Envenenada?

1153 Palavras
Assim que entrou no carro, Maurice não perdeu tempo. Ainda com o motor ligado, sacou o celular e procurou rapidamente o contato recém-adicionado da nova médica da máfia — uma mulher de meia-idade, discreta, mas conhecida por sua competência e discrição. Ao atender, a voz dela era serena, profissional: — Doutora Élise falando. — Preciso da senhora na minha casa agora. Emergência médica. Uma jovem está inconsciente, febril. É urgente. — A voz de Maurice era cortante, sem espaço para perguntas. — Estou a caminho — respondeu ela com prontidão. Maurice desligou sem mais palavras e acelerou o carro com firmeza. O tempo parecia escorrer entre os dedos, cada segundo mais insuportável que o anterior. A mansão surgiu ao longe sob o céu encoberto, pesada e silenciosa. No mesmo instante em que Maurice freava o carro diante da entrada, o veículo da doutora Élise parava logo atrás. Os dois saíram quase ao mesmo tempo — ele com os passos rápidos, o rosto fechado; ela com uma maleta na mão, os cabelos grisalhos presos num coque firme e o olhar atento, como quem já previra a gravidade do que encontraria. Sem trocar palavras, seguiram lado a lado pelos corredores da mansão, até onde Madeleine os aguardava, pálida, ansiosa e aflita. Maurice ia à frente, guiando a médica, mas parou subitamente no topo da escada ao avistar o rosto de Madeleine, parado à porta do quarto. Não precisou que ela dissesse uma palavra. Seu semblante pálido, os olhos marejados e a rigidez do corpo diziam mais do que qualquer explicação: era grave. Maurice sentiu um frio percorrer a espinha. Respirou fundo e entrou com a médica, que rapidamente assumiu o controle da situação. Abriu a maleta com precisão, tirando os instrumentos, aproximando-se da cama onde Violeta estava deitada, imóvel. A pele dela parecia ainda mais pálida sob a luz amarelada do quarto. Havia suor na testa, os lábios ressecados, e uma respiração leve, instável. A doutora Élise fez o exame clínico com rapidez e atenção, tocando o pulso da jovem, observando seus olhos, escutando seu batimento. Seus gestos eram metódicos, treinados — mas o franzir de seu cenho denunciava que não gostava nada, nada do que via. Maurice manteve-se ao lado da cama, atento, os punhos cerrados. Em voz baixa, como se não quisesse romper o frágil equilíbrio no quarto, disse: — Madeleine me contou que ela quase não tem comido. Pode ser só fraqueza? A médica guardou lentamente o estetoscópio na bolsa, fechando-a com um gesto cuidadoso. Depois ergueu os olhos, firmes, sérios, e disse com uma voz densa: — Não, senhor Maurice. Isso não é fraqueza. Ela foi envenenada. O silêncio que se seguiu pareceu sugar o ar do quarto. Maurice deu um passo para trás, como se a frase o tivesse atingido fisicamente. Madeleine levou a mão à boca, os olhos arregalados. — O quê? — sussurrou, em choque. — Os sintomas são claros — continuou a médica, com firmeza. — Desorientação, febre súbita, vômito, sudorese, inconsciência... é um quadro típico. Não é algo comum, e definitivamente não é algo que o corpo dela desenvolveria sozinho. Isso foi provocado. Ela olhou para os dois — Maurice e Madeleine — que permaneciam paralisados, incrédulos. — Claramente ela foi envenenada. O silêncio caiu pesado outra vez. Maurice sentiu o estômago revirar. Dentro daquela mansão, sob seus olhos, sob sua vigilância... alguém havia rompido a barreira do inaceitável, foi isso que ele acreditou. A médica fechou sua maleta com pressa, sua voz firme cortando o ar espesso do quarto: — Ela precisa urgente de um hospital. Agora. A vida dela está em risco. Maurice não hesitou. Cruzou o quarto em dois passos e inclinou-se sobre Violeta, envolvendo-a com cuidado nos braços. O corpo dela, leve demais, cedeu facilmente ao movimento. Estava ainda mais pálida do que de costume, e a pele fria como porcelana esquecida no gelo. — Madeleine, chame o carro — disse ele, com urgência, já se erguendo com Violeta no colo. Desceu as escadas em silêncio tenso, os braços firmes, mas o coração descompassado. Cada segundo parecia uma eternidade. Do lado de fora, os seguranças abriram caminho sem dizer palavra — todos percebiam que a situação era grave. Maurice m*l os olhou. Seu foco era um só: o hospital da máfia francesa. Era o único lugar onde ela teria uma chance real de sobreviver, onde poderiam lidar com um envenenamento de origem desconhecida. Dentro do carro, Violeta começou a murmurar, a respiração entrecortada. — Papa... papa... pourquoi...? As palavras saíam frágeis, como se arrastadas de um pesadelo. Maurice a olhou, sentindo o estômago se torcer. Ela chamava pelo pai. Perguntava por quê. Ele apertou os lábios, tentando conter a raiva e o desespero que cresciam por dentro. A jovem entre seus braços não tinha forças nem para abrir os olhos — e mesmo assim, a dor que sentia transbordava. — Estamos quase lá, Violeta — sussurrou ele, com a voz grave e baixa. — Aguenta firme. Madeleine segurava a mão da menina no banco de trás, em silêncio, com o rosto pálido como o dela. E nenhum dos dois ousava dizer em voz alta o que já temiam: ela poderia não sobreviver. Enquanto o carro seguia em velocidade pelas ruas da cidade, Maurice não conseguia desviar os olhos do rosto de Violeta, aninhada em seus braços. A cada pequeno soluço frágil que ela soltava, algo dentro dele se revirava — uma mistura de culpa, urgência e uma estranha ternura que ele não estava preparado para sentir. Já havia notado antes, de relance, que ela tinha os traços da mãe — uma prostituta francesa que ele preferia esquecer. A mulher nunca quis a filha, entregou-a como quem se livra de um fardo. Mas agora, com Violeta tão próxima, os olhos semicerrados pela febre, Maurice a enxergava sob uma nova luz. Ela era bonita. Muito bonita. Mais do que deveria. Mesmo pálida, o rosto de Violeta parecia esculpido em mármore fino. As maçãs do rosto altas, elegantes, conferiam a ela uma nobreza inata. Os cílios longos repousavam sobre as faces com suavidade, e os lábios, ainda que ressecados, mantinham um desenho delicado, naturalmente curvados como os de uma bailarina de porcelana. O nariz pequeno e perfeitamente alinhado, os traços suaves do maxilar, tudo nela lembrava algo frágil e ao mesmo tempo precioso — como uma herdeira de sangue azul, mesmo sem título algum. Os cabelos, mesmo bagunçados pela febre, deslizavam sobre seus ombros como seda castanho-escura com reflexos dourados sob a luz da rua. E mesmo naquela condição, debilitada e vulnerável, havia uma beleza que se impunha. Maurice a apertou com mais firmeza contra o peito, como se pudesse protegê-la do mundo que já a havia machucado tanto. E pela primeira vez, sentiu que perder Violeta seria uma dor irreversível, ele estaria quebrando uma promessa, um juramento de sangue. — Não ouse morrer, menina... — sussurrou, rouco. — Você nem começou a viver ainda.
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