre mim e na direção do meu olhar.
— Acho que deveria aproveitar a noite. Me desculpe se vou soar muito ignorante, mas acho que vai ter bastante tempo pra admirar a lua.
Eu fiz dele minha atenção naquele momento.
— Então acho que sabe mais de mim do que eu pensei.
Sua face estava distraída.
— É, talvez sim.
— A lua me acalma.
— Me parece procurar respostas. — Jogou as palavras na mesa.
— Já as tenho.
— Mas não acho que sejam o suficiente. — Eros admirou novamente a lua, mas dessa vez seus braços se cruzaram e eu sabia que ele fazia suposições em sua cabeça. — Você não é a única, Pérsia. A lua está cheia de olhares perdidos procurando por respostas.
— Você me parece já ter usado ela pra ter as suas.
Um garçom passou discretamente oferecendo a ele um pouco do vinho. Eros tomou em seus dedos, bebendo quase a metade do copo, e a julgar pela cara que ele fez, ele teria bebido tudo de uma vez só se não tivesse que parar para me responder.
— Talvez você só esteja procurando pelas suas respostas no lugar errado.
Nós dois rimos juntos.
Ele era uma boa pessoa.
Poucos minutos foram o suficiente para que eu pudesse atestar que boa parte da conquista que Eros usava era sendo um cavalheiro, uma boa pessoa, e acho que essa personalidade sólida dele abria espaço para tentar o que quisesse, um affair, uma amizade, um jogo de política, ele era bom nisso. Tão bom que acredito que fazia isso sem nem mesmo perceber.
— Você é uma boa pessoa, Eros.
— Eu deveria ser uma pessoa r**m?
— Não sei porque, mas eu achei que você fosse um pouco mais sério. — Admiti com total seriedade.
Eros não me respondeu, seu olhar permaneceu atrás de mim, mas diferente de alguns momentos de nossa conversa, seu sorriso morreu e seu olhar se contraiu, fazendo com que seus músculos se enrijecessem. Ele abaixou o rosto e discretamente disse:
— Pérsia, preciso que vá pra qualquer lugar que não seja aqui.
Eu pisquei sem entender.
— Eu fiz alguma coisa? — perguntei atônita.
— Minha mãe está a caminho.
Eu soltei o ar que prendia.
— E qual o problema nisso?
— Por que acha que Rosa não está ao meu lado nesse exato momento? — A mania primordial que percebi que ele tinha, era responder cada uma das minhas perguntas fazendo uma nova pergunta.
— Pra onde eu vou?
— Pra longe de vista — ele pediu e eu fiquei simplesmente sem ação, encarando-o por longos segundos, esperando que meu cérebro desse o primeiro pedido de socorro para que eu conseguisse simplesmente sair dali. — Afrodite e sua mãe se odeiam, e não me pergunte como, mas ela sabe exatamente quem você é, então na cabeça dela, ela tem motivos extras para vir aqui, então vai, agora.
Eu não sei exatamente pra onde fui, mas é no desespero que consigo entender que eu realmente não deveria estar ali, naquelas roupas, naquele salto e naquela maquiagem. Meus pés sem experiência andavam de uma forma desengonçada, me fazendo procurar as paredes para amparo naquele corredor extenso e enorme.
Eu andei perpetuamente até que a música alta do salão principal estivesse extinguida de meus ouvidos.
Afrodite era a própria soberba, os inúmeros títulos como modelo e atriz lhe renderam uma carreira gloriosa, e dentro da Itália não se podia falar em beleza e sensualidade sem mencionar seu nome. Eu ouvia de algumas pessoas que assim como Deméter, ela era extremamente ciumenta com seu filho mais velho, e conseguia afastar qualquer mulher que se aproximasse dele.
Afrodite sempre procurava afastar qualquer pretendente que seu filho pudesse ter, o motivo era desconhecido, mas certamente nenhuma mulher que tivesse interesse nele, continuava a pensar da mesma forma depois de conhecer sua mãe, eis o motivo dele procurar viabilizar melhor seus lances amorosos: pagando.