ANTHONY CESARINNI

1498 Palavras
Anthony tinha uma fortuna ao alcance de suas mãos. Mas para conseguir o que queria, ele precisava de uma esposa. Anthony acreditava em muitas coisas. Trabalhar duro para atingir um objetivo. Controlar a raiva e recorrer à razão em momentos de confronto. E construir edifícios. Edifícios sólidos e esteticamente belos. Ângulos suaves e linhas precisas se fundindo de maneira harmoniosa. Tijolos, concreto e vidro representando a solidez que as pessoas buscam na vida cotidiana. O breve momento de deslumbramento quando alguém vê pela primeira vez sua criação finalizada. Tudo isso fazia sentido para ele. Anthony não acreditava em amor eterno, casamento e família. Nada disso fazia sentido para ele, que havia decidido não introduzir tais temas sociais em sua vida. Infelizmente, Tio Earl havia mudado as regras. Anthony sentiu um nó nas entranhas, e seu senso de humor doentio quase fez com que uma risada transbordasse de seus lábios. Ergueu-se da cadeira e tirou o terno azul-marinho, a gravata listrada de seda e a camisa branca como neve. Com um movimento rápido de pulso, ele abriu o cinto e trocou-se rapidamente, vestindo um moletom cinza e uma camiseta da mesma cor. Enfiou os pés em seus tênis Nike Air e adentrou o santuário que era seu escritório, decorado com modelos, esboços, fotos inspiradoras, uma esteira, alguns halteres e um bar muito bem suprido. Ele pressionou o botão no controle remoto que comandava o MP3 player, e logo os acordes de La Traviata preencheram o escritório e limparam sua mente. Ligou a esteira e tentou não pensar em cigarros. Mesmo depois de cinco anos, ele sentia uma vontade intensa de fumar sempre que seu nível de estresse aumentava um pouco. Irritado com a fraqueza dessa ânsia, ele se exercitava. Correr o acalmava, ainda mais naquele ambiente perfeitamente controlado. Nada de vozes altas ou sol ofuscante quebrando sua concentração, nada de pedrinhas ou cascalho atrapalhando a passada. Ajustou as configurações no painel da esteira e começou a correr no ritmo regular que sempre o levava à solução de seus problemas. Ele entendia as intenções de seu tio, mas a sensação de ter sido traído estava acabando com a sua paz. No fim das contas, fora usado como um peão por um dos únicos membros de sua família que ele de fato amava. Anthony sacudiu a cabeça. Ele devia ter previsto aquilo. Tio Earl passara seus últimos poucos meses de vida discursando sobre a importância da família, desapontando-se com a reação apática do sobrinho a seus sermões. Anthony se perguntava o porquê da surpresa de seu tio. Afinal, a família deles poderia ser usada como exemplo em uma campanha de métodos contraceptivos. Sempre que entrava e saía de um relacionamento, uma coisa ficava cada vez mais clara pra Anthony: toda mulher queria se casar, e casamento era sinônimo de confusão. Brigas por causa de sentimentos. Crianças disputando a atenção do casal, querendo sempre mais. A necessidade cada vez maior de espaço, até que o casamento terminasse como todos os outros relacionamentos. Divórcio. Com as crianças sendo as vítimas mais afetadas. Não, obrigado. Aumentou a inclinação e ajustou a velocidade, perdido no redemoinho de seus próprios pensamentos. Até o triste fim, Tio Earl manteve as esperanças de que uma mulher conseguiria salvar o sobrinho. O ataque cardíaco foi rápido e brutal. Quando os advogados apareceram, famintos como abutres ao odor de dinheiro sujo de sangue, Anthony achou que os trâmites legais seriam simples. Sophia, sua irmã, já havia deixado muito claro que não queria se envolver nos negócios da família. Tio Earl não tinha outros parentes. Assim, pela primeira vez, Anthony achou que sua sorte havia mudado. Finalmente teria algo que fosse só dele. Até que os advogados leram o testamento. E então, Anthony entendeu que seu tio rira por último. Anthony herdaria a grande maioria das ações da Dreamscape assim que se casasse. O casamento, com qualquer mulher à sua escolha, deveria durar no mínimo um ano, e era aceitável que se fizesse um contrato pré-nupcial. Caso Anthony decidisse não obedecer aos desejos de seu tio, ficaria com 51% das ações; o restante seria dividido entre os demais membros do conselho, e Anthony acabaria com um cargo de fachada. Em vez de projetar os edifícios, ele ficaria preso em reuniões e na política corporativa – que era exatamente o que ele não queria para sua vida. E Tio Earl sabia disso muito bem. E era por isso que, agora, Anthony precisava encontrar uma esposa. Pressionou o botão para diminuir a inclinação. Reduziu o passo, e sua respiração se estabilizou. Com precisão metódica, sua mente deixou para trás o vazio emocional e examinou as possibilidades. Desceu da esteira, pegou no frigobar uma garrafa de Evian gelada e voltou à sua cadeira. Bebeu um gole do líquido puro e gelado e pousou a garrafa suada na mesa. Levou alguns minutos organizando os pensamentos, e então pegou a caneta dourada, rolando-a entre os dedos.. Escreveu as palavras como se cada uma fosse um prego em seu próprio caixão: Encontrar uma esposa. Anthony decidiu que não perderia mais tempo remoendo a injustiça da situação. Resolveu fazer uma lista de atributos específicos que sua esposa precisaria ter, depois ver se conhecia alguma candidata apropriada. Uma imagem de Gabriella veio à sua mente, mas ele ignorou o pensamento. Sua atual namorada, uma supermodelo estonteante, era a companhia perfeita para eventos sociais e ótima na cama, mas não para casamento. Ele gostava muito da companhia de Gabriella, com quem sempre tinha conversas inteligentes e interessantes, mas sentia que ela já estava se apaixonando por ele. Também havia dado alguns indícios de sua vontade de ter filhos, o que estava fora de cogitação. Quaisquer que fossem as regras que ele estabelecesse para seu casamento, sentimentos estragariam tudo. Ela se tornaria ciumenta e exigente, como toda esposa, e não havia acordo pré-nupcial capaz de protegê-lo de sua ganância quando ela se sentisse traída. Bebeu mais um gole d’água e circulou com o polegar a boca da garrafa. Ele tinha lido uma vez que, se um homem fizesse uma lista das qualidades que admirava em uma mulher, logo uma moça assim apareceria em sua vida. Seu semblante se fechou. Tinha quase certeza de que a teoria tinha a ver com o universo ou algo assim. Receber de volta o que você mesmo manda para o cosmos. Uma baboseira metafísica qualquer em que ele não acreditava. Mas hoje ele estava desesperado. Pousou a caneta no canto superior esquerdo da página e começou a escrever sua lista. Uma mulher que não me ame. Uma mulher com quem eu não queira dormir. Uma mulher que não tenha uma família grande. Uma mulher que não tenha animais. Uma mulher que não queira filhos. Uma mulher que tenha uma carreira independente.. Uma mulher que veja o casamento como uma oportunidade de negócios. Uma mulher que não seja emocional ou impulsiva demais. Uma mulher em quem eu possa confiar. Anthony releu a lista. Sabia que estava sendo otimista demais em relação a algumas das características desejáveis, mas se a tal teoria do universo funcionasse, não custava nada incluir na lista tudo o que ele queria. Precisava de uma mulher que visse no projeto uma oportunidade de negócios. Alguém que talvez quisesse uma compensação generosa em dinheiro. Ele pretendia oferecer muitos benefícios adicionais, mas não queria nada além de um casamento de fachada. Sem s**o, não haveria ciúme. Sem uma mulher emocional demais, não haveria amor. Sem confusão, o casamento seria perfeito. Repassou em sua mente todas as mulheres com quem já havia saído, todas as amigas com quem já tinha trocado algumas palavras, todos os contatos profissionais com quem já havia almoçado. Não conseguiu nada. A frustração corroía seus nervos. Ele, um homem de 31 anos, racional, atraente, inteligente e com segurança financeira, não conseguia pensar em uma única mulher decente com quem se casar. Tinha uma semana para encontrar uma esposa. Seu celular tocou. Anthony atendeu: – Anthony. – Thony, sou eu, Sophia. – Ela fez uma pausa. – Já encontrou uma esposa? Uma risada curta escapou de seus lábios. Sua irmã era a única mulher do mundo que conseguia fazê-lo rir com frequência – ainda que, às vezes, fosse à custa de si mesmo. – Estou trabalhando nisso – disse ele. – Eu acho que a encontrei. O coração dele acelerou. – Quem? Outra pausa. – Você teria que aceitar os termos dela, mas não acho que isso vá ser um problema. Tente manter a cabeça aberta. E, apesar de não ser o seu forte, pode confiar nela. Ele conferiu o último item em sua lista. Um zunido estranho começou em seus ouvidos, como se soassem um alerta para as próximas palavras de sua irmã. – Quem é, Sophia? A linha ficou em silêncio por um instante.. – Penelope. A menção ao nome familiar de seu passado levou o quarto a se desfazer em uma névoa atordoante. Um único pensamento se repetia em sua mente como um mantra em néon vívido: –De jeito nenhum.
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