Pássaro

1720 Palavras
Niall Observei Ela. Seu sorriso bobo depois de contar uma piada terrivelmente r**m. Seus óculos redondos. Seu cabelo esvoaçante e cheiroso. Ela passou a língua entre os lábios e eu me imaginei os beijando. Qual seria o sabor? - Essa foi boa, admite - ela continou sorrindo. - Melhor que a última - falei e voltei a minha atenção para a televisão, talvez assim minha vontade em a beijar passasse. - Você é um chatinho - ela cutucou meu braço e eu sorri. Chatinho. Quem xingava alguém de chatinho? Ela se aconchegou ao meu lado no sofá, e meu coração se derreteu feito manteiga em pão quentinho. Essa garota me tinha nas mãos. Meu coração dado inteiramente para ela. E eu tinha medo, ser tão vulnerável a alguém não me parecia algo bom. A música é alta em meus fones de ouvido, e isso me anima mais a correr. Hoje Londres está em um tempo bom para se exercitar, e eu não poderia perder a oportunidade em correr pelo parque. Sinto o suor descendo pela testa e passo as costas das mãos rapidamente sem parar de correr. Tento pensar em tudo, comida, cidades, animais, mas quanto mais eu tento, mais eu lembro dela. Minha cabeça parece um emaranhado de fios, e todos eles estão ligado à ela. Somente ela. - Niall - a voz calma me puxou dos meus conflitos internos e eu foquei minha atenção no rosto angelical na minha frente. Seus braços me envolveram em um abraço apertado e reconfortante. A agonia em meu peito diminuiu significativamente ao ouvir seu coração, sentir seu perfume. Ficamos em silêncio por mais de trinta minutos, coisa que raramente acontecia com nós dois juntos. Eu odiava minhas crises, mas amava que eu tinha Ela comigo. Era meu remédio, o mais forte e eficaz de todos. - Eu posso falar uma coisa? - murmurou. Apenas balancei a cabeça consentindo. -  Ansiedade não passa de um passo de um pássaro que tava voando e pousou. Eu li isso em um livro, precisamos entender que as coisas são simples às vezes, e algumas que foram, já voltaram. Fiquei um tempo pensando em suas palavras, tentando entender o que queria dizer com elas. Talvez tivesse razão, mesmo eu não entendendo naquele momento, eu sabia que ela sempre tinha razão. Bebo a água no bebedouro do parque e me sento no banco ao lado para descansar. Meu peito está agitado, meu coração parece querer saltar do corpo, e eu gostaria que saltasse. Talvez assim a dor que tenho nele sumisse. Sinto algo quente escorrendo pelo meu rosto e penso ser mais suor, mas então percebo que estão vindo dos olhos. Eu m*l me lembro da última vez que chorei, e agora isso está acontecendo. Chorando feito i****a por uma garota. Não sei quanto tempo passei sentado no banco chorando, mas assim que as gotas d'água gelada caem em meu corpo, me levanto e caminho de volta para minha casa sem pressa. A chuva aumenta a cada passo que eu dou e mesmo sendo um pensamento dramático, eu imagino que ela está se unindo com a minha tristeza. - Eu estou apaixonado por você, e eu sei que parece estranho, mas é a verdade...- falei para o espelho treinando a minha declaração para mais tarde. É seu aniversário, e decidi que é o melhor momento para ser sincero sobre meus sentimentos. - Eu não consigo mais imaginar sermos somente amigos quando a cada vez que fecho os olhos eu quero te beijar - suspirei - Eu... - a campainha tocou me interrompendo. - Niall! Você não vai acreditar! - Ela entrou na minha casa depois de me dá um abraço rápido. - O que? - fechei a porta atrás do meu corpo e me virei para olha-lá não entendendo o que estava fazendo na minha casa e não organizando a sua festa para mais tarde. Mas minhas perguntas morreram quando vi o sorriso feliz no rosto dela, aparentemente o que quer que tinha para me falar, era muito bom, e se isso a fazia ficar radiante daquela maneira, então eu estaria bem. - Estou namorando - falou. Não, não estaria bem. Uma simples frase acabou com tudo a minha volta. Pude ouvir meu coração se partindo, o som mais triste e doloroso do mundo. A agonia em meu peito foi tanta, que pensei está com falta de ar. Me sentei no sofá desviando meus olhos do rosto bonito da menina que tinha meu coração nas mãos, mesmo que agora estivesse em pedaços. Não tive ao menos tempo para te dizer todo meu discurso. Não disse o quanto eu a amava, que eu faria sua comida favorita sempre que ela quisesse, que mesmo não gostando de dançar, eu dançaria por ela, com ela. Seria o namorado que ela sempre quis, ou pelo menos tentaria todos os dias ser. - Niall? Namorando... - Quem? - perguntei quase em sussurro. - Então, essa é a parte engraçada. Lembra daquele garoto que eu te contei que estava saindo? - Ela perguntou ainda animada, parecia uma ofensa contra meus sentimentos. Ela não percebeu que eu estava acabado na sua frente? Assenti mesmo não me lembrando de quem ela estava falando. Começou a contar toda a história e suspirava sempre que se perdia em seus pensamentos, eu tentei prestar atenção, mas não consegui, tudo que se passava na minha cabeça era que eu a havia perdido. - Você está apaixonada por ele? - perguntei subitamente interrompendo o que ela estava falando. Seu olhar confuso se virou para mim, ela finalmente detectou algo diferente acontecendo comigo. - Hum, sim, óbvio - respondeu simplesmente - O que você tem? Um coração partido. - Nada, eu só não sabia que você estava apaixonada. - Eu não sabia que estava, quando ele se declarou pra mim que tudo ficou claro. Ele é tão sortudo. Tão sortudo. Fiquei em silêncio sem saber o que dizer. Eu não queria falar nada na verdade. Meu desejo era me trancar no meu quarto e lá ficar até tudo isso acabar, até ela perceber que não deveria está com esse garoto, mas sim comigo. - Niall você está tão estranho, não gostou da notícia? - perguntou e eu quis ri e chorar ao mesmo tempo, mas não respondi, me mantive em silêncio. Eu não sabia o que sairia pela minha boca se eu a abrisse agora. - Porfavor me olha - ela pediu fazendo meu peito se apertar. Mas eu não podia fazer isso, eu não podia olhar em seu rosto e saber que sua boca não iria beijar a minha, que seu olhar apaixonado não seria direcionado para mim. Por que a vida te colocou no meu caminho se não vamos ficar juntos? Sou surpreendido pelas suas mãos macias segurando cada lado do meu rosto, e assim ela me puxou para olha-lá quase que obrigatoriamente. Minha pulsação acelerou como se eu estivesse em uma maratona de corrida ao olhar tão de perto seus olhos. Sua respiração quente bateu contra minha pele, e juro por Deus que precisei de todo autocontrole do mundo para não atacar seus lábios. Ficamos nos encarando de perto por minutos longos até ela encostar sua testa na minha e fechar os olhos. Eu queria saber o que se passava na sua cabeça, mas eu m*l entendia o que se passava na minha. - Eu te amo - sussurrei antes que eu pudesse me parar. Senti ela estremecer. - Eu também te amo - disse de volta mas não me acalmou em nada. Não era esse amor que eu queria. Eu queria que ela me amasse assim como eu amava ela. Mas em hipótese alguma eu a diria isso, ainda mais sabendo que ela estava apaixonada por alguém. Ela merecia ser feliz, mesmo não sendo ao meu lado. - Feliz aniversário - falei a lembrando da data. Ela sorriu, o sorriso que eu tanto amava. - Obrigada - afastou seu rosto do meu para me dá um abraço apertado. Fechei meus olhos sentindo sua pele macia e cheirosa contra a minha, desejando ficar assim com ela para sempre. Saio do banheiro depois de um banho longo e triste. Me sento na minha cama e pego meu celular. Rolo o feed do i********: aleatoriamente sem me preocupar com as fotos que me aparecem, até que uma dela surge. É da festa de seu aniversário que ocorreu ontem. Eu não fui, menti que estava com dor de cabeça, apesar dela ter insistido e feito um drama enorme no telefone, não conseguiu me convencer. Eu não iria para um lugar somente para ser ainda mais machucado, já bastava o que havia acontecido mais cedo. Na foto estão ela, um garoto ruivo com os braços em volta da sua cintura, que deduzi ser seu namorado, e alguns amigos que eu conheço. Todos sorridentes e cheios de confetes coloridos. Eu tento observar cada um, mas minha atenção está apenas Nela imersa em uma felicidade genuína, e incrível com seu vestido rosa de renda que eu a presentiei ontem antes de ir embora. Ficou mais linda do que eu imaginei quando o comprei, e eu só queria ter visto isso pessoalmente. Bloqueio meu celular e me jogo de costas na cama. A vontade de chorar volta com força agora, e eu deixo acontecer. Deixo as lágrimas molharem o meu rosto como a chuva molhou. Os soluços logo começam a surgir, e eu só me permito extravasar tudo, a dor me faz sentir perto dela, de forma c***l e nada convencional, mas faz. - Você vai aparecer hoje? - Ela perguntou já na porta com a caixa que eu a entreguei. - Sim - menti, não iria pisar em um lugar onde ela estaria beijando outra pessoa que não fosse eu, pior ainda apresentando para todos os amigos e familiares que aquele era seu namorado. - Ok, então te espero lá - sorriu triunfante e eu congelei aquela imagem na minha cabeça. A última vez que eu a veria. Eu deveria ter a escutado quando me consolou no dia da minha crise. Quando falou que a ansiedade era um passo de um pássaro que estava voando e pousou. Meu amor por ela tinha criado seu caminho, ele fluiu, e agora voltou pra mim, pousou, e eu terei que lidar com isso sozinho. Um pássaro sozinho. 
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