Clara saiu da cozinha de Lucas com o gosto do beijo ainda grudado na boca, um mix de café e surpresa, o coração batendo como quem correu uma meia-maratona emocional. Eles haviam se beijado , tímido no início, firme depois e, quando Lucas tentou avançar o sinal, ela recuou. Não foi por falta de desejo, mas por medo: medo de quebrar algo que já estava rachado demais. Lucas respeitou, respirou fundo, colocou as mãos no bolso e a acompanhou até a porta sem pressa. “Está tudo bem?”, ele perguntou. Clara sorriu, disse que sim e saiu.
No caminho de volta, a cidade parecia espremida entre dois mundos: o que ela queria ser e o que já era. O táxi m*l rodou a esquina e Clara já ensaiava mil respostas possíveis. Ao abrir a porta do prédio, um frio de verdade apertou no peito, não pelo ar, mas pela presença que a aguardava no apartamento. Otávio estava sentado na sala, a expressão dura e esgotada, como alguém que bebeu do próprio veneno e não gostou do gosto.
Clara: Você chegou cedo ,disse ela, com a voz tentando vestir casualidade e falhando.
Clara deixou a bolsa no sofá com movimentos medidos. Ainda cheirava a Lucas: perfume leve, suor e a liberdade que ela tentara conter com um gesto. Otávio levantou. Havia marcas recentes na cara dela , não físicas, mas as que ficam de olhar. Ele sabia que ela sabia de Marina.E Clara sabia que ele sabia que ela sabia. Aquele silêncio carregava a imagem que ela jamais esqueceria: Otávio e Marina, entrelaçados no escritório, portas entreabertas, os dois se beijando. Ela os pegou no flagra ,mas não fez escândalo,apenas se afastou.Tinha a foto na memória, o frio na espinha, a raiva que era quase física.
Preciso conversar, disse Clara, sem sentar. A frase era um bilhete de demissão.
Otávio tentou um sorriso que havia perdido há tempos. Clara… podemos falar disso depois?
Ela riu, sem humor. Depois? Eu vi vocês, Otávio. Não é segredo que se resolve com “depois”.
Ele entrou em defesa, tentou explicar que foi um erro, que Marina estava passando por um problema, que não significava nada. A argumentação soou tão velha quanto desculpas m*l ensaiadas. Clara observava o gesto: a tentativa de minimizar, o tom que pedia perdão sem realmente pedir. Ela pensou no beijo com Lucas, em como houve respeito quando ela recuou, em como Lucas havia acolhido a escolha dela sem cobrar. Pensou também nas noites em que Otávio havia chegado tarde e no som abafado de conversas no escritório que ela fingia ignorar.
O apartamento virou um ringue de possibilidades. Entre as frases, dois cenários se desenhavam com uma clareza dolorosa:
Pegar suas coisas, pedir o divórcio e recusar mais mentiras. A palavra “divórcio” parecia um alívio e um terremoto ao mesmo tempo: liberdade com preço alto, recomeço com medo e promessa de paz que talvez ela merecesse.
Ou perdoar por cansaço, por esperança romântica, por anos investidos. Esquecer ou tentar esquecer, abrir mão da ideia de pureza conjugal em troca de rotina e alguma estabilidade. Viver com cicatrizes, seguir em frente como dois atores que ensaiam o afeto.
Clara sentiu as mãos tremerem. Não por covardia, mas por reconhecimento da encruzilhada. A imagem de Lucas respeitando seu recuo bateu como um lembrete: o respeito existe; as escolhas, também. Ela podia escolher partir e reconstruir; ou aceitar e negociar limites, terapia, promessas cotidianas, palavras que pesavam menos que atos.
Olhou para Otávio. No rosto dele, uma mistura de culpa e alívio , como quem foi pego e quer ser perdoado para não perder o que resta. Olhou para a porta, imaginando o corredor que levava para um apartamento onde, talvez, ainda coubesse o som de um café tomado em silêncio. Olhou para o telefone, pensando em Lucas, em mensagens não enviadas, na possibilidade de começar algo novo.
O que você quer que eu faça? perguntou Otávio, a voz quase miúda. Não era um pedido; era um teste.
Clara respirou fundo. O tempo, naquele momento, estava todo dela. Não havia resposta automática pronta. Havia apenas a decisão de não se apressar em perdoar para evitar o fim, nem de usar um beijo como justificativa para sair correndo sem pensar nas consequências. Ela precisava de espaço, de uma resposta que não fosse doída demais e nem fácil demais.
Eu preciso pensar ,disse ela, com calma polar. Não me dê um “depois” como solução. Quero ver atitude, e não palavras. Uma semana. Se for pra continuar junto, precisa ter mudanças reais. Se não… eu vou embora.
Otávio concordou aliviado e tenso. Não era o divórcio imediato, nem o perdão de bandeja. Era uma ponte posta, frágil, testada. Clara fechou a porta do quarto devagar, e ao apoiar as mãos na madeira, sentiu a realidade: um passo para qualquer lado seria irreversível. Pela primeira vez em muito tempo, decidiu que a escolha seria sua, feita com olhos abertos.
Ficou sozinha. Do lado de fora, a cidade seguia, e na cozinha de Lucas , em algum momento daquela tarde , um beijo deu sinais do que poderia ser. Agora, diante de Otávio e da traição, Clara não queria mais responder por impulso. Queria decidir com critério: divórcio ou remendo ,ambos exigiriam coragem. Ela guardou essa coragem como quem guarda uma xícara quente: perto, pronta para aquecer qualquer escolha que fizesse.