Uma semana se arrastava como uma eternidade. Clara, sentada à mesa da cozinha, mexia distraidamente no café frio, a colher tilintando contra a xícara. A culpa a corroía, mas a saudade de Lucas era um peso maior, uma âncora que puxava seus pensamentos para as conversas perdidas. Lembrava-se da forma como ele a fazia rir com uma frase boba, do jeito que seus olhos pareciam brilhar mesmo através das palavras na tela. Cada lembrança era uma faca: cortava pela culpa, mas também pelo vazio que ele deixou.
Num impulso, pegou o celular e abriu o perfil de Lucas. Ele ainda postava uma foto de um pôr do sol, outra de um meme aleatório, mas algo estava diferente. As legendas, antes cheias de ironia e leveza, agora eram curtas, quase secas. As cores das fotos pareciam desbotadas, como se ele também carregasse um peso. Clara sentiu o peito apertar. Sem pensar muito, abriu o chat e digitou, os dedos hesitantes, como se as palavras fossem frágeis demais:
Clara: Lucas, sinto sua falta. Das nossas conversas. Você não fala comigo como antes.
Do outro lado, Lucas estava deitado, encarando as rachaduras do teto, o celular jogado ao lado como um peso indesejado. A notificação piscou, e ele sobressaltou-se. Clara. O coração disparou, misturando alegria, surpresa e uma pontada de ressentimento. “Sinto sua falta?” Depois de tudo? Hesitou, o polegar pairando sobre a tela. Curiosidade e saudade falaram mais alto. Abriu o chat, os dedos trêmulos, e respondeu num tom mais contido que o usual:
Lucas: Oi, Clara. Tô aqui. Se quiser, é só mandar mensagem.
A resposta trouxe alívio a Clara, mas também uma nova camada de ansiedade. Ele estava frio, distante. Ela entendeu: ele estava machucado. Como consertar isso? O aperto no peito era o mesmo que imaginava nele. Respirou fundo, o ar pesado, e escreveu:
Clara: Me desculpe por ter te machucado. Eu não queria. Nossa conexão é importante pra mim, e a ideia de te perder me assusta.
Lucas leu, sentado na cama, com o celular quente nas mãos. O ressentimento cedeu, por um instante, a uma faísca de esperança. Ela se importa comigo, pensou. Inclinou-se para frente, como se a tela pudesse trazer Clara mais perto, e respondeu:
Lucas: Eu entendo, Clara. É que… eu não esperava me sentir assim. Você é especial.
Aquelas palavras foram um bálsamo. O “você é especial” reacendeu uma chama quase apagada no peito de Clara: calor, alívio e, outra vez, culpa. Ela empurrou a culpa para depois; a saudade parecia mais forte. Voltaram a conversar, mas com cautela, como quem caminha sobre gelo fino. As trocas, antes leves e espontâneas, ganhavam agora uma gravidade nova: palavras, medidas, silêncios carregados, limites que ora se formavam, ora se desfaziam. Lucas evitou cantadas. Clara não deu margem. Ainda assim, a conexão pulsava, clara e incômoda, tingida pelo desejo que ambos sabiam existir.
Cada mensagem era um passo num campo minado. A alegria de tê-lo de volta convivia com o medo de cruzar a linha. Clara se perguntava quanto tempo aquela “amizade” resistiria antes que um deles cedesse. O destino lhe devolveu uma segunda chance, mas seria um caminho para a paz ou um convite para mais dor?
Na mesma manhã, Otávio, marido de Clara, atravessava o corredor barulhento da empresa, o crachá balançando no pescoço. O ar condicionado zumbia, misturado ao som de teclados e risadas abafadas. Ele parou na máquina de café, o copo de papel quente nas mãos, quando sentiu um perfume doce e um toque leve no ombro.
“Otávio, você viu o relatório novo?” perguntou Lívia, uma colega de cabelo cacheado e sorriso fácil, inclinando-se mais perto que o necessário. Os olhos dela brilharam, e o tom era menos profissional, mais provocador.
“Vi, sim,” respondeu Otávio, com um meio-sorriso, desviando o olhar para o copo. “Tá na minha mesa.”
“Você é sempre tão ocupado…” Lívia passou a mão pelo braço dele, os dedos demorando-se um segundo a mais. “Relaxa um pouco, vai.”
Antes que ele pudesse responder, outra colega, Ana, se aproximou, segurando uma pasta. “Otávio, me ajuda com isso aqui? Não entendi a planilha.” Ela piscou, o batom vermelho, destacando-se enquanto se inclinava sobre a mesa, o decote sutil mas calculado.
Otávio riu, desconfortável, mas não recuou. “Tá, deixa eu ver.” Ele se aproximou, e Ana deixou a mão roçar na dele ao passar a pasta. O momento foi interrompido por um colega chamando a Lívia, mas Ana ficou. Enquanto explicava a planilha, ela se inclinou mais, o ombro encostando no dele. Num impulso, talvez pelo calor do momento, Otávio se virou, e os lábios deles se encontraram , um beijo rápido, quase acidental, mas carregado de intenção. Ana sorriu, sem recuar, e Otávio sentiu o coração acelerar, uma mistura de adrenalina e culpa.
O burburinho do escritório foi cortado pela voz do gerente, Ricardo, batendo palmas. “Pessoal, atenção! Quero apresentar nossa nova colega, Marina.”
Uma mulher entrou na sala, o vestido justo vermelho destacando as curvas, os cabelos curtos e morenos emoldurando um rosto de traços marcantes. Ela sorriu, confiante, os olhos varrendo o ambiente. Quando pararam em Otávio, ele sentiu um calor subir pelo pescoço. Marina caminhou até ele, estendendo a mão.
“Prazer, Marina,” disse, a voz aveludada, os dedos segurando os dele por um instante a mais. “Ouvi falar de você. Parece que vou precisar da sua… ajuda pra me adaptar.” O sorriso dela era um convite, e Otávio, ainda atordoado pelo beijo com Ana, apenas se irritou, com a garganta seca.
Clara, em casa, largou o celular na mesa, o brilho da tela refletindo nos olhos cansados. A conversa com Lucas a aquecia, mas também a deixava em pedaços. Cada palavra trocada era um lembrete do que ela não podia ter. Levantou-se, caminhou até a janela e olhou para a rua, onde o sol batia nas árvores. O mundo lá fora parecia seguir, indiferente ao nó em seu peito.
Lucas, do outro lado da cidade, guardou o celular no bolso e saiu para caminhar. O vento frio batia no rosto, mas não apagava o calor das palavras de Clara. Ele parou num banco de praça, olhando o movimento sem ver. A conexão com ela era um fio esticado, pronto para se romper ou para puxá-lo para mais perto. Ele não sabia qual das duas opções o assustava mais.
Otávio, ainda no escritório, sentiu o olhar de Marina mesmo estando de costas. Ele logo se lembrou do beijo com Ana que ecoava em sua mente, assim como o flerte descarado da nova colega. Ele pegou o celular, viu uma notificação de Clara , uma mensagem trivial sobre o jantar e respondeu rápido, sem emoção. Guardou o aparelho e voltou ao trabalho, mas o peso de suas ações começou a se acumular, tão silencioso quanto o de Clara.
Em quartos diferentes, sob o mesmo céu, Clara, Lucas e Otávio carregavam suas feridas: ela, dividida entre a culpa e o desejo; ele, preso entre a esperança e a dor; e Otávio, flertando com a tentação que poderia mudar tudo. A madrugada se aproximava, prometendo silêncio, mas também o risco de um amanhecer onde nenhuma escolha seria fácil.